4 de julho de 2018

Capítulo 7

Blue chegou à Indústria Monmouth antes de todos os outros. Ela bateu para ter certeza, e então se deixou entrar. Imediatamente foi envolvida pelo cheiro confortável do lugar: a ligeira fragrância de biblioteca dos livros antigos, o cheiro refrescante de hortelã, o odor de mofo e ferrugem dos tijolos centenários e dos canos antigos, um toque divertido do monte de roupa suja contra a parede.
— Noah? — Sua voz era pequena no espaço enorme. Blue largou a mochila sobre a cadeira de escritório. — Você está aqui? Está tudo bem, não estou chateada. Pode usar minha energia, se precisar.
Não houve resposta. O espaço estava ficando cinza e azul à medida que uma das estranhas tempestades súbitas se formava sobre as montanhas, enchendo as janelas do chão até o teto do armazém com nuvens. As sombras definidas da tarde por trás das pilhas de livros se transformavam e se disseminavam. O aposento parecia pesado, sonolento.
Blue espiou a região escura que se formava no pico bem acima do teto.
— Noah? Eu só queria falar sobre o que aconteceu.
Ela enfiou a cabeça pela porta do quarto de Noah. As coisas de Malory o ocupavam atualmente, e ele tinha um cheiro masculino e persistente. Uma das malas estava aberta e Blue podia ver que estava inteiramente cheia de livros. Isso lhe pareceu pouco prático e típico de Gansey, e fez com que ela sentisse um pouco mais de simpatia pelo professor.
Noah não estava ali.
Blue conferiu o banheiro, que também era uma espécie de lavanderia e cozinha. As portas abertas davam para uma pequena lavadora e secadora; meias ficavam penduradas da beira do tanque, secando ou largadas. Uma pequena frigideira se escondia perigosamente próxima da privada. Uma extensão de mangueira de borracha dava voltas em torno de uma ducha acima de um ralo sujo; a cortina do chuveiro estava pendurada do teto com linha de pesca. Blue ficou impressionada com a quantidade de sacos de salgadinhos que era possível alcançar da privada. Uma gravata vermelha escura no chão apontava uma linha pontiaguda na direção da saída.
Algum impulso estranho instou Blue a juntar uma parte da bagunça, qualquer componente em si, para melhorar a situação do desastre.
Mas ela não fez isso.
Blue saiu de lá.
O quarto de Ronan era proibido, mas ela olhou lá dentro de qualquer maneira. A gaiola do corvo dele estava com a portinhola aberta, impecável e incompativelmente limpa. O quarto não tinha tanta sujeira, mas um amontoado de coisas: pás e espadas recostavam nos cantos, alto-falantes e impressoras se empilhavam junto à parede. E objetos bizarros entre elas: uma velha maleta com vinhas saindo para fora, uma árvore em um pote que parecia estar cantarolando para si mesma, uma única bota de caubói no meio do chão. Uma máscara estava pendurada alta na parede, olhos arregalados, boca aberta. Estava escurecida, como se pelo fogo, e as bordas bastante mordidas, como se por uma serra. Algo que parecia suspeitosamente uma marca de pneu passava sobre um dos olhos. A máscara fez Blue pensar em palavras como sobrevivente e destruidor.
Ela não gostou disso.
Uma batida vinda de trás a fez dar um salto, mas era apenas a porta do apartamento se abrindo. A culpa amplificara o ruído.
Blue disparou para fora do quarto de Ronan. Gansey e Malory entraram caminhando lentamente, um atrás do outro, profundamente absortos na conversa. O Cão seguia cabisbaixo por fim, excluído por não falar inglês.
— É claro que Iolo Goch faria sentido como companheiro — Gansey dizia, livrando-se da jaqueta. — Ele ou Gruffudd Llwyd, imagino. Mas... não, é impossível. Ele morreu no País de Gales.
— Mas temos certeza disso? — perguntou Malory. — Nós sabemos onde ele foi enterrado? Que ele foi enterrado?
