15 de julho de 2018

Capítulo 7

Adam havia sugerido Cabeswater, então eles levaram Blue para Cabeswater.
Ele ainda não tinha certeza do que fariam ali; simplesmente fora a primeira coisa em que pensara. Na realidade, fora a segunda, mas o seu primeiro pensamento fora tão vergonhoso que ele imediatamente se arrependeu dele.
Adam dera uma olhada na Garota Órfã e pensara que, se fosse outro horror noturno em seu lugar, eles poderiam simplesmente tê-la matado ou largado em algum lugar.
Um segundo mais tarde — não, não, menos de um segundo, meio segundo —, ele se odiou por pensar isso. Era exatamente o tipo de pensamento que ele esperara do filho de seu pai. O quê, você quer partir? Você vai partir? Essa é a sua bolsa? Vá por mim, se eu pudesse te deixar partir, eu mesmo teria te jogado em uma vala. Tudo é uma trabalheira com você.
Ele se odiou, e então odiou seu pai, e depois cedeu a emoção para Cabeswater, e Cabeswater a dispersou para longe.
E agora eles estavam na própria Cabeswater, a Cabeswater em carne e osso, ali, no segundo pensamento de Adam que ele gostaria que tivesse sido o primeiro, levando a Garota Órfã para a mãe de Ronan, Aurora. Esse era o campo que eles tinham visto de cima muito tempo atrás, com um enorme corvo formado de conchas. Gansey não pôde evitar de passar por cima das conchas espalhadas com o carro, mas tomou cuidado para evitar o corvo em si. Adam apreciava essa parte de Gansey, sua preocupação incessante pelas coisas que ficavam aos seus cuidados.
O veículo parou. Gansey, Blue e Adam saíram. Ronan e sua garotinha estranha, não; parecia que havia um processo de negociação se desenrolando entre eles.
Eles esperaram.
Na rua, o céu estava pesado e cinzento, rasgado pelos picos sobre o marrom-vermelho-negro das árvores de Cabeswater. De onde eles estavam parados, era praticamente possível imaginá-la como uma mata comum, em uma montanha comum da Virgínia. Mas, se você olhasse Cabeswater com atenção por tempo suficiente, do jeito certo, você poderia ver segredos voando entre as árvores. As sombras de animais chifrudos que nunca apareciam. As luzes piscando de vagalumes de outro verão. O som farfalhante de muitas asas, o som de um bando enorme sempre fora de visão.
Mágica.
Tão próximo da floresta, Adam se sentia muito... Adam. Sua cabeça estava cheia com a sensação comum de seu macacão dobrado na altura da cintura, o pensamento comum da prova de literatura no dia seguinte. Parecia que ele deveria se tornar mais estranho, mais outro, quando estava próximo de Cabeswater, mas, na realidade, quanto mais próximo de Cabeswater, mais firmemente presente ele continuava. Sua mente não precisava derivar para longe para se comunicar com Cabeswater quando seu corpo era capaz de erguer uma mão para tocá-la.
Estranho que ele tivesse sentido uma premonição do que esse lugar se tornaria para ele todos aqueles meses atrás. Mas talvez não. Tanto da mágica — do poder, de modo geral — exigia a crença como um pré-requisito.
Gansey atendeu uma ligação. Adam foi urinar. Ronan ficou no Suburban.
Adam se reuniu a Blue do outro lado do veículo. Ele fez um esforço para não olhar nem para os seus seios, nem para os seus lábios. Adam e Blue não estavam mais juntos — se é que haviam estado um dia —, mas o fato de estarem rompidos e conscientes de que isso era bom para ambos não havia diminuído o apelo estético de nenhuma das duas partes de seu corpo. O cabelo de Blue havia ficado mais revolto desde que ele a encontrara pela primeira vez, menos contido por todos os seus grampos, e sua boca havia ficado mais desalinhada desde que ele a encontrara, mais desejosa de beijos proibidos, e sua postura havia endurecido, sua espinha aguçada pela dor e pelo perigo.
