15 de julho de 2018

Capítulo 8

Para a irritação de Gansey, ele tinha sinal no telefone. Normalmente, algo a respeito de Cabeswater interferia com o sinal do celular, mas hoje seu telefone vibrava com textos sobre eventos de smoking para arrecadar fundos em Aglionby, enquanto ele subia e descia uma montanha.
As mensagens de sua mãe pareciam documentos de Estado.
Diretor Child concorda que o tempo será apertado, mas, afortunadamente, minha equipe tem prática suficiente a essa altura para realizá-lo em tempo hábil. Será maravilhoso fazer isso com você e a escola.
As mensagens de seu pai eram joviais, de homem para homem.
O dinheiro não é a questão, será apenas algo a ser “feito”. Não chame de um evento para arrecadar fundos, trata-se apenas de um baile animado.
Sua irmã Helen atalhava para os detalhes importantes.
Apenas me diga quanto sarro a imprensa vai tirar de seus melhores amigos para que eu possa começar a dar um jeito nisso agora.
Gansey continuava achando que o sinal cairia, mas ele seguia forte e verdadeiro. Isso significava que ele estava simultaneamente recebendo mensagens sobre a situação dos hotéis em Henrietta para convidados de fora da cidade e também observando uma árvore mágica exsudando algum tipo de líquido escuro que parecia tóxico.
Greywaren, sussurrou uma voz de galhos distantes. Greywaren.
O líquido formou gotas da casca da árvore, semelhantes a suor, juntando-se em uma lenta e viscosa cascata. Todos a observaram, exceto a garota estranha, que pressionou o rosto contra o lado de Ronan. Gansey não a culpava. A árvore era um pouco... difícil de olhar de frente. Ele não havia considerado como poucas coisas na natureza eram puramente negras, até ver a seiva com aquele tom de piche. A escuridão absoluta que borbulhava no tronco parecia venenosa ou artificial.
O telefone de Gansey zuniu novamente.
— Gansey, cara, essa árvore doente está interferindo no seu tempo digital? — perguntou Ronan.
A realidade era que o tempo digital estava interferindo no seu tempo de árvore doente. Cabeswater era um santuário para ele. A presença de mensagens ali parecia tão deslocada quanto a escuridão que exsudava da árvore. Ele desligou o telefone e perguntou:
— Essa é a única árvore desse jeito?
— Que eu tenha encontrado em minhas caminhadas — respondeu Aurora. Sua expressão continuava imperturbável, mas ela seguia passando uma mão sobre o comprimento do cabelo.
— Isso está prejudicando a árvore — disse Blue, espichando a cabeça para trás para olhar para o dossel que definhava.
A árvore escura era o oposto de Cabeswater. Quanto mais tempo Gansey passava em Cabeswater, mais espantado ele ficava com ela. Quanto mais tempo ele passava olhando para a seiva negra, mais perturbado ele ficava com ela.
— Isso faz alguma coisa? — ele perguntou.
Aurora inclinou a cabeça.
— O que você quer dizer? Fora o que está fazendo?
— Não sei — ele disse. — Não sei o que eu quis dizer. Trata-se apenas de uma doença comum ou é algo mágico?
Aurora deu de ombros. A sua solução de problemas ia somente até encontrar outra pessoa para solucionar o problema. Enquanto Gansey circundava a árvore, ao menos tentando parecer útil, ele viu Adam se agachar na frente da garota órfã com cascos. Ela continuou olhando para algum ponto além dele enquanto Adam tirava seu relógio barato. Ele deu um tapinha sobre a mão dela, levemente, apenas para deixar claro que estava oferecendo seu relógio para ela. Gansey esperava que ela o ignorasse ou rejeitasse o presente, como havia feito com a rosa de Aurora, mas ela o aceitou, sem hesitação. Então, muito concentrada, começou a dar corda no relógio, enquanto Adam seguia agachado à sua frente, com o cenho franzido, por um momento mais.
Gansey se juntou a Ronan, bem perto da árvore. Assim próximo, a escuridão zunia com a ausência de som. Ronan disse algo em latim para a árvore, mas não houve resposta audível.
