15 de julho de 2018

Capítulo 6

Quando Blue subiu no Suburban preto de Gansey, descobriu que Ronan já estava instalado no banco de trás, a cabeça recentemente raspada, as botas sobre o assento, trajado para uma briga. Sua presença no banco de trás em vez de em seu trono de sempre no assento do passageiro sugeria que eles teriam problemas pela frente. Era Adam — em uma camiseta branca e um macacão de trabalho desabotoado até a cintura — que ocupava seu lugar. Gansey estava sentado atrás da direção, exibindo o uniforme da Aglionby e uma expressão elétrica que sobressaltou Blue. Uma expressão que parecia absolutamente desperta e reluzente, como um fósforo aceso atrás dos olhos. Blue vira esse Gansey animado antes, mas normalmente somente quando eles estavam a sós.
— Olá, Jane — ele disse, com uma voz tão brilhante e intensa quanto seus olhos. Era difícil não ser capturado por esse Gansey; ele era ao mesmo tempo poderoso e preocupante em sua tensão.
Não encare — tarde demais. Adam a flagrara. Ela evitou seus olhos e se preocupou em puxar as meias altas até as coxas.
— E aí?
— Você tem tempo para dar uma volta com a gente? Ou tem que estudar? Lição de casa? — perguntou Gansey.
— Nada de lição de casa. Fui suspensa — respondeu Blue.
— Não acredito — disse Ronan com admiração. — Sargent, sua babaca.
Ainda que de forma relutante, Blue permitiu que trocassem um cumprimento de punhos cerrados enquanto Gansey a olhava significativamente pelo espelho retrovisor.
Adam girou para o outro lado em seu assento — para a direita, em vez de para a esquerda. Parecia que ele estava se escondendo, mas Blue sabia que era só porque assim ele virava o ouvido com audição na direção deles, em vez do ouvido surdo.
— Pelo quê?
— Esvaziar a mochila de um aluno em cima do carro dele. Não quero falar sobre isso realmente.
— Eu quero — disse Ronan.
— Bem, eu não. Não tenho orgulho disso.
Ronan deu um tapinha na perna de Blue.
— Eu terei orgulho por você.
Blue lançou um olhar fulminante em sua direção, mas ela se sentia confiante pela primeira vez naquele dia. Não que as mulheres da Rua Fox, 300 não fossem sua família — elas estavam onde suas raízes estavam enterradas, e nada diminuía isso. Apenas que havia algo recentemente poderoso a respeito dessa família reunida nesse carro. Todos estavam crescendo e se entremeando como árvores que lutam juntas pelo sol.
— Então, para onde vamos?
— Se você conseguir acreditar nessa — disse Gansey, ainda em seu tom frio e absolutamente educado que significava que ele estava incomodado —, eu estava planejando ir falar com Artemus sobre Glendower. Mas o Ronan decidiu mudar tudo isso. Ele tem ideias diferentes para nossa tarde. Usos mais importantes para o nosso tempo.
Ronan se inclinou para a frente.
— Diz para mim, papai, você está bravo porque eu fiz bobagem, ou porque eu faltei na escola?
— Acho que as duas situações contam como bobagens, você não acha? — disse Gansey.
— Ah, por favor — replicou Ronan. — Isso só soa vulgar, quando você diz.
Enquanto Gansey afastava rapidamente o veículo do meio-fio, Adam lançava a Blue um olhar cúmplice. Sua expressão dizia, Sim, eles estão nessa há um bom tempo. Blue se sentiu estranhamente grata por essa troca não verbal. Após seu rompimento turbulento (eles teriam chegado a sair como namorados?), Blue havia se reconciliado com o fato de Adam estar magoado ou desconfortável demais para serem bons amigos. Mas ele estava tentando. E ela também. E parecia que estava funcionando.
Exceto que ela estava apaixonada por seu melhor amigo e não havia lhe contado.
A tranquilidade de Blue se desfez imediatamente, sendo substituída por exatamente a mesma sensação que ela havia experimentado um momento antes de ter esvaziado a mochila de Holtzclaw sobre o capô do carro dele. Todas as emoções se dissolveram num vazio.
Ela realmente precisava encontrar um jeito de lidar com isso.
— GANSEY BOY!
Todos levaram um susto com o grito que entrou pela janela aberta de Gansey. Eles haviam parado no sinal perto do portão principal da Aglionby; um grupo de alunos estava parado na calçada, segurando cartazes. Relutantemente, Gansey ofereceu uma saudação de três dedos para o grupo, o que provocou mais exclamações de u-huu, u-huu, u-huu!
A visão de todos os garotos em seus uniformes provocou imediatamente uma emoção desagradável em Blue. Uma sensação antiga e complexa, formada com base em julgamento, experiência e inveja, mas ela não se importava com isso. Não que ela necessariamente achasse que suas opiniões negativas a respeito dos garotos corvos estivessem erradas. Apenas que o fato de ela conhecer Gansey, Adam, Ronan e Noah complicava o que ela fazia com essas opiniões. Era tudo bem mais fácil quando ela simplesmente presumira que podia desprezá-los a partir do ar rarefeito de uma elevação moral.
Blue espichou o pescoço, tentando ver o que os cartazes diziam, mas nenhum dos garotos fazia um trabalho muito bom em direcioná-los para a rua. Ela se perguntou se Blue Sargent, aluna da Aglionby, teria sido Blue Sargent, manifestante com um cartaz.
— Contra o que eles estão protestando?
— Vida — respondeu Adam secamente.
