30 de julho de 2018

Capítulo 6

PAELSIA

Jonas havia limpado a lâmina da adaga duas vezes, mas era como se ainda pudesse ver o sangue do irmão nela. Enfiou-a na bainha de couro em sua cintura e inspecionou a fronteira entre Paelsia e Auranos. Estava sendo monitorada, é claro. Guardas foram designados para vigiá-la do Mar Prateado, a oeste, e do outro lado das Montanhas Proibidas, a leste. Guardas escondidos, já que não podiam ser vistos com facilidade — a menos que se procurasse bem.
Jonas sabia. Ele havia aprendido com o melhor de todos: Tomas. Ele havia se aproximado daquela área perigosa pela primeira vez quando tinha apenas dez anos; seu irmão tinha catorze. Tomas tinha um segredo que nunca havia compartilhado com ninguém até decidir contar a seu irmão mais novo. Ele caçava nas terras dos vizinhos. Era um crime com sentença de morte imediata se fossem pegos, mas ele achava que valia a pena para manter sua família saudável e viva. Jonas concordava.
Paelsia já havia sido uma terra de jardins, florestas viçosas e centenas de rios repletos de peixes. Uma terra abundante em animais para a caça. A situação começara a mudar havia três gerações. Lentamente, das montanhas cobertas de neve a leste até chegar ao oceano, a oeste, Paelsia se tornou menos fértil, menos capaz de nutrir vida, resultando em grama seca, rochas cinzentas e morte. Uma desolação. Mais perto do mar a situação era melhor, mas no momento apenas um quarto da terra era capaz de nutrir vida como antes.
Contudo, graças a Auranos, o que restara de solo fértil agora era utilizado para plantar vinhas, de modo que os paelsianos pudessem vender vinho barato a seus vizinhos do sul e beber até se entorpecer em vez de plantar verduras e legumes para alimentar aqueles que viviam ali. Para Jonas, o vinho se tornou um símbolo da opressão dos paelsianos. Um símbolo da estupidez dos paelsianos. E em vez de recusar tudo aquilo e procurar uma solução, eles viviam dia após dia com um sentimento desgastado de aceitação.
Muitos acreditavam que seu líder, o chefe Basilius, mais cedo ou mais tarde recorreria à magia para salvá-los. Seus súditos mais devotos acreditavam que ele era um feiticeiro e o adoravam como a um deus, ligado ao mundo físico por carne e sangue. Ele cobrava três quartos dos lucros com o vinho como imposto. Seu povo entregava de bom grado, apegado à crença de que ele logo evocaria sua magia para salvar a todos.
“Ingênuos”, pensava Jonas, furioso. “Imperdoavelmente ingênuos.”
Tomas, por sua vez, não acreditava nessas bobagens de magia. Embora respeitasse a posição do chefe como líder, ele acreditava apenas nos fatos sólidos da vida. Não tinha problema algum em caçar de vez em quando no território de Auranos. Ele poderia caçar em Limeros também, mas os terrenos rochosos e inférteis e as temperaturas geladas que seus vizinhos do norte tinham a oferecer não eram tão propícios para a vida selvagem quanto o clima temperado e os vales viçosos de Auranos.
Jonas ficara surpreso da primeira vez que Tomas atravessara com ele a fronteira para Auranos. Um cariacu apareceu na frente deles e apresentou a garganta à lâmina dos garotos, como se lhes desse as boas-vindas àquele reino próspero. Quando eles desapareciam por uma semana e voltavam carregados de comida, o pai, que nunca fazia perguntas, deduzia que tivessem encontrado um lugar secreto para caçar em Paelsia, e eles nunca o contradisseram. Embora para o velho fosse melhor que eles trabalhassem muitas horas nos vinhedos, ele concordava com aquelas viagens frequentes sem questionar.
Se ele tivesse descoberto a verdade, ficaria furioso por seus filhos estarem arriscando a vida. Os irmãos quase foram pegos várias vezes, escapando apenas pela ligeireza de seus pés. Tudo por tentar alimentar sua família. Para isso, eram obrigados a arriscar o próprio pescoço em uma terra que poderia muito bem compartilhar tudo o que possuía e nunca notar a diferença.
