30 de julho de 2018

Capítulo 7


AURANOS

Tomas estendeu a mão a Cleo como se implorasse a ajuda dela. Tentou falar, mas não conseguiu — a lâmina estava alojada em sua garganta. Ele nunca mais diria uma palavra. O sangue que jorrava da boca acumulava-se à sua volta e formava um lago escarlate sem fundo.
Cleo estava se afogando em sangue. Ele a inundava, cobrindo sua pele, fazendo-a engasgar.
— Por favor, socorro! Socorro! — Ela lutava para chegar ao ar frio da superfície, acima do sangue espesso e quente.
Uma mão agarrou a dela com força e a puxou para cima.
— Obrigada!
— Não me agradeça, princesa. Implore para que eu não a mate.
Os olhos dela se arregalaram ao olhar para o rosto do irmão do rapaz assassinado. Os traços de Jonas Agallon estavam marcados pelo sofrimento e pelo ódio. As sobrancelhas escuras se juntaram sobre os olhos cor de mogno.
— Implore — ele repetiu, afundando os dedos dolorosamente em sua carne, com força suficiente para machucá-la.
— Por favor, não me mate! Eu… eu sinto muito. Eu não queria que seu irmão morresse. Por favor, não me machuque!
— Mas eu quero machucar você. Quero que sofra por tudo o que fez.
Ele a empurrou de volta para baixo. Cleo estremeceu quando o próprio rapaz assassinado agarrou seu tornozelo e começou a puxá-la cada vez mais para o fundo daquele oceano de morte.
Cleo se sentou na cama gritando. Estava enrolada nos lençóis de seda, com o corpo molhado de suor e o coração pulsando nos ouvidos. Olhava desesperada para o quarto.
Estava sozinha. Estava apenas sonhando.
O mesmo pesadelo a atormentava todas as noites havia um mês. Desde o assassinato de Tomas Agallon. Tão intenso e tão real, embora não passasse de um sonho alimentado por uma culpa infinita. Ela soltou um longo e trêmulo suspiro e caiu novamente sobre os travesseiros de seda.
— Isso é loucura — sussurrou. — Está feito. Acabou. Não há como mudar nada.
Se houvesse alguma possibilidade de mudar o acontecido, ela teria dito para Theon intervir e impedir a negociação de Aron. Sua dissimulação. Sua arrogância. Teria dado um fim naquilo antes que acabasse daquele modo terrível, fatal.
Ela estava evitando Aron desde que haviam voltado a Auranos. Se ele aparecia em alguma reunião social, ela saía. Se ele se aproximasse para conversar, ela direcionava sua atenção a outro grupo de amigos. Ele ainda não havia reclamado, mas ela sabia que era apenas uma questão de tempo.
Aron gostava de ser incluído no círculo de amizades da princesa sempre que possível. E se ele ameaçasse expor seu segredo devido a qualquer mínima desfeita…
Ela apertou os olhos e tentou não entrar em pânico com a possibilidade.
Depois de um mês inteiro evitando, Cleo sabia que precisava falar com Aron. Ela desejava descobrir se ele também tinha pesadelos com o que havia acontecido. Se sentia a mesma culpa. Se ela ia ficar noiva daquele garoto por insistência de seu pai, precisava saber se ele não era um monstro capaz de matar alguém a sangue-frio sem se importar com a dor que havia causado.
Se Aron estivesse atormentado pela culpa, aquilo poderia mudar as coisas para ela. Talvez ele, como ela, estivesse aflito por suas ações, e tentasse esconder seus verdadeiros sentimentos do mundo. Eles teriam alguma coisa em comum — o que seria um começo, pelo menos. Ela decidiu falar com ele em particular o quanto antes.
Ainda assim, passou o resto da noite se revirando na cama.
De manhã, Cleo se levantou, se vestiu e tomou café da manhã com frutas, queijo e pão levados ao quarto por uma criada do palácio. Depois respirou fundo e abriu a porta.
— Bom dia, princesa — disse Theon.
Pela manhã, ele costumava esperar no fim do corredor, pronto para seus deveres de guarda pessoal — que incluíam vigiar a princesa durante o dia todo a uma distância que pudesse ser notada por sua visão periférica.