— Acho que nós dois precisamos conversar — ela disse. Blue não terminou a frase, mas seus olhos estavam em Gansey. Ele se perguntou se ela sabia o quão transparente era o seu olhar. Será que ela o mirara tão faminta um dia?
— Sim — respondeu Adam. Tarde demais, ele se deu conta de que ela provavelmente queria discutir a busca pelo favor de Glendower, não confessar sua relação secreta com Gansey. Bem, eles precisavam falar sobre aquilo, também. — Quando?
— Vou ligar para você hoje à noite. Espera... eu tenho trabalho. Amanhã depois da escola?
Eles anuíram. Era um plano.
Gansey ainda falava ao telefone.
— Não, quase não tem trânsito, a não ser que seja uma noite de bingo. Um transporte? Quantas pessoas você está esperando? Não consigo imaginar... ah. O ônibus do evento poderia ser colocado em serviço, certamente.
— KERAH!
Tanto Blue quanto Gansey tomaram um susto enorme com o guincho selvagem. Reconhecendo o nome de Motosserra para Ronan, Adam procurou no céu.
— Jesus, Maria — rosnou Ronan. — Pare de ser impossível.
Porque não era Motosserra que havia gritado o nome de corvo para Ronan. Era a Garotinha Órfã abandonada. Ela estava dobrada em uma forma impossivelmente pequena na relva descolorida atrás do Suburban, parecendo uma pilha de roupas. Ela balançava de um lado para o outro e se recusava a ficar de pé. Quando Ronan sussurrou algo para ela, ela gritou em seu rosto de novo. Não o grito de uma criança, mas o grito de uma criatura.
Adam tinha visto muitos dos sonhos de Ronan se tornarem realidade a essa altura, e ele sabia o quão selvagens, adoráveis, aterrorizantes e extravagantes eles podiam ser. Mas essa garota era a mais Ronan de qualquer um deles que ele já tinha visto. Que monstro assustador ela era!
— É o apocalipse. Me manda uma mensagem se você pensar em algo mais. — Gansey desligou. — O que há de errado com ela? — Seu tom era hesitante, como se ele não tivesse certeza se algo estava errado com a garota, ou se era apenas o jeito que ela estava.
— Ela não quer entrar — disse Ronan. Sem qualquer cerimônia, ele se inclinou, catou a garota e começou a marchar na direção dos limites da floresta. Estava claro agora, com suas pernas de aranha penduradas sobre um dos braços de Ronan, que elas terminavam em delicados cascos.
Do outro lado de Adam, Blue levou os dedos aos lábios e então os deixou cair novamente. Em uma voz bem baixa, ela disse Ah, Ronan! da mesma maneira que você sussurraria Meu Deus.
Porque era impossível. A criatura de sonho era uma garota; ela não era; ela era uma órfã; eles não eram pais. Adam não era a pessoa mais certa para julgar Ronan por sonhar tão vastamente; Adam também negociava com uma mágica que ele não entendia muito bem. Ultimamente, todos eles tinham as mãos estendidas para o céu, à espera de cometas. A única diferença era que o universo selvagem e em expansão de Ronan Lynch existia dentro da sua própria cabeça.
— Excelsior — disse Gansey.


Todos seguiram Ronan floresta adentro.
Dentro da mata, Cabeswater murmurava, vozes sibilavam das velhas árvores de outono, desaparecendo nos velhos penedos cobertos de musgo. Esse lugar significava algo diferente para todos eles. Adam, o zelador da floresta, estava ligado por um pacto para ser suas mãos e olhos. O poder de amplificação de Blue estava de alguma maneira conectado a ela. Ronan, o Greywaren, estivera ali muito tempo antes do restante deles, a ponto de deixar sua escrita rabiscada nas rochas. Gansey — Gansey simplesmente a adorava, temerosamente, espantosamente, reverentemente.
Acima deles, as árvores sussurravam em uma língua secreta, e em latim, e então em uma versão corrompida de ambos, com palavras em inglês lançadas no meio. Elas não haviam falado inglês quando os adolescentes as encontraram pela primeira vez, mas estavam aprendendo. E rápido. Adam não conseguia deixar de pensar que havia algum segredo escondido por trás dessa evolução de linguagem. Será que os adolescentes eram realmente os primeiros falantes de inglês a encontrar as árvores? Se não, por que elas tropeçavam no inglês somente agora? E por que o latim?
