4 de julho de 2018

Capítulo 8

Naquela noite, Blue se recostou contra a faia em seu quintal, os olhos voltados para cima, para as estrelas, e os dedos tocando a casca fria e lisa de uma das raízes. A luz da cozinha que passava pela porta de correr parecia distante.
Isso foi impressionante, Jane.
Embora Blue soubesse perfeitamente os efeitos positivos de sua capacidade, ela nunca havia considerado realmente o contrário. E, no entanto, Noah teria destruído a Indústria Monmouth se ela não tivesse se desligado dele.
As estrelas piscavam através das folhas da faia. Ela lera que estrelas novas tendiam a se formar em pares. Estrelas binárias, orbitando próximas, somente se tornando estrelas únicas quando sua parceira fosse destruída por outro par de estrelas novas girando ao acaso. Se ela forçasse a imaginação, podia ver a profusão de pares se prendendo uns aos outros na gravidade destrutiva e criativa de suas constelações.
Impressionante.
Talvez ela estivesse um pouco impressionada. Não por desconectar um garoto morto — isso parecia triste, nada para se gabar. Mas porque ela aprendera algo a respeito de si mesma naquele momento, quando achara que não havia mais nada a ser descoberto.
As estrelas se moviam lentamente acima de Blue, uma gama de possibilidades, e, pela primeira vez em muito tempo, ela as sentiu refletidas em seu coração.
Calla abriu a porta de correr.
— Blue?
— O quê?
— Se você já terminou de vagabundear por hoje, eu poderia usar o seu corpo — disse Calla. — Eu tenho uma leitura.
Blue ergueu as sobrancelhas. Maura só pedia sua ajuda durante leituras importantes, e Calla jamais pedia, ponto-final. A curiosidade em vez da obediência pôs Blue de pé.
— A essa hora? Agora?
— Estou pedindo agora, não estou?
Uma vez dentro de casa, Calla andou de um lado para o outro na sala de leitura e chamou Persephone tantas vezes que Orla gritou que algumas pessoas estavam tentando conduzir telefonemas, e Jimi gritou:
— Posso ajudar em alguma coisa?
Toda a confusão deixou Blue estranhamente nervosa. Na Rua Fox, 300, as leituras aconteciam com tanta frequência que pareciam ao mesmo tempo mecânicas e pouco mágicas. Mas aquilo parecia um caos. Parecia que qualquer coisa poderia acontecer.
A campainha tocou.
— PERSEPHONE, EU TE DISSE — gritou Calla. — Blue, atenda a porta. Vou estar na sala de leitura. Traga ele aqui.
Quando Blue abriu a porta da frente, encontrou um estudante da Aglionby parado sob o brilho da luz da varanda. Mariposas esvoaçavam em torno de sua cabeça. Ele vestia calças em um tom de salmão e mocassins brancos, e exibia uma pele perfeita e um cabelo desgrenhado.
Então os olhos de Blue se ajustaram à claridade e ela percebeu que ele era velho demais para ser um garoto corvo. Na realidade, bem mais velho; difícil imaginar como ela pensara isso, mesmo que por um momento.
Blue franziu o cenho para os sapatos e então para o rosto dele. Embora tudo a respeito dele tivesse sido cultivado para impressionar, ela o considerou menos impressionante do que poderia alguns meses antes.
— Olá.
— Opa — ele respondeu com um sorriso alegre, cheio de belos dentes, como já era de esperar. — Vim aqui para sondar o meu futuro. Espero que a hora ainda seja boa.
— Você espera certo, marinheiro. Entre.
Na sala de leitura, Calla havia recebido a companhia de Persephone. Elas estavam sentadas de um lado da mesa, como um júri. O homem parou do outro lado delas, batucando preguiçosamente os dedos no encosto de uma cadeira.
— Sente-se — entoou Calla.
— Em qualquer velha cadeira — acrescentou Persephone suavemente.
— Não em qualquer velha cadeira — disse Calla e apontou. — Nesta.
Ele se sentou do outro lado, os olhos brilhantes correndo por todos os cantos do aposento enquanto se ajeitava, o corpo dinâmico. Ele parecia uma pessoa que fazia as coisas. Blue não conseguia decidir se ele era bonito ou se o jeito dele a estava fazendo acreditar nisso.
— Bom, como funciona? Eu pago adiantado ou vocês decidem quanto vai sair quando virem como o meu futuro é complicado? — ele perguntou.
— A qualquer momento está bom — disse Persephone.
— Não — disse Calla. — Agora. Cinquenta.
Ele abriu mão das notas sem rancor.
— Poderiam me dar um recibo? Gasto de negócios. Aliás, aquele é um retrato fantástico de Steve Martin, ali do outro lado. Observem como os olhos dele nos seguem pelo aposento.
— Blue, você pegaria o recibo? — perguntou Persephone.
Parada junto à porta, Blue saiu em busca do talão de recibos para escrever o montante. Quando voltou, Persephone estava dizendo para Calla:
— Ah, vamos ter que usar só as suas. Não estou com as minhas.
— Não está com as suas! — Calla respondeu incrédula. — O que aconteceu com elas?
— O camiseta da Coca-Cola está com elas.
Bufando irritada, Calla pegou suas cartas de tarô e instruiu o homem a embaralhá-las. Então completou:
— Depois você devolve para mim, viradas para baixo, e eu tiro as cartas.
Ele começou.
— Enquanto embaralha, pense no que gostaria de saber — acrescentou Persephone em voz baixa. — Isso vai deixar a leitura bem mais precisa.
— Bom, bom — ele respondeu, embaralhando as cartas mais agressivamente e lançando um olhar de relance para Blue. Então, sem avisar, virou o baralho de maneira que as cartas estivessem voltadas para cima. E as abriu como um leque, os olhos atentos à seleção.
Não fora assim que Calla o havia instruído.
Algo nos nervos de Blue formigou um aviso.
— Então, se a questão é “Como eu posso fazer isso acontecer?” — ele tirou uma carta do baralho e a colocou sobre a mesa —, isso seria um bom começo, certo?
Houve um silêncio mortal.
A carta era o três de espadas. Trazia um coração sanguinolento atravessado pelas supracitadas três espadas. Sangue pingava das lâminas. Maura a chamava de “a carta da desilusão”.
Blue não precisava de percepção mediúnica para sentir a ameaça que transpirava dela.
As médiuns encararam o homem. Com um frio na barriga, Blue percebeu que elas não esperavam por essa.
— Qual é a sua? — rosnou Calla.
Ele seguiu sorrindo seu sorriso alegre e simpático.
— Eis a questão: Existe outra de vocês? Uma que pareça mais com aquela? — e apontou para Blue, cujo estômago se revirou desagradavelmente uma vez mais.
Mãe.
— Vá para o inferno — irrompeu Calla.
Ele anuiu.
— Foi o que pensei. Vocês a estão esperando em breve? Eu adoraria bater um papo com ela em particular.
— Inferno — disse Persephone. — Na realidade, eu concordo neste caso. Quanto a ir para lá.
O que esse homem quer com a minha mãe?
Blue memorizou freneticamente tudo sobre ele, de maneira que pudesse descrevê-lo mais tarde.
O homem ficou de pé, juntando o três de espadas.
— Sabem de uma coisa? Vou ficar com isso. Obrigado pela informação.
Quando ele se virou para ir embora, Calla partiu atrás dele, mas Persephone colocou um único dedo sobre o braço dela, o que a fez parar.
— Não — disse Persephone suavemente. A porta da frente se fechou. — Esse aí não deve ser tocado.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!