— Bom dia — ela respondeu da forma mais casual possível.
Ela precisava despistar sua sombra se quisesse falar com Aron em particular. Felizmente, sabia que não era impossível. Desde que Theon assumira seu novo cargo, ela o havia testado algumas vezes para ver se conseguiria se esconder dele. Havia se tornado um pequeno jogo que ela ganhava com frequência. Theon, no entanto, não achava graça naquilo.
— Preciso falar com minha irmã — ela disse, com firmeza.
Theon assentiu.
— Pois não. Não sou eu que vou impedir.
Ela seguiu pelo corredor, surpresa quando virou e viu Mira andando em sua direção. Sua amiga parecia chateada e distraída. O sorriso imediato que sempre se desenhava no rosto redondo e belo de Mira ao ver a princesa não apareceu.
— O que aconteceu? — perguntou Cleo, pegando no braço da amiga.
— Não deve ser nada, mas vou chamar um curandeiro para ver Emilia.
Cleo franziu a testa.
— Ela ainda está doente?
— Suas dores de cabeça e tonturas parecem piorar a cada dia. Ela insiste que só precisa dormir um pouco mais, mas eu acho que é melhor alguém dar uma olhada nela.
A preocupação tomou conta de Cleo.
— É claro. Obrigada, Mira.
Mira fez um gesto com a cabeça e, olhando para Theon parado perto delas, continuou andando.
— Minha irmã — Cleo disse baixinho — nunca aceita ajuda, a menos que seja obrigada. O dever acima de tudo. Exatamente como uma princesa deve ser. Meu pai ficaria tão orgulhoso.
— Ela parece muito corajosa — respondeu Theon.
— Talvez. Mas dizem que eu sou a teimosa. Se eu sentisse tonturas o tempo todo, pediria dezenas de curandeiros ao redor de minha cama para me fazer sarar. — Ela fez uma pausa na porta dos aposentos de Emilia. — Por favor, deixe-me falar em particular com minha irmã.
— É claro. Vou esperar bem aqui.
Ela entrou no quarto de Emilia e fechou a porta. Sua irmã estava no terraço, observando o jardim. O sol batia nas protuberantes maçãs do rosto da garota e captava brilhos dourados em seu cabelo, alguns tons mais escuro do que o de Cleo, já que Emilia não era muito dada a passar tanto tempo ao ar livre. Ela olhou para trás.
— Bom dia, Cleo.
— Ouvi dizer que você não está bem.
Emilia suspirou, mas um sorriso se esboçou em seus lábios.
— Garanto que estou bem.
— Mira está preocupada.
— Mira sempre está preocupada.
— Pode ser que você tenha razão. — Mira tendia a exagerar as coisas, lembrou Cleo, como da vez em que insistira que havia uma víbora em seu quarto e, no fim das contas, não passava de uma inofensiva cobra de jardim. Cleo relaxou um pouco. Além disso, Emilia parecia estar perfeitamente saudável.
Emilia analisou o rosto da irmã.
— Você está com uma expressão conspirativa hoje. Pretende fazer alguma coisa que não deve?
Cleo não conteve o riso.
— Talvez um pouco.
— O quê?
— Fugir — ela olhou pela janela. — Usando sua grade, como costumávamos fazer.
— Ah, é? Posso perguntar o motivo? — Emilia não pareceu nem um pouco surpresa com a confissão. Ela mesma havia ensinado Cleo a descer para o jardim quando eram bem pequenas, antes de Emilia começar a se transformar numa princesa equilibrada e perfeita. Quando não se importava em se sujar, nem em esfolar os joelhos com a irmã mais nova. Agora Cleo era a única que consideraria tal façanha. Uma futura rainha como Emilia nunca faria coisas perigosas assim, arriscando se ferir.
— Preciso me encontrar com Aron. A sós.
Emilia levantou uma sobrancelha, expressando reprovação.
— Nosso pai ainda nem anunciou o noivado e você já está escapulindo para algum tipo de romance ilícito antes do compromisso se tornar oficial?