Adam quase podia ver a verdade escondida por trás desse quebra-cabeça.
— Salve — Gansey cumprimentou as árvores, sempre educado. Blue estendeu o braço para tocar um galho; ela não precisava de palavras para cumprimentá-las.
Olá, as árvores farfalharam de volta. As folhas vibravam contra a ponta dos dedos de Blue.
— Adam? — perguntou Gansey.
— Só um segundo.
Eles esperaram até que Adam se orientasse. Como o tempo e o espaço eram negociáveis na linha ley, era inteiramente possível que eles pudessem emergir da floresta em um tempo ou lugar inteiramente diferente do que eles haviam entrado. Esse fenômeno havia parecido caprichoso em um primeiro momento, mas, lentamente, à medida que Adam se sintonizara melhor com a linha ley, ele havia começado a perceber que ela seguia regras, só que não as regras lineares com as quais eles contavam no mundo normal. Era mais como respirar — você podia segurar uma respiração; respirar mais rápido ou mais devagar; corresponder suas respirações com alguém parado perto de você.
Deslocar-se através de Cabeswater de uma maneira previsível significava orientar-se pelos padrões de respiração atuais. Deslocar-se com ela, não contra ela, enquanto você tentava encontrar o seu caminho de volta para o tempo e o lugar que você havia deixado para trás.
Adam fechou os olhos e deixou que a linha ley tomasse o seu coração por algumas batidas. Agora ele sabia em qual direção ela corria por baixo dos seus pés, como ela cruzava com outra linha muitos quilômetros dali à sua esquerda, e com duas ainda mais distantes, à sua direita. Inclinando a cabeça para trás, Adam sentiu as estrelas formigando acima, e como ele era orientado em relação a elas. Dentro dele, Cabeswater desenrolou videiras cuidadosas, testando seu humor enquanto o fazia, jamais forçando limites ultimamente, a não ser sob pressão. Ela usava a mente e os olhos de Adam para prospectar o terreno abaixo dele, escavando para encontrar água e rochas, em busca de orientação.
Como Adam praticava muitas coisas, ele era bom em muitas coisas, mas isso — como isso chamava mesmo? Adivinhação, percepção, mágica, mágica, mágica. Ele não era só bom nisso, mas ele o desejava, queria, amava de uma maneira que quase o cobria de gratidão. Ele não sabia que podia amar, não realmente. Gansey e ele haviam brigado sobre isso, uma vez — Gansey dissera, com desgosto, Pare de dizer privilégio. Amor não é privilégio. Mas Gansey sempre tivera amor, sempre fora capaz de amar. Agora que Adam havia descoberto ele mesmo esse sentimento, ele estava mais convicto do que nunca de que estava certo. Necessidade era o parâmetro de Adam, seu pulso em repouso. Amor era privilégio. Adam era privilegiado e não queria abrir mão disso. Ele queria sempre se lembrar de como era sentir isso.
Uma vez que Adam havia aberto completamente seus sentidos, Cabeswater tentou desajeitadamente se comunicar com esse ser humano mágico. Ela pegou suas melhores lembranças e as virou do avesso, readaptando-as como uma linguagem hieroglífica de sonhos: um fungo em uma árvore; Blue quase tropeçando em sua pressa para se afastar dele; uma casca de ferida em seu punho; o vinco característico que Adam sabia que o cenho franzido de Ronan produzia; uma cobra desaparecendo por baixo da superfície lodosa de um lago; o polegar de Gansey no lábio inferior; o bico de Motosserra aberto e um verme arrastando-se para fora dele em vez de para dentro.
— Adam? — perguntou Blue.
Ele se afastou de seus pensamentos.
— Ah, sim. Estou pronto.