— Um dia — Tomas havia dito ao irmão quando estavam exatamente naquele lugar, pouco antes de cruzar a fronteira —, eu e você vamos começar uma revolução. Vamos permitir que qualquer um cruze essa fronteira sem acabar com uma flecha enfiada nas costas. E todos em Paelsia vivenciarão a beleza e a abundância de que os auranianos desfrutam todos os dias. Vamos pegar tudo para nós.
Os olhos de Jonas ardiam só de lembrar. A dor se agarrou em sua garganta; uma dor que não o havia abandonado desde o assassinato.
“Queria que você estivesse aqui agora, Tomas. Queria tanto. Começaríamos essa sua revolução hoje”, pensou Jonas.
Sua mão encostou no punho da faca usada por lorde Aron para perfurar a garganta de seu irmão. Tudo enquanto uma bela princesa se divertia assistindo à cena.
Aquela princesa havia se tornado a obsessão de Jonas — o símbolo perfeito da própria Auranos. Friamente linda, gananciosa e má até o último fio de cabelo. O ódio que nutria por ela aumentava a cada dia que passava. Ela já devia ter esquecido o que acontecera agora que estava de volta a seu palácio dourado, sem preocupações em seu mundo perfeito. Desgraçada.
Depois de acabar com lorde Aron, Jonas pretendia usar a mesma lâmina para matá-la com calma.
— Foi o destino — seu pai disse quando as chamas do funeral de Tomas iluminaram o céu escuro.
— Não foi — Jonas disse entredentes.
— Não há outro modo de ver isso. De suportar. Era o destino dele.
— Um crime foi cometido, pai. Um assassinato pelas mãos dos mesmos nobres para quem o senhor venderia o seu vinho em um piscar de olhos. E ninguém vai pagar por isso. Tomas morreu em vão e o senhor só consegue falar em destino?
Com a triste imagem do corpo abatido de seu irmão marcada para sempre na memória, Jonas se afastou da multidão que havia se reunido para o funeral. Ele olhou nos olhos brilhantes de sua irmã ao passar por ela.
— Você sabe o que precisa fazer — Felicia sussurrou de maneira impetuosa. — Vingue a morte dele.
Então ali estava ele, pronto para entrar em Auranos. Um predador prestes a caçar um novo tipo de presa. E ele tinha uma tranquila certeza de que não regressaria de sua missão pessoal.
Morreria no processo — satisfeito, dando a vida para vingar o assassinato do irmão.
— Você parece muito sério — disse uma voz que falou com ele das sombras.
Cada músculo de seu corpo ficou tenso. Ele se virou para a direita, mas antes de ter tempo de pegar a arma, tomou um soco no estômago. Cambaleou para trás, sem ar. Um corpo se chocou contra o dele e o derrubou no chão.
Uma lâmina afiada encostou em sua garganta antes que Jonas pudesse reunir energia para se levantar. Seu fôlego ficou curto e ele olhou para cima, para um par de olhos escuros.
Uma boca estava torcida, divertindo-se.
— Morto. Simples assim. Está vendo como seria fácil?
— Saia de cima de mim — Jonas disse entredentes.
A lâmina se afastou de sua garganta. Ele empurrou a figura que estava sobre ele, e seu opositor se deslocou para trás rindo muito.
— Idiota. Achou que poderia desaparecer e ninguém notaria sua ausência?
Jonas olhou feio para seu melhor amigo. Brion Radenos.
— Eu não convidei você para vir junto.
Brion passou a mão pelos cabelos pretos e desgrenhados. Ele mostrou os dentes brancos.
— Tomei a liberdade de segui-lo. Você deixa muitos rastros. Foi fácil.
— Estou surpreso por não ter notado. — Jonas limpou a camisa, agora rasgada e mais suja do que antes. — Você fede como um porco.
— Você nunca foi bom em insultar as pessoas, então vou tomar isso como um elogio. — Brion cheirou o ar. — Seu perfume também não é o da flor mais fresca do vale. Qualquer guarda de fronteira conseguiria sentir o seu cheiro quando chegasse a quinze metros de você.
Jonas olhou para ele com raiva.