O estômago de Cleo revirou.
— Não é por isso que quero me encontrar com ele.
— Ele será um bom marido, você sabe.
— É claro que sim — Cleo disse, transbordando sarcasmo. — Assim como Darius seria um bom marido para você.
O olhar de Emilia ficou hostil.
— Que língua afiada, Cleo. Você precisa prestar atenção para onde a aponta ou pode acabar machucando alguém.
Cleo corou, envergonhada. Ela havia pisado em um território extremamente desagradável.
Lorde Darius Larides era o homem de quem Emilia havia se tornado noiva no ano anterior, aos dezoito anos de idade. No entanto, quanto mais perto chegavam da data do casamento, mais Emilia afundava em depressão só de pensar em se casar com ele — mesmo todos concordando que se tratava de um bom partido: alto, bonito, carismático. Ninguém sabia o porquê, mas Cleo achava que sua irmã tinha se apaixonado por outra pessoa. Contudo, se era verdade, ela nunca descobriu por quem. Emilia nunca havia flertado com os homens do palácio, e parecia um tanto triste nas últimas semanas. Constrangida, Cleo mudou de assunto.
— Preciso ir enquanto posso — Cleo sussurrou, olhando para o terraço. A grade do lado de fora era tão boa e forte quanto uma escada.
— Está tão decidida a fugir de seu novo guarda? E deixá-lo, suponho, espreitando do lado de fora de meus aposentos?
Cleo sorriu de maneira suplicante.
— Volto o mais rápido que puder. Ele nunca vai saber que eu saí.
— E o que sugere que eu diga se ele quiser conferir se está tudo bem?
— Que eu descobri de repente que tenho a magia do ar, ou algo do tipo, e me fiz desaparecer. — Ela apertou as mãos da irmã ao passar por ela na janela, decidida a prosseguir com seu plano. Ficaria fora por menos de quinze minutos, depois voltaria.
— Você sempre teve uma queda por aventuras — Emilia disse, compassiva. — Bem, seja por romance ou não… boa sorte.
— Obrigada. Posso precisar.
Cleo passou as pernas pela lateral do terraço e desceu com facilidade pela grade, caindo suavemente sobre a grama. Sem olhar para cima, ela logo seguiu pelos jardins do palácio, passando pelo castelo principal e pela região de quintas luxuosas, ainda dentro da muralha do castelo. Apenas os nobres mais importantes podiam viver ali, protegidos de qualquer ameaça externa.
As dependências do palácio eram quase uma cidade, com cafés a céu aberto e tavernas, estabelecimentos comerciais, ruas de pedras e jardins floridos muito bem cuidados, um deles com um amplo labirinto de cercas vivas onde Cleo e Emilia já haviam dado uma festa. Mais de duas mil pessoas viviam ali com felicidade e prosperidade, e pouquíssimas se davam ao trabalho de sair do complexo.
A quinta dos Lagaris era uma das residências mais impressionantes, a apenas cinco minutos de caminhada do castelo, construída com os mesmos materiais dourados do próprio palácio. Aron estava do lado de fora, fumando uma cigarrilha. Ele observou a aproximação de Cleo com um sorriso preguiçoso no belo rosto.
— Princesa Cleiona — disse lentamente, exalando uma longa linha de fumaça. — Que surpresa agradável.
Ela olhou para a cigarrilha com nojo. Nunca entendeu o interesse que algumas pessoas tinham em sugar fumaça ardente de folhas de pessegueiro e outras ervas amassadas e depois soltar. Diferente do vinho, cigarrilhas eram asquerosas; o cheiro não tinha semelhança alguma com o perfume dos pêssegos.
— Quero falar com você — ela afirmou.
— Só estava aqui sentado vendo a manhã passar, pensando que estava muito entediado a ponto de ter que fazer algo a respeito. — Havia uma moleza conhecida em suas palavras, mas não muito pronunciada. Muitos não notariam, mas Cleo sabia muito bem que era um sinal de que Aron já tinha começado a beber. Não era nem meio-dia.
— E o que você pretendia fazer? — ela perguntou.