— Ou se foi simplesmente transformado em camisolas de dormir, você quer dizer? — Gansey então viu Blue e a premiou com seu melhor sorriso. Não seu sorriso mais caprichado, mas sua versão mais tola, que queria dizer que ele estava empolgado. — Olá, Jane. Me diga o que Iolo Goch significa para você.
Blue tirou seus pensamentos da máscara de Ronan, de Noah e da escola.
— Uma gripe?
— O poeta mais próximo de Glendower — corrigiu Gansey. — Também, muito engraçado.
— Vocês encontraram alguma coisa? — ela perguntou.
— Absolutamente nada — ele respondeu, soando animado a respeito disso.
Malory repousou sua massa no sofá de couro. O Cão se aninhou sobre ele. Não parecia uma posição muito confortável; o Cão caíra sobre o professor como uma roupa largada sobre uma cadeira. Mas Malory só fechou os olhos e fez carinho nele, em uma demonstração atípica de afeto.
— Gansey, estou morrendo por uma xícara de chá. Seria possível conseguir isso neste lugar? Não há como ter esperança de sobreviver à mudança de fuso horário sem uma xícara de chá.
— Comprei um chá só para você — disse Gansey. — Vou fazer um.
— Só não faça com água da privada, por favor — disse Malory às suas costas, sem abrir os olhos. O Cão continuou deitado sobre ele.
Por um momento quase insuportável, Blue temeu não ser capaz de evitar perguntar para que servia o Cão. Em vez disso, ela seguiu Gansey até a cozinha-banheiro-lavanderia.
Ele procurava algo nas prateleiras entulhadas.
— Estávamos falando há pouco sobre como Glendower foi trazido para cá. Os livros dizem que ele viajou com magos... Será que foram eles que o colocaram para dormir? Ele queria isso? Ele estava dormindo antes de partir ou caiu no sono aqui?
Subitamente pareceu algo solitário ser enterrado a um oceano de distância de sua casa, como ser lançado no espaço.
— Iolo Goch era um dos magos?
— Não, apenas um poeta. Você ouviu o Malory no carro. Eles eram muito poelíticos... poéticos... políticos... — Gansey riu do próprio tropeço. — Poetas eram políticos. Eu sei que não chegam a ser palavras complicadas de dizer. Estive ouvindo Malory o dia inteiro. P-p-políticos. Poetas. Iolo compôs uns poemas bem elogiosos a respeito da bravura de Glendower, sua casa e suas terras. Sua família e por aí afora. Ah, o que estou procurando aqui mesmo?
Ele fez uma pausa para localizar um pequeno forno de micro-ondas.
Gansey examinou o interior da xícara antes de enchê-la. Tirou uma folha de hortelã do bolso para mascar e falou em torno dela enquanto a água esquentava.
— Realmente, se Glendower fosse Robin Hood, Iolo Goch teria sido... aquele outro cara.
— Marian — disse Blue. — João Pequeno.
Gansey apontou para ela.
— Como Batman e Robin. Mas ele morreu no País de Gales. Devemos acreditar que retornou ao País de Gales depois de deixar Glendower aqui? Não. Eu rejeito a ideia.
Blue adorava aquele Gansey ponderado e acadêmico, envolvido demais com os fatos para considerar como parecia para o mundo exterior. Ela perguntou:
— Glendower tinha esposa, certo?
— Morreu na Torre de Londres.
— Irmãos?
— Decapitados.
— Filhos?
— Um milhão, mas quase todos presos e mortos, ou simplesmente mortos. Ele perdeu a família inteira no levante.
— Então é o poeta!
— Você já ouviu aquele papo que se ferver água no micro-ondas ela explode quando você a tocar? — perguntou Gansey.
— Tem que ser pura — respondeu Blue. — Água destilada. A água comum não explode, por causa dos minerais. Você não devia acreditar em tudo que lê na internet.
Um ruído trovejante os interrompeu, de maneira súbita e absoluta.
Blue levou um susto, mas Gansey apenas olhou para cima.