— Ela não parece ter voz — disse Aurora. — E parece muito esquisita. Sem perceber, estou voltando a ela, mesmo que não queira.
— Ela me faz lembrar o Noah — disse Blue. — Se decompondo.
A voz de Blue soou tão melancólica que Gansey sentiu, de súbito, o que ele e Blue realmente perdiam ao manter sua relação um segredo. Blue irradiava energia mediúnica para os outros, mas era no toque que ela recebia a sua de volta. Ela estava sempre abraçando sua mãe, segurando a mão de Noah, trançando seu cotovelo no de Adam, ou repousando suas botas sobre as pernas de Ronan, enquanto eles se sentavam no sofá. Tocando o pescoço de Gansey, bem entre o cabelo e o colarinho.
Essa preocupação em seu espírito demandava dedos tramados juntos, braços sobre ombros, rostos pousados sobre peitos.
Mas como Gansey era covarde demais para contar a Adam sobre apaixonar-se por ela, Blue teve de ficar parada ali, sozinha, com sua tristeza.
Aurora pegou a mão de Blue.
A vergonha difundiu-se por ele, escura como a seiva da árvore.
É realmente assim que você gostaria de passar o resto do seu tempo?
Um movimento súbito entre as árvores chamou a atenção de Gansey.
— Ah — disse Blue.
Três figuras. Familiares, impossíveis.
Eram três mulheres com o rosto de Blue — mais ou menos isso. Não era exatamente o rosto de Blue, mas lembrava o rosto de Blue. Talvez a diferença entre as duas coisas não fosse tão óbvia se a própria Blue não estivesse ali com eles. Ela era a realidade; elas eram o sonho.
Elas se aproximaram, como as coisas fazem em um sonho também. Estavam caminhando? Gansey não conseguia lembrar, embora estivesse vendo a cena acontecer. Elas estavam se aproximando. Isso era tudo o que ele sabia. As mãos delas estavam erguidas em ambos os lados do rosto; as palmas, vermelhas.
— Abram caminho — elas disseram juntas.
Os olhos de Ronan dispararam para Gansey.
— Abram caminho para o rei Corvo — elas disseram juntas.
A Garota Órfã começou a chorar.
— Cabeswater está tentando nos contar alguma coisa? — perguntou Gansey em voz baixa.
Elas estavam mais próximas. As sombras eram negras e as samambaias aos seus pés estavam morrendo.
— É um pesadelo — disse Adam. Sua mão direita segurou o punho de sua esquerda, o polegar pressionado no ponto de pulso. — Meu. Não quis pensar elas. Cabeswater, leve as mulheres embora.
As sombras estenderam-se até a escuridão da árvore, um pedigree de seiva negra provando sua linhagem. A escuridão borbulhou para fora da árvore um pouco mais rápido, e um galho acima deles gemeu.
— Abram caminho — elas disseram.
— Leve as mulheres embora — lamuriou a Garota Órfã.
— Cabeswater, dissolvere — disse Ronan. Aurora havia se colocado à frente dele, como se quisesse proteger o filho. Não havia nada vago a respeito dela agora.
As três mulheres se aproximaram. Mais uma vez, Gansey não percebeu como elas haviam feito isso. Elas estavam distantes, elas estavam próximas. Agora ele sentia o cheiro de putrefação. Não a decomposição muito doce de plantas ou alimento, mas o horror almiscarado da carne.
Blue afastou-se subitamente delas. Gansey achou que ela estivesse com medo, mas ela estava correndo para chegar até ele. Então tomou sua mão.
— Sim — disse Adam, compreendendo o que ela estava fazendo antes que Gansey o fizesse. — Gansey, diga as palavras.
Diga as palavras. Eles queriam que ele dissesse para as mulheres irem embora. Realmente, que dissesse a elas. Na caverna dos ossos, Gansey havia ordenado que os ossos despertassem, e os ossos despertaram. Ele havia usado a energia de Blue e a sua própria intenção para pronunciar um comando que tinha de ser ouvido. Mas Gansey não compreendia por que ele havia funcionado, e por que fora ele, e como Adam, Ronan ou Blue haviam conseguido dominar suas aptidões mágicas, pois ele certamente não conseguia.