— Ainda não tinha decidido. — Seu sorriso se ampliou. — Mas agora não é mais necessário. Você está aqui.
— E isso é bom?
— É claro. É sempre um prazer vê-la. — Ele olhou para a saia de seda azul-clara de Cleo, amassada e suja por ter descido do quarto de Emilia. — Ficou dando cambalhotas em canteiros de flores no caminho para cá?
Ela limpou a mancha rapidamente.
— Mais ou menos isso.
— Estou honrado por ter feito esse esforço. Poderia ter mandado um recado para eu encontrá-la.
— Queria falar com você em particular.
Aron olhou para ela com curiosidade.
— Você quer falar sobre o que aconteceu em Paelsia, não é?
Cleo se sentiu empalidecer.
— Vamos entrar, Aron. Não quero que ninguém nos ouça.
— Como quiser.
Aron empurrou a porta pesada e deixou a princesa entrar no vestíbulo, um espaço com teto alto e convexo e piso de mármore instalado na forma de raios de sol. Na parede havia um grande retrato de Aron quando era um garoto novo de pele branca, junto de seus belos pais. Ele ficou perto da porta, mantendo-a um pouco aberta para dissipar o cheiro da fumaça. Seus pais não aprovavam que ele fumasse dentro de casa. Aron podia ser arrogante e cheio de si, mas ainda tinha dezessete anos e devia obedecer as regras dos pais até seu próximo aniversário — a menos que quisesse sair de casa antes da hora. E Cleo não tinha dúvidas de que ele não queria aquele tipo de responsabilidade, financeira ou qualquer outra.
— E então, Cleo? — ele perguntou depois de um longo minuto de silêncio.
Ela juntou coragem e se virou na direção de Aron. Esperava que falar com ele apaziguasse a culpa que sentia pelo assassinato e ajudaria a pôr um ponto final em seus pesadelos. Ela queria que ele justificasse suas ações, que tudo fizesse sentido para ela.
— Não consigo parar de pensar no que aconteceu com o filho do vendedor de vinho. — Ela piscou, chocada ao descobrir que seus olhos estavam se enchendo de lágrimas. — Você consegue?
O olhar dele endureceu.
— É claro que não.
— Como você… se sente? — Ela prendeu a respiração.
O rosto dele ficou tenso. Jogou fora a cigarrilha pela metade, abanando a fumaça que ficara para trás.
— Eu estou confuso.
Ela já sentia um grande alívio. Se teria que ficar noiva de Aron, precisava saber se concordavam em relação à maioria das questões.
— Tive pesadelos. Todas as noites.
— Com a ameaça do irmão? — ele perguntou.
Ela confirmou. Parecia que Jonas Agallon ainda estava olhando nos olhos dela. Ninguém havia olhado para ela com tanto ódio antes.
— Você não devia ter matado aquele garoto.
— Ele estava vindo pra cima de mim. Você viu.
— Ele estava desarmado!
— Mas tinha seus punhos. Tinha ódio. Podia ter me estrangulado ali mesmo.
— Theon não deixaria isso acontecer.
— Theon? — Ele franziu a testa. — Ah, o guarda? Ouça, Cleo. Sei que está chateada, mas aconteceu, e não tem volta. Tente entender isso.
— Gostaria muito, mas não consigo. — Ela suspirou, trêmula. — Não gosto de morte.
Ele riu e ela ficou séria. Logo Aron se conteve.
— Sinto muito, mas é claro que você não gosta de morte. Quem gosta? É confuso e desagradável, mas acontece. Mais do que você imagina.
— Gostaria que aquilo não tivesse acontecido?
— O quê? A morte do filho do camponês?
— O nome dele era Tomas Agallon — ela disse em voz baixa. — Ele tinha um nome. Ele tinha uma vida e uma família. Estava feliz e sorridente quando chegou à banca. Estava indo para o casamento da irmã – você viu a cara dela? Ela ficou arrasada. Aquela discussão nem devia ter começado. Se gostou tanto do vinho, devia ter pago a Silas Agallon um valor justo por ele.
Aron encostou-se na parede ao lado da porta.
— Ah, Cleo, não me diga que está mesmo preocupada com isso.