— Você não tem nada a ver com isso, Brion.
— Meu amigo fugindo para ser massacrado é problema meu.
— Não, não é.
— Pode ficar discutindo comigo o dia e a noite inteiros, se isso o impedir de entrar nesse reino.
— Não seria a primeira vez que entro nesse reino.
— Mas seria a última. Acha que não sei o que você pretende fazer? — Ele sacudiu a cabeça em negativa. — Vou falar de novo: idiota.
— Eu não sou idiota.
— Quer entrar no palácio auraniano e matar dois nobres. Para mim, é o plano de um idiota.
— Os dois merecem morrer — ele esbravejou.
— Não desse jeito.
— Você não estava lá. Não viu o que aconteceu com Tomas.
— Não, mas ouvi muitas histórias. Vi o seu sofrimento. — Brion respirou lentamente, analisando o amigo. — Eu sei no que está pensando, Jonas. Sei como se sente. Perdi meu irmão também, lembra?
— Seu irmão escorregou de um penhasco quando estava bêbado e morreu. Não chega nem perto de ser a mesma coisa.
Brion hesitou ao se lembrar do que acontecera com seu irmão, e Jonas teve a decência de perceber que fora rude o bastante para trazer à tona um assunto tão sensível.
— A perda de um irmão é algo doloroso, não importa como ele encontrou seu fim — disse Brion depois de um tempo. — Assim como a perda de um amigo.
— Não posso deixar por isso mesmo, Brion. Nada disso. Não consigo ficar em paz.
Jonas olhou para o campo aberto depois da linha estreita de floresta que separava as duas terras. A pé, o palácio ainda estava a um dia inteiro de viagem dali. Ele era um excelente alpinista. Pretendia escalar as muralhas do palácio. Jonas nunca tinha visto o palácio, mas havia escutado muitas histórias sobre ele. Durante a última guerra entre as terras, há quase um século, o rei auraniano da época construíra uma muralha de mármore cintilante ao redor de todo o terreno real, que continha o castelo e as quintas de cidadãos importantes de Auranos. Alguns diziam que mais de dois quilômetros quadrados eram cercados por aqueles muros — uma cidade dentro de si mesma. Parte de uma muralha tão grande estaria desprotegida, pois há tempos não havia ameaça real com a qual os auranianos devessem se preocupar.
— Acha que vai conseguir matar o lorde? — perguntou Brion.
— Com facilidade.
— E a princesa também? Acha que cortar a garganta de uma menina vai ser assim tão fácil para você?
Jonas olhou nos olhos do amigo.
— Ela é um exemplo da escória abastada que ri de nós e esfrega nosso nariz em nossa pobreza e terras arruinadas. O assassinato dela seria uma mensagem ao rei Corvin dizendo que isso é inaceitável. Tomas sempre quis uma revolução entre os reinos. Talvez isso sirva.
Brion fez um gesto negativo.
— Você pode ser um caçador, mas não é um assassino, Jonas.
Ele se virou de costas para Brion quando seus olhos começaram a arder. Não se permitiria chorar na frente do amigo. Nunca mais demonstraria uma fraqueza como aquela a ninguém.
Aquilo já seria uma derrota.
— Algo precisa ser feito.
— Concordo. Mas tem outro jeito. Você precisa pensar com a cabeça, não apenas com o coração.
Jonas deixou escapar uma bufada de desdém.
— Acha que estou usando o coração neste momento?
Brion revirou os olhos.
— Sim. E caso haja alguma dúvida, seu coração é um idiota assim como todo o resto. Tomas gostaria que você corresse para Auranos e enfiasse adagas em membros da realeza mesmo se ele fosse um projeto de revolucionário?
— Talvez.
Brion inclinou a cabeça.
— Sério?
Jonas franziu a testa e a imagem de seu irmão piscou em sua mente.
— Não — admitiu —, ele não gostaria. Diria que eu estaria agindo como um suicida imbecil.
— Não é muito melhor do que se embebedar para esquecer as desgraças e cair de um penhasco, não é?
Jonas soltou um longo e trêmulo suspiro.
— Ele foi tão arrogante. Lorde Aron Lagaris. Disse seu nome como se devêssemos nos ajoelhar diante dele, como camponeses insignificantes que somos, e beijar seu anel.