Eles prosseguiram. Era difícil dizer quanto tempo levaria para que chegassem aonde a mãe de Ronan vivia — às vezes não levava tempo algum, e às vezes levavam eras, um fato que Ronan reclamou amargamente enquanto carregava a Garota Órfã. Ele tentou convencê-la a caminhar sozinha novamente, mas ela se encolheu no mesmo instante, em uma resistência sem ossos sobre o chão da floresta. Ronan resolveu não perder seu tempo lutando com ela; ele simplesmente a recolheu de novo, com uma expressão irritada.
A Garota Órfã pareceu adivinhar o que estava se passando com Ronan, porque, enquanto ele caminhava, provocando solavancos nela a cada passo, ela pronunciou uma única nota intencional, quicando as pernas com os cascos ao mesmo tempo. Um segundo mais tarde, um pássaro invisível cantou de volta outra nota belamente colocada três tons acima da dela. A Garota Órfã trinou um tom acima do seu anterior, e um pássaro invisível diferente cantou outra nota três tons acima. Uma terceira nota: um terceiro pássaro. Para lá e para cá, todos continuaram, até que uma canção volteou em torno deles, uma ladainha sincopada feita da voz de uma criança e pássaros escondidos que podiam ou não existir realmente.
Ronan olhou carrancudo para a Garota Órfã, mas era óbvio o que aquela carranca queria dizer. Seus braços em torno dela eram protetores.
Não escapou a Adam como eles se conheciam bem. A Garota Órfã não era uma criatura ao acaso, tirada de um sonho qualquer. Eles tinham claras marcas emocionais de família. Ela simplesmente sabia como navegar seus humores tumultuados, e ele parecia simplesmente saber o quão ríspido podia ser com ela. Eles eram amigos, embora mesmo os amigos sonhados de Ronan não fossem fáceis de se relacionar.
A Garota Órfã seguiu grasnando sua parte da ladainha, e ficou claro que a canção desordenada estava melhorando o humor de Gansey, assim como o de Ronan. A discussão no carro havia obviamente deixado seus pensamentos, e, em vez disso, ele ergueu os braços em compasso com a música como um condutor, tentando pegar as folhas de outono quando elas se aproximavam, caindo. Cada folha seca curva que ele conseguia tocar com a ponta dos dedos se transformava em um peixe dourado que nadava pelo ar. Cabeswater ouvia atentamente à sua intenção; mais folhas redemoinhavam para ele, esperando por seu toque. Logo, um bando — um cardume — de peixes os cercou, brilhando, disparando e mudando de cores à medida que suas escamas refletiam a luz.
— São sempre peixes com você — disse Blue, rindo, enquanto eles faziam cócegas em torno de sua garganta e mãos. Gansey olhou de relance para ela e desviou o olhar, estendendo a mão para outra folha, a fim de colocá-la para trabalhar. A alegria cintilava entre os dois; quão pura e simplesmente Blue e Gansey amavam a mágica daquele lugar.
Fácil para eles se sentirem tão leves.
Cabeswater cutucou ternamente os pensamentos de Adam, conclamando uma dezena de memórias felizes no espaço do ano anterior — bem, elas teriam de ser apenas do ano passado, pois mesmo Cabeswater teria dificuldade em incitar memórias alegres da época anterior a Gansey e Ronan.
Quando Adam teimava em resistir, imagens dele bruxuleavam por sua mente: ele mesmo, como era visto pelos outros. Seu sorriso contido, sua risada surpresa, seus dedos estendidos para o sol. Cabeswater não entendia bem seres humanos, mas ela aprendia. Felicidade, ela insistia. Felicidade.
Adam cedeu. Enquanto eles seguiam caminhando, e a Garota Órfã continuava cantarolando em sua voz aguda, e os peixes continuavam dardejando pelo ar à sua volta, ele lançou sua própria intenção.
O volume do estrondo resultante surpreendeu até a ele; Adam o ouviu em um ouvido e o sentiu em ambos os pés. Os outros tomaram um susto quando outro bum pesado e grave soou no início do próximo compasso da canção. Quando veio o terceiro ruído surdo, ficou óbvio que ele ressoava no ritmo da música. Cada uma das árvores pelas quais eles passavam soava com um baque elaborado, até que o som à volta deles era a batida eletrônica pulsante que invariavelmente tocava no carro ou nos fones de ouvido de Ronan.