Ela franziu a testa.
— É claro que estou.
Ele revirou os olhos.
— Por favor. Um vendedor de vinho em Paelsia? Desde quando se preocupa com assuntos tão sem importância? Você é a princesa de Auranos. Pode ter tudo o que desejar, quando desejar. Só precisa pedir, e é seu.
Cleo não sabia ao certo o que aquilo tinha a ver com o preço pedido pelo vendedor de vinho.
— É assim mesmo que você me vê?
— Vejo você exatamente como é. Uma bela princesa. E sinto muito por não conseguir ficar tão aflito em relação a tudo isso quanto você gostaria que eu ficasse. Eu o matei. Aconteceu. Fiz o que precisava fazer naquela hora e não me arrependo. — O olhar dele endureceu. — Agi apenas por instinto. Já cacei muitas vezes antes, mas foi diferente. Tirar a vida de outra pessoa… nunca me senti tão poderoso em toda a minha vida.
Um calafrio de repulsa percorreu o corpo dela.
— Como pode ficar tão calmo em relação a isso?
Ele a encarou.
— Preferia que eu mentisse e dissesse que também tenho pesadelos? Isso atenuaria sua própria culpa?
Cleo murchou. Era exatamente o que queria.
— Quero a verdade.
— E foi o que eu lhe dei. Devia fica grata, Cleo. Poucos falam a verdade por aqui, mesmo quando ela é solicitada.
Aron era lindo. Ele vinha de uma família nobre. Era irônico e sagaz. E Cleo nunca detestara tanto uma pessoa desse jeito.
Não podia se casar com ele. Era impossível.
Uma firme determinação tomou conta de Cleo. Antes de visitar Paelsia, estava disposta a ceder — até certo ponto — e permitir que seu pai tomasse por ela decisões importantes como aquela. Afinal, ele era o rei.
— Ficou sabendo dos planos de meu pai? — ela perguntou a ele.
Aron inclinou a cabeça, olhando nos olhos dela.
— Já está mudando de assunto?
— Talvez.
— Sinto muito por estar chateada com o que aconteceu em Paelsia.
Ele disse aquilo sem emoção, nem mesmo uma ponta. Devia estar vagamente triste pela chateação de Cleo, mas não demonstrava remorso pelo acontecido, nem parecia assombrado pelos ecos da ameaça de morte do irmão enlutado.
— Obrigada — ela agradeceu.
— Agora, se fiquei sabendo dos planos de seu pai? — Ele cruzou os braços diante do peito e andou devagar em volta dela. De repente Cleo se sentiu como um cervo novo sendo observado por um lobo faminto. — Seu pai é o rei. Ele tem muitos planos.
— O plano que envolve nós dois — ela afirmou, virando-se quando ele se virou, de modo que pudessem manter contato visual.
— Nosso noivado.
Ela ficou tensa.
— Isso mesmo.
— Quando acha que ele vai anunciá-lo?
Um fio gelado de suor desceu pelas costas de Cleo.
— Eu não sei.
Ele assentiu.
— Foi um choque para você.
Ela soltou outro suspiro trêmulo.
— Eu só tenho dezesseis anos.
— É jovem para um anúncio como esse, eu concordo.
— Meu pai gosta de você.
— O sentimento é mútuo. — Ele inclinou a cabeça para o outro lado. — Eu gosto de você também, Cleo, caso tenha esquecido. Não duvide, se é esse o motivo de ter vindo.
— Não foi.
— Não deveria ter sido uma surpresa tão grande para você. Segundo os rumores, mais cedo ou mais tarde o nosso noivado aconteceria.
— Então acha que está tudo bem?
Aron deu de ombros, passando os olhos por Cleo de maneira predatória.
— Sim, para mim está tudo bem.
“Diga, Cleo. Não deixe passar nem mais um minuto”, ela pensou.
A princesa limpou a garganta.
— Não sei se é uma boa ideia.
Ele parou de andar em círculos.
— Perdão?
— Esse… esse casamento. Não parece certo. Não agora, pelo menos. Quero dizer… nós somos amigos. É claro que somos. Mas não estamos… — Sua boca secou. Por um instante, desejou um pouco de vinho — qualquer vinho — para tornar o mundo dourado e maravilhoso novamente.