— Abram caminho para o rei Corvo — disseram as mulheres novamente, posicionando-se à frente de Gansey. Três Blues falsas encarando Blue e Gansey.
Para o espanto de Gansey, Blue abriu um canivete com a mão livre. Ele não tinha dúvida de que ela o usaria: afinal, ela acertara Adam uma vez com ele. No entanto, ele duvidava muito de que o canivete seria efetivo contra esses três pesadelos que tinha diante de si.
Gansey encarou os olhos escuros das três mulheres. Empostou a voz com convicção e disse:
— Cabeswater, nos salve.
As três mulheres desapareceram como uma chuva.
Elas respingaram sobre a roupa de Blue e sobre os ombros de Gansey, e então a água se dissolveu no chão. Blue soltou um breve suspiro gemido, os ombros desabando.
As palavras de Gansey haviam funcionado mais uma vez, e ele continuava sem fazer a menor ideia de por que ou como deveria usar essa capacidade. Glendower controlara o tempo com suas palavras e falara com pássaros; Gansey se agarrava à possibilidade de que o seu rei, quando encontrado e desperto, explicaria as complexidades de Gansey para Gansey.
— Desculpe — disse Adam. — Foi uma idiotice da minha parte. Eu não tomei cuidado. E essa árvore é... Acho que ela amplificou isso.
— Talvez eu esteja amplificando também — disse Blue, encarando os ombros de Gansey, respingados de chuva, com uma expressão tão desconcertada que ele olhou de relance para o próprio blusão para ter certeza de que o borrifo não havia feito buracos no tecido. — Podemos... podemos sair de Cabeswater agora?
— Acho que seria inteligente — aconselhou Aurora. Ela não parecia particularmente preocupada, só pragmática, e ocorreu a Gansey que, para um sonho, talvez um pesadelo fosse simplesmente um conhecido desagradável em vez de qualquer coisa sinistra.
— Você deve ficar longe dela — disse Ronan para sua mãe.
— Ela me encontra — Aurora disse.
— Operae pretium est — disse a Garota Órfã.
— Não seja esquisita — Ronan lhe disse. — Não estamos mais num sonho. Em inglês.
Mas ela não traduziu, e Aurora estendeu o braço para tocar a cabeça da menina, coberta por um solidéu.
— Ela será minha pequena ajudante. Vamos lá, vou acompanhar vocês até a saída.


De volta à entrada da floresta, Aurora os acompanhou até o Suburban. O carro estava fora dos limites da floresta, mas ela jamais caía no sono direto. Diferentemente das criaturas sonhadas de Kavinsky, que caíram no sono imediatamente após a sua morte, a esposa de Niall Lynch sempre conseguia persistir por um pouco mais de tempo sozinha. Ela ficara acordada por três dias após a sua morte. Uma vez ela ficara acordada por uma hora fora de Cabeswater. Mas, no fim, o sonho precisava do sonhador.
Então agora, enquanto os acompanhava até o Suburban, Aurora parecia mais ainda um sonho. Uma vez fora de Cabeswater, uma visão que perambulou para a vida desperta, trajada em flores e luz.
— Mande um beijo para o Matthew — disse Aurora, e abraçou Ronan. — Foi muito bom ver todos vocês novamente.
— Fique com ela — ordenou Ronan à Garota Órfã, que soltou um palavrão para ele. — Cuidado com o que você diz perto da minha mãe.
A garota disse algo mais, de modo ligeiro e adorável, e ele disparou:
— Não consigo entender isso quando estou acordado. Você tem que usar inglês ou latim. Você queria sair; você está na rua agora. As coisas são diferentes.
Seu tom chamou a atenção tanto de Aurora quanto de Adam.
— Não fique triste, Ronan — disse Aurora, o que o fez desviar os olhos de todos os outros, com uma postura de ombros impassível e furiosa.
Ela girou em um círculo, com as mãos estendidas.
— Vai chover — ela disse, e então se ajoelhou delicadamente.
Parado, sombrio e absolutamente real, Ronan fechou os olhos.
— Eu te ajudo a carregá-la — disse Gansey.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!