— Ah, Deus — disse Gansey, mas ele estava rindo. — Nós temos que aguentar isso aqui, também? Ronan!
— Não fui eu — disse Ronan. Ele olhou para Blue, que deu de ombros. Ronan cruzou com o olhar de Adam. Quando Adam fez um trejeito com a boca, a expressão de Ronan se imobilizou por um momento antes de se transformar em um sorriso solto que ele reservava normalmente para as bobagens de Matthew. Adam sentiu um ímpeto de realização e nervosismo. Ele patinava em um beiral ali. Fazer Ronan Lynch sorrir passava uma sensação tão carregada quanto barganhar com Cabeswater. Não se devia brincar com essas forças.
Subitamente, a Garota Órfã caiu no silêncio. Em um primeiro momento, Adam pensou que ela estava de alguma forma buscando se conectar com seu humor. Mas não: eles tinham chegado à ravina das roseiras.
Aurora Lynch vivia em uma clareira limitada em três lados por roseiras viçosas e férteis, videiras e árvores. Flores cobriam o chão como um tapete e caíam em cascata sobre o quarto lado — um rochedo escarpado que adentrava a montanha. O ar vinha carregado de sol, como a luz vista através da água, e pétalas suspensas flutuavam como se nadassem. Por toda parte havia tons róseos, brancos suaves, ou amarelos reluzentes.
Toda Cabeswater era um sonho, mas a ravina de roseiras era um sonho dentro dele.
— Talvez a garota vá fazer companhia à Aurora — disse Gansey, observando o último peixe nadar para fora da clareira.
— Não acredito que você simplesmente possa dar uma criança para uma pessoa e esperar que ela se sinta eufórica — retrucou Blue. — Ela não é um gato.
Gansey abriu a boca, e Adam observou que um comentário no limite do ofensivo estava por vir. Ele cruzou com o seu olhar, e Gansey fechou a boca. O momento passou.
Mas Gansey não estava inteiramente errado. Aurora havia sido criada para o amor, e ela amava, de uma maneira específica em relação ao objeto de seu afeto. Então ela abraçava seu filho mais novo, Matthew, perguntava a Gansey sobre pessoas famosas na história, dava flores estranhas a Blue, com quem se havia encontrado durante suas caminhadas, e deixava que Ronan lhe mostrasse o que ele havia sonhado ou feito na semana anterior. Com Adam, no entanto, ela perguntava coisas como: “Como você sabe que vê a cor amarela como eu vejo?”. E então ouvia atentamente enquanto ele lhe explicava. Adam tentava que ela mesma explicasse às vezes, mas Aurora não se preocupava muito em pensar, apenas em ouvir outras pessoas, felizes em pensar.
Assim, eles já sabiam que ela adoraria a Garota Órfã. Se estava certo ou não dar a Aurora outra pessoa para amar, isso era outra questão.
— Mãe, você está aqui? — a voz de Ronan era diferente quando ele falava com sua mãe ou com Matthew. Revelava um Ronan sem fingimento.
Não. Um Ronan desprotegido.
Esse tom lembrou a Adam daquele sorriso sem reservas de antes. Não brinque, ele disse a si mesmo. Isso não é um jogo.
Mas não parecia um jogo, se ele estivesse sendo sincero. A adrenalina sussurrava em seu coração.
Aurora Lynch apareceu.
Ela não havia deixado o lugar onde vivia, tampouco o caminho que eles haviam usado. Em vez disso, ela emergiu da parede de rosas que caía em cascata sobre a rocha. Era impossível para uma mulher caminhar através de uma rocha e uma roseira, mas ela o fez mesmo assim. Seu cabelo dourado pendia em uma lâmina, com botões de rosas presos e trançado com pérolas. Por um breve momento, ela era ao mesmo tempo rosas e uma mulher, e então completamente Aurora. Cabeswater comportava-se diferentemente em relação a Aurora Lynch e ao restante deles; eles eram seres humanos, afinal de contas, e Aurora era algo sonhado. Eles tiravam férias ali. Aurora pertencia ao lugar.