— Apaixonados? — Aron terminou a frase por ela.
Ela piscou e fez que sim com a cabeça, voltando os olhos para o sofisticado piso de mármore.
— Não sei o que dizer.
Ela esperou Aron dizer alguma coisa, diminuir a pressão e atenuar sua ansiedade, mas ele ficou em silêncio. Por fim, Cleo o encarou.
Ele a analisou, franzindo a testa.
— Quer pedir ao seu pai que não faça o anúncio, não é?
Ela engoliu em seco.
— Se nós dois concordarmos, será mais fácil convencê-lo de que não é a hora certa.
— Isso tem a ver com o que aconteceu em Paelsia, não tem?
Ela piscou os olhos.
— Eu não sei.
— É claro que sabe. Está chateada com um acontecimento que não tem consequência nenhuma para sua vida. Também chora sobre os cervos que são abatidos? Soluça sobre seu prato todas as noites quando lhe servem carne de caça para o jantar?
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Não é a mesma coisa, Aron.
— Ah, eu não sei. Matar um cervo, matar aquele garoto, o significado foi o mesmo para mim. Acho que você só não consegue enxergar direito. É jovem demais.
Ela se enfureceu.
— Você é só um ano mais velho que eu.
— É o suficiente para eu conseguir ver o mundo com um pouco mais de clareza. — Aron diminuiu a distância entre eles e pegou no queixo dela. Sua pele cheirava a fumaça. — Não posso dizer ao rei que não quero isso. Porque eu quero.
— Você quer se casar comigo?
— É claro que quero.
— Está apaixonado por mim?
Os lábios de Aron se curvaram.
— Ah, Cleo. Você tem sorte de ser bonita. Isso a absolve de muitos defeitos.
Ela olhou feio para ele e tentou se afastar, mas o rapaz apertou o queixo dela, quase o bastante para machucá-la. Suas intenções eram claras — ele não queria que ela se movesse.
— Eu me lembro daquela noite, Cleo. Está bem claro em minha mente.
Ela ficou ofegante.
— Não fale disso.
— Estamos sozinhos. Não há ninguém aqui para escutar. — Aron olhou para os lábios dela. — Você quis que aquilo acontecesse entre nós. Não tente negar.
O rosto dela pegava fogo.
— Eu tinha bebido muito vinho. Não estava pensando direito. Eu me arrependo.
— É o que você diz. Mas aconteceu. Eu e você, Cleo. Fomos feitos para ficar juntos. Aquilo foi apenas uma prova. — Ele levantou uma sobrancelha. — Se seu pai tivesse escolhido outro pretendente, talvez eu fosse obrigado a dizer algo. Sei que você não gostaria disso. Não gostaria que o rei soubesse que sua princesa perfeita maculou a honra na cama de alguém que não se tornaria seu marido.
Ela mal se lembrava daquela noite seis meses antes, apenas que havia vinho — vinho demais. E lábios com gosto de fumaça. Um remexer de mãos, de roupas, de mentiras sussurradas no escuro.
Uma garota decente — uma princesa — devia permanecer pura e intocada até a noite do casamento. Sua virgindade era um presente ao marido. Ter cometido um erro desses com alguém como Aron, que mal podia tolerar quando estava sóbria, envergonhava Cleo mais do que qualquer outra coisa. Ninguém nunca poderia saber daquilo.
Ela empurrou as mãos dele, com o rosto queimando.
— Preciso ir.
— Ainda não. — Aron diminuiu a distância entre eles e a apertou contra o peito, afundando a mão nos longos cabelos de Cleo para soltá-los e deixá-los cair até a cintura. — Senti saudades, Cleo. E fico feliz por ter vindo falar comigo em particular esta manhã. Sempre penso em você.
— Deixe-me ir — ela sussurrou. — E não fale nada sobre isso.
Aron acariciou a lateral do pescoço dela, escurecendo o olhar.
— Quando estivermos noivos, garantirei que momentos de privacidade como esses sejam bem mais frequentes. Espero ansiosamente por isso.