— É a chuva no telhado. Deve estar desabando água.
Ele se virou, xícara na mão, e subitamente eles estavam a centímetros de distância. Ela podia sentir o cheiro de hortelã na boca dele. Blue viu sua garganta se mover enquanto ele engolia.
Ela estava furiosa com seu corpo por traí-la, por querer Gansey de um jeito diferente do que qualquer um dos outros garotos, por se recusar a dar ouvidos à sua insistência de que eles eram apenas amigos.
— Como foi seu primeiro dia de escola, Jane? — ele perguntou, a voz diferente de minutos atrás.
Minha mãe desapareceu. O Noah explodiu. Eu não vou para a faculdade. Não quero voltar para casa, onde tudo é estranho, e não quero voltar para a escola, onde tudo é normal.
— Ah, você sabe, escola pública — ela disse, sem encará-lo. Em vez disso, se concentrou no pescoço de Gansey, que estava bem na altura de seus olhos, e em como seu colarinho não ficava bem contra a pele em volta dele, por causa do pomo de adão. — Nós só vimos desenhos o dia inteiro.
Blue quisera ser irônica, mas ficou com a impressão de que não havia realmente conseguido.
— Nós vamos encontrar a sua mãe — disse Gansey, e Blue sentiu uma pontada no peito novamente.
— Não tenho certeza se ela quer ser encontrada.
— É um direito dela. Jane, se... — Ele parou e mexeu o chá. — Espero que o Malory não queira leite. Esqueci completamente.
Ela desejou que ainda pudesse evocar aquela Blue que o desprezava. Ela gostaria de saber se Adam se sentiria terrível a respeito disso. Ela gostaria de saber se lutar contra aquele sentimento faria com que o fim previsto de Gansey a destruísse menos.
Blue fechou o micro-ondas, e Gansey deixou o aposento.
No sofá, Malory olhava para o chá como um homem veria uma sentença de morte.
— O que mais? — perguntou Gansey afavelmente.
Malory empurrou o Cão para o chão.
— Eu gostaria de um quadril novo. E um tempo melhor. Ah... no entanto... Esta é a sua casa e sei que sou um estranho, então longe de mim ditar regras ou não saber o meu lugar. Dito isso, vocês sabiam que tinha alguém debaixo...?
Ele indicou a área escura como uma tempestade debaixo da mesa de sinuca. Se Blue forçasse a vista, poderia distinguir uma forma no escuro.
— Noah — disse Gansey. — Saia daí imediatamente.
— Não — respondeu Noah.
— Bem! Vejo que vocês dois se conhecem e que está tudo bem — disse Malory, na voz de alguém que percebia que o tempo ruim estava vindo e ele não trouxera guarda-chuva. — Vou estar no meu quarto cuidando de me adaptar ao fuso horário.
Após ele se retirar, Blue disse, exasperada:
— Noah! Eu te chamei várias vezes.
Noah permaneceu onde estava, os braços abraçados ao corpo. Ele parecia notadamente menos vivo que antes; havia algo manchado em torno de seus olhos, algo incerto próximo de seus contornos. Era um pouco difícil olhar para o lugar onde Noah parava e a sombra abaixo dele continuava. Algo desagradável aconteceu na garganta de Blue quando ela tentou descobrir o que havia de errado com o rosto dele.
— Estou cansado disso — disse Noah.
— Cansado do quê? — perguntou Gansey, num tom de voz generoso.
— De me decompor.
Ele andara chorando. Era isso que havia de errado com seu rosto, percebeu Blue. Nada sobrenatural.
— Ah, Noah — ela disse, agachando-se.
— O que eu posso fazer? — perguntou Gansey. — Nós. O que nós podemos fazer?
Noah deu de ombros, um tanto desenxabido.
De repente Blue ficou desesperadamente com medo de que Noah pudesse querer realmente morrer. Isso parecia algo que a maioria dos fantasmas queria: descansar. Era uma noção terrível, um adeus para sempre.