— Não estou dizendo que o cretino não deva pagar com sangue. Apenas que não seja com o seu sangue. — Um músculo do rosto de Brion tremeu quando ele disse aquilo.
Embora estivesse sendo muito sensato, exceto pelo ataque de um minuto antes, Brion não era exatamente o amigo mais sábio de Jonas, nem aquele de quem se esperava ouvir conselhos. Era o primeiro a entrar em uma briga que deixava pelo menos um osso quebrado — seu ou de seu oponente. Uma cicatriz dividia ao meio sua sobrancelha direita, leve lembrança de uma dessas batalhas. Diferente da maioria de seus compatriotas, Brion não era de abaixar a cabeça e aceitar um “destino” de opressão e fome.
— Você se lembra do plano de Tomas? — perguntou Jonas depois que o silêncio caiu entre eles.
— Qual? Ele tinha muitos planos.
Aquilo fez Jonas sorrir por um instante.
— Tinha mesmo. Mas um deles era marcar uma audiência com o chefe Basilius.
Brion ergueu as sobrancelhas.
— Está falando sério? Ninguém vai falar com o chefe. É o chefe que vai falar com a pessoa.
— Eu sei.
O chefe Basilius estava recluso havia vários anos, e era visto apenas por sua família e seu círculo mais íntimo de conselheiros e guardas pessoais. Alguns diziam que ele passava seus dias em uma jornada espiritual para encontrar a Tétrade — os quatro objetos lendários detentores de uma magia infinita, perdidos havia milhares de anos. Diziam que possuir os quatro resultaria no poder supremo.
Jonas, no entanto, como Tomas, reservava sua crença a respostas mais práticas. Pensando em Tomas naquele momento, ele tomou uma decisão e mudou de planos.
— Preciso falar com ele — Jonas murmurou. — Preciso fazer o que Tomas queria fazer. As coisas precisam mudar.
Brion olhou para o amigo, surpreso.
— Quer dizer que em dois minutos você passou da vingança obstinada à ideia de marcar uma possível audiência com o chefe.
— Pode-se dizer que sim. — Matar os nobres, Jonas reconheceu, seria um momento glorioso de vingança, um arroubo de glória. Mas não ajudaria o seu povo a traçar um novo curso para um futuro melhor. E isso era o que Tomas desejava acima de tudo. Jonas não acreditava que Basilius fosse um feiticeiro, mas não tinha dúvidas de que o chefe era poderoso e influente o bastante para ajudar o povo de Paelsia a seguir em uma nova direção, afastando-se da pobreza e do desespero cada vez maiores que os assolavam nos últimos anos. Se ele estivesse disposto a isso.
Como vivia longe da comunidade, talvez o chefe não estivesse ciente do quão terrível a situação de Paelsia havia se tornado. Ele precisava saber a verdade por alguém que não tivesse medo de dizê-la.
— De repente, você parece muito determinado — Brion disse, incomodado. — Devo ficar nervoso com isso?
Jonas agarrou o braço do amigo e conseguiu dar o primeiro sorriso verdadeiro desde a morte de Tomas.
— Estou determinado. As coisas vão mudar, meu amigo.
— Agora?
— Sim, agora mesmo. Tem momento melhor?
— Então não vai mais invadir o palácio e enfiar adagas nos nobres?
— Hoje não. — Jonas praticamente podia ver Tomas no canto de sua mente, rindo para o irmão mais novo e suas prioridades sempre oscilantes. Mas aquilo parecia certo. Parecia mais certo do que qualquer outra coisa em toda a sua vida. — Você vem comigo encontrar o chefe Basilius?
— E perder a chance de testemunhar a ordem dele para que sua cabeça seja espetada em uma lança por tentar incitar uma revolução em nome de seu irmão? — Brion riu. — Nem por todo o ouro de Auranos.

Um comentário:

  1. AAAA SIMPLESMENTE AMEI ESSE BRIAN
    POR FAVOR JONAS. NAO MATEA CLEIONA!!!!!!
    ASS:JANIELLI

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Boa leitura, E SEM SPOILER!