Cleo tentou empurrar o peito dele, mas Aron era forte. Mais forte do que parecia. Tudo que ela havia conseguido era lembrá-lo da noite em que havia envergonhado a si mesma e à família real. Ele parecia apreciar o segredo que compartilhavam, enquanto ela preferia arrancá-lo da mente para sempre.
E, nossa, seu hálito dava a impressão de que ele estava bebendo e fumando desde o nascer do sol.
Houve uma forte batida na porta semiaberta. Os dedos de Aron afundaram na lateral do corpo de Cleo e ele lançou um olhar severo para trás quando a porta se abriu.
— Aí está você, princesa — Theon disse casualmente.
Aron a soltou de maneira tão abrupta que ela teve que se esforçar para manter o equilíbrio e não se esparramar no chão.
Theon observou os dois e apertou os olhos.
— Está tudo bem aqui?
— Sim. Está tudo bem — Cleo respondeu com a garganta seca. — Muito bem. Obrigada.
A expressão furiosa de Theon mostrava que não tinha achado graça nenhuma na ideia de Cleo ter fugido por suas costas. Na verdade, seu olhar queimava.
Ainda assim, ela estava mais do que feliz em ir embora com seu guarda irritado e não passar nem mais um instante com Aron.
— Quero voltar ao palácio — ela disse com firmeza.
— Quando quiser.
— Agora mesmo. — Cleo endireitou os ombros e olhou para Aron.
Ele parecia entediado. Pelo menos por fora. No fundo de seus olhos havia uma vibração desagradável — uma promessa silenciosa de que a noite ébria que ela queria esquecer seria apenas a primeira de muitas entre eles. Ela estremeceu.
Precisava convencer seu pai a pôr um fim naquele absurdo. O rei não havia obrigado Emilia a se casar com o noivo. Não seria diferente.
Se Aron contasse seu segredo depois daquilo, ela… negaria. Podia fazer isso. Era a princesa. Seu pai acreditaria mais nela do que em Aron, mesmo sendo uma mentira por necessidade. Aquela noite não acabaria com sua vida. Não podia. Cleo se recusava a deixar Aron ter aquele tipo de poder sobre ela por mais um dia além do que já tivera.
— Vejo você em breve, Cleo — despediu-se Aron, saindo da casa junto com eles. Ele acendeu mais uma cigarrilha e os observou partir.
Cleo não abriu a boca, querendo sair da quinta o mais rápido possível.
O calor do olhar de Theon queimava sua nuca. Finalmente, quando estavam quase chegando ao castelo, ela se virou para ele.
— Precisa dizer alguma coisa? — ela indagou, tentando ao máximo esconder que estava prestes a chorar. A náusea chegava à boca de seu estômago.
Se Theon não tivesse interferido…
Ela estava feliz por ele ter chegado, mas ainda estava chateada. E descontar sua frustração na pessoa mais próxima era o único jeito que conhecia de lidar com aquilo.
A expressão furiosa de Theon não era de respeito por um membro da realeza, mas a irritação de alguém obrigado a lidar com uma criança teimosa.
— Você precisa parar de fugir de mim.
— Eu não fugi. Precisava falar com Aron a sós.
— Sim, eu vi. — Ele olhou para trás na direção da quinta dourada, ao fim da via ladeada por árvores verdes e canteiros bem cuidados. — Sinto muito por interromper seu encontrinho romântico. Parecia que vocês dois…
— Não estávamos fazendo nada — ela o interrompeu, enfatizando as palavras. Apesar de achar que não devia se preocupar com a opinião de seu novo guarda, era melhor que ele não desconfiasse de sua castidade. Theon nunca mais olharia para ela do mesmo jeito se soubesse a verdade. — Não foi nada do que você está imaginando.
— Verdade?
— Sim, verdade. Foi uma conversa.
— Parecia uma conversa bem interessante.
Furiosa, ela secou os olhos com as mangas longas do vestido.
— Não foi.
Em uma fração de segundos, a expressão de Theon passou de furiosa a preocupada.
— Tem certeza de que está tudo bem?