O egoísmo de Blue travou uma luta ferrenha com cada porção de ética que ela havia aprendido com as mulheres de sua família.
Maldição. Ela tinha de.
— Você quer que a gente encontre uma maneira apropriada de... hum... fazer com que você... — ela perguntou.
Blue não havia nem terminado a frase e Noah começou a balançar a cabeça. Ele abraçou as pernas mais apertado.
— Não. Nãonãonão.
— Você não deve ter vergonha — disse Blue, porque soava como sua mãe teria dito. Ela tinha certeza de que sua mãe teria dito algo confortador a respeito da vida após a morte, mas não conseguiu, dessa vez, soar confortadora quando ela mesma queria ser confortada. Sem jeito, ela terminou: — Você não precisa ter medo.
— Você não sabe! — disse Noah, vagamente histérico. — Você não sabe!
Blue estendeu a mão.
— Está tudo bem, olha...
— Você não sabe! — repetiu Noah.
— Nós podemos conversar sobre isso — disse Gansey, como se uma alma em decomposição fosse algo que pudesse ser solucionado com uma conversa.
— Você não sabe! Você não sabe!
Noah estava de pé. Era impossível, porque não havia espaço suficiente debaixo da mesa de sinuca para ele ficar de pé. Mas ele estava de alguma maneira escapando de cada lado, cercando Gansey e Blue. Os mapas esvoaçavam freneticamente contra a superfície verde. Um monte de tufos de poeira rolou debaixo da mesa e correu rápido pelas ruas do modelo em miniatura de Henrietta de Gansey. A luminária de mesa tremeluziu. A temperatura caiu.
Blue viu os olhos de Gansey se arregalarem por trás de uma nuvem de sua própria respiração.
— Noah — Blue avisou. Ela sentia a cabeça tonta à medida que Noah roubava sua energia. Ela percebeu, estranhamente, um sopro do cheiro de tapete velho da sala da orientadora, e então o cheiro vivo, fresco, de Cabeswater. — Isso não é você!
O redemoinho de vento estava aumentando, esvoaçando papéis e derrubando pilhas de livros. O Cão estava latindo de detrás da porta fechada do antigo quarto de Noah. Blue sentia a pele arrepiada, e as pernas e braços pesados.
— Noah, para — disse Gansey.
Mas ele não parou. A porta do apartamento estremeceu ruidosamente.
— Noah, estou pedindo para você agora — Blue disse.
Ele não estava atendendo, ou não havia o suficiente do verdadeiro Noah para atender.
Blue ficou de pé sobre as pernas trêmulas e começou a usar todas as visualizações protetoras que sua mãe havia lhe ensinado. Ela se imaginou dentro de uma bola de vidro inquebrável; ela podia ver lá fora, mas ninguém podia tocá-la. Ela imaginou uma luz branca rompendo as nuvens de tempestade, o teto, a escuridão de Noah, encontrando Blue, blindando-a.
Então ela desconectou a bateria que era Blue Sargent.
O aposento ficou parado. Os papéis pousaram. A luz tremeluziu uma vez mais e então ficou mais forte. Ela ouviu a ligeira respiração entrecortada de um soluço, e então o silêncio absoluto.
Gansey parecia chocado.
Noah estava sentado no meio do chão, rodeado de papéis, uma planta de hortelã em sua mão derrubando terra. Ele estava todo curvado e sem projetar sombra, sua forma estreita e inconstante praticamente invisível. Ele estava chorando novamente.
Em uma voz bem fina, ele se dirigiu a Blue:
— Você disse que eu podia usar sua energia.
Blue se ajoelhou diante dele. Ela queria abraçá-lo, mas Noah não estava realmente ali. Sem a energia dela, ele era um garoto fino como um papel, ele era um crânio, ele era ar na forma de Noah.
— Não desse jeito.
— Sinto muito — ele sussurrou.
— Eu também.
Noah cobriu o rosto e então desapareceu.
— Isso foi impressionante, Jane — disse Gansey.

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