— Ronan — disse Aurora, genuinamente feliz, do jeito que ela sempre estava, genuinamente feliz. — Onde está o meu Matthew?
— Jogo de lacrosse ou algo assim — respondeu Ronan. — Algo cheio de suor.
— E o Declan? — perguntou Aurora.
Houve uma longa pausa, apenas uma respiração longa demais.
— Trabalhando — mentiu Ronan.
Todos na ravina de roseiras olharam para Ronan.
— Ah, bem. Ele sempre foi muito dedicado — disse Aurora, acenando para Adam, Blue e Gansey, que lhe acenaram de volta. — Você já encontrou o seu rei, Gansey?
— Não — ele respondeu.
— Ah, bem — disse Aurora novamente, abraçando o pescoço de Ronan e pressionando sua face pálida na face pálida dele, como se ele estivesse segurando uma braçada de compras em vez de uma garotinha estranha. — O que você trouxe para mim dessa vez?
Ronan colocou a garota no chão, sem nenhuma cerimônia. Ela se encolheu contra as pernas dele, toda blusão, e lamentou em um inglês ligeiramente carregado:
— Eu quero ir!
— E eu quero sentir meu braço direito novamente — disparou Ronan.
— Amabo te, Greywaren! — ela disse. Por favor, Greywaren.
— Ah, fique de pé. — Ronan pegou sua mão, e a Garota Órfã se pôs de pé, absolutamente ereta ao seu lado, os cascos marrons, delicados e abertos.
Aurora se ajoelhou para ficar na mesma altura da Garota Órfã.
— Como você é bonita!
A garota não olhou para Aurora e permaneceu absolutamente imóvel.
— Aqui... uma linda flor, da cor dos seus olhos... Você gostaria de segurar? — Aurora lhe ofereceu uma rosa. Era realmente da cor dos olhos da garota: de um azul tempestuoso, rude. Rosas não eram dessa cor, mas agora eram.
A garota não chegou nem a virar a cabeça na direção da rosa. Em vez disso, seus olhos estavam fixos em algum ponto um pouco atrás da cabeça de Adam e tinham uma expressão vazia e entediada.
Adam sentiu um formigamento de reconhecimento. Não havia petulância ou raiva na expressão da garota. Ela não estava furiosa.
Adam já estivera naquele lugar, agachado ao lado de armários de cozinha, olhando para a luminária do outro lado da sala, seu pai cuspindo em seu ouvido. Ele reconhecia esse tipo de medo quando o via.
Ele mal conseguia reunir coragem para olhar para ela.
Enquanto Adam olhava de relance para os galhos finos de outono, Ronan e sua mãe falavam em voz baixa. Inacreditavelmente, o telefone de Gansey zuniu; ele o tirou do bolso e olhou para a tela.
Cabeswater pressionava Adam. Blue alinhou pétalas de rosas caídas ao longo do braço. As árvores grandes fora da ravina seguiam sussurrando para eles em latim.
— Não, mãe — disse Ronan, impaciente, com um novo tom na voz que chamou a atenção dos outros. — Isso não foi como antes. Foi um acidente.
Aurora olhou para Ronan de um jeito terno e tolerante, o que enfureceu seu filho do meio.
— Foi sim — ele insistiu, embora ela não tivesse dito nada. — Foi um pesadelo, e havia algo de diferente nele.
Blue o interrompeu no mesmo instante.
— Diferente como?
— Tinha algo estranho pra c... nesse sonho. Algo escuro, esquisito. — Ronan fez uma careta para as árvores, como se elas pudessem lhe dar as palavras para explicar. Por fim, ele acrescentou: — Decomposto.
Essa palavra afetou a todos. Blue e Gansey se entreolharam, como se continuassem uma conversa anterior. Adam se lembrou das imagens perturbadoras que Cabeswater havia lhe mostrado quando ele pisara pela primeira vez na floresta. A expressão dourada de Aurora perdeu o brilho.
— Acho que é melhor mostrar uma coisa para vocês — ela disse.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!