— Por que se importa? Para você, sou apenas uma tarefa designada pelo rei.
Um músculo do rosto de Theon se agitou como se ela o tivesse estapeado.
— Desculpe-me por ter perguntado. — A clareza tomou conta de seu rosto um instante depois. — Espere. Você foi até lá para confrontar lorde Aron sobre o que aconteceu em Paelsia. Está se sentindo mal com isso.
O peito dela doía. As palavras de Theon se aplicavam a muitas coisas com as quais se sentia mal.
— Vamos voltar para o castelo.
— Princesa, você não teve culpa. Precisa saber disso.
Não teve culpa? Ela queria muito que ele estivesse certo. Ela vira Tomas ser morto sem fazer nada. E meses antes havia permitido que Aron fizesse o que queria com ela, culpando o vinho, e não suas próprias decisões, pelo que acontecera. Ele não a havia forçado a nada. Em sua embriaguez, havia aceitado os carinhos de um belo lorde — carinhos desejados por muitas de suas amigas.
Cleo sacudiu a cabeça, tinha a garganta apertada. Doía demais.
— A morte daquele rapaz me assombra.
Theon agarrou os ombros dela e a puxou para perto.
— Está feito. Acabou. Tire isso da cabeça. Se está com medo do irmão do garoto vir atrás de você para se vingar, eu a protegerei. Juro que sim. Não precisa se preocupar. É para isso que estou de guarda. — A expressão dele voltou a ficar séria. — Isto é, se parar de fugir de mim.
— Não estou fugindo de você. Bem, não especificamente — ela explicou, voltando a ter dificuldade com as palavras. Com a proximidade de Theon, era difícil pensar com clareza. — Eu… Eu estou fugindo de… — ela suspirou. — Ah, eu não sei mais. Só estou tentando entender tudo e descobrindo que nada faz sentido algum.
— Ouvi seu pai falando com alguém. — Theon passou a mão nos cabelos curtos, cor de bronze. — Sobre o iminente noivado com lorde Aron.
Ela ficou sem fôlego.
— E como ele estava?
— Satisfeito.
— Pelo menos um de nós está — ela resmungou bem baixinho, com os olhos em uma carroça que passava na estrada próxima.
— Não está feliz com o noivado? — O tom de voz de Theon endureceu.
— Está perguntando se estou feliz em ser obrigada a fazer algo sobre o qual não posso dar nenhuma opinião? Não, não posso dizer que esteja.
— Sinto muito.
— Sente?
Theon deu de ombros.
— Acho que ninguém deveria ter que fazer o que não quer.
— Como receber um trabalho no qual não tem interesse?
Ele apertou os lábios.
— É diferente.
Cleo parou para pensar.
— Você e eu... é como um casamento estranho. Você é obrigado a ficar perto de mim. Eu não posso fugir. E ficaremos juntos por muito tempo agora e no futuro.
Theon ergueu uma sobrancelha.
— Então está finalmente aceitando esse acordo?
Ela mordeu o lábio inferior ao relembrar as decisões que tomara naquele dia.
— Sei que não devia ter saído do palácio sem avisar. Peço desculpas se isso lhe causou algum problema.
— Sua irmã ficou bem feliz em me contar para onde você tinha fugido.
Cleo ficou boquiaberta.
— Aquela traidora.
Ele riu.
— Não faria muita diferença se ela não tivesse contado. Mesmo isso sendo um arranjo que nenhum de nós dois escolheu, é algo que levo muito a sério. Você não é uma garota qualquer. É a princesa. E agora é meu dever protegê-la. Então para onde quer que fuja, pode ter certeza de uma coisa muito importante.
Ela esperou, recobrando o fôlego devido à forma intensa que o jovem guarda a observava.
— O que é?
Quando Theon sorriu, sua expressão era ao mesmo tempo ameaçadora e sedutora.
— Eu vou encontrar você.

4 comentários:

  1. Ah esses dois. Não sei se shippo ou fico com medo desse Theon.

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  2. Aquela leve impressão de que eu vou me apaixonar por esse Theon.

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  3. Alguem mais ouviu a voz do Dimitri nessa ultima fala ?

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