Então ela percebeu que reconhecia um dos alunos de pé na calçada. Ele tinha um tufo inconfundível de cabelo preto estilizado e um par de tênis de cano alto que só pareceriam mais caros se tivessem enrolados em notas de dólares.
Henry Cheng.
Blue havia se encontrado às escondidas com Gansey da última vez que o vira. Ela não se lembrava de todos os detalhes, apenas que o supercarro elétrico de Henry havia tido problemas e estava parado no acostamento da estrada, que ele havia feito uma piada que ela não achara engraçada e que isso a fizera lembrar várias vezes de como Gansey era diferente dela. Não havia sido um bom final para um encontro.
Henry claramente se lembrava dela também, pois abriu um largo sorriso para ela antes de apontar dois dedos para os próprios olhos e então para os dela.
Seus sentimentos já confusos foram acrescidos de sentimentos mais confusos ainda.
— Como você chama quando você diz “você” para se referir a todo mundo de modo geral? — perguntou Blue, inclinando-se para a frente, os olhos ainda em Henry.
— Você universal — respondeu Gansey. — Eu acho.
— Sim — disse Adam.
— Que bando de exibidos metidos — disse Ronan. Era difícil dizer se ele se referia a Gansey e Adam com sua maestria gramatical, ou aos alunos da Aglionby, parados na rua com seus cartazes escritos à mão.
— Ah, certo — disse Gansey, ainda indiferente e incomodado. — Deus perdoe os jovens que exibem seus princípios com protestos fúteis, mas públicos, quando eles poderiam faltar às aulas e julgar outros alunos do banco de trás de um veículo motorizado.
— Princípios? Os princípios de Henry Cheng só servem para conseguir uma fonte maior no jornal da escola — disse Ronan, fazendo uma versão vagamente ofensiva da voz de Henry. — Serif? Sans serif? Mais negrito, menos itálico.
Blue viu Adam abrir um sorriso e ao mesmo tempo desviar o rosto apressadamente para que Gansey não conseguisse ver, mas foi tarde demais.
— Et tu, Brute? — Gansey perguntou a Adam. — Decepcionante.
— Eu não disse nada — respondeu Adam.
O sinal ficou verde, e o Suburban começou a se afastar dos manifestantes.
— Gansey! Gansey! Richard, cara!
Essa voz era de Henry; até Blue a reconhecia. Não havia nenhum carro atrás deles, então Gansey tirou o pé do acelerador e inclinou a cabeça para fora da janela.
— O que posso fazer por você, sr. Cheng?
— Você está... acho que o seu porta-malas está aberto. — A expressão afetada de Henry havia se complicado. O sorriso alegre não tinha desaparecido, mas havia algo atrás dele. Mais uma vez, Blue sentiu o ímpeto da incerteza; ela sabia como Henry era, mas não sabia exatamente como ele era. Gansey inspecionou o painel, atrás de alguma luz de notificação.
— Não está... ah. — Sua voz havia mudado para combinar com a expressão de Henry. — Ronan.
— O quê? — disparou Ronan. Sua inveja de Henry era visível do espaço.
— Nosso porta-malas está aberto.
Um carro buzinou atrás deles. Gansey acenou para ele em seu espelho retrovisor, saudou Henry e pisou no acelerador. Blue olhou sobre o ombro a tempo de ver Henry se virar para os outros alunos, a expressão mais uma vez se fundindo no largo sorriso descomplicado que havia exibido antes.
Interessante.
Enquanto isso, Ronan se virou para olhar para o compartimento de carga atrás do banco traseiro e sussurrou:
— Fique abaixada.
Mas ele não estava falando com Blue. Ela estreitou os olhos e perguntou cautelosamente:
— Qual exatamente é o objetivo mesmo dessa volta que estamos dando?
Gansey ficou contente em responder:
— O Lynch, em sua sabedoria infinita, decidiu sonhar em vez de ir para a escola, e trouxe devolta mais do que ele tinha pedido.
O encontro com Henry havia deixado um resquício na jovial agressividade de Ronan, e então ele disparou:
— Você podia simplesmente ter me dito para cuidar do assunto sozinho. O meu sonho não é da conta de ninguém.
Adam interpôs:
— Ah, não, Ronan. Eu não tomo partido, mas isso é uma bobagem.
— Obrigado — disse Gansey.
— Ei, velho...
— Não — disse Gansey. — O Jesse Dittley morreu por causa das pessoas interessadas nos sonhos da sua família, então não aja como se os outros não fossem afetados se isso permanece em segredo ou não. Ele é seu em primeiro lugar, mas estamos todos na zona de impacto.
Isso silenciou Ronan. Ele se largou de volta no assento, olhou para fora da janela e colocou um de seus braceletes de couro entre os dentes.
Blue já tinha ouvido o suficiente. Ela puxou o cinto de segurança para abrir espaço para se virar, e então colocou o queixo sobre o assento de couro para olhar para o compartimento de carga atrás de si. Ela não viu nada imediatamente. Talvez tenha visto, mas não queria reconhecer, pois assim que seus olhos divisaram o sonho de Ronan, era impossível imaginar como ela não o vira imediatamente.
Blue já era calejada demais para se chocar com algo.
Mas ela estava chocada.
E demandou:
— Isso... isso é uma criança?
Havia uma criatura pequena, encolhida ao lado de uma mochila de academia e da bolsa a tiracolo de Gansey. Ela tinha olhos enormes quase eclipsados por um solidéu puxado para baixo. Usava um blusão de pescador esfarrapado, sujo e grande demais, e tinha pernas cinzentas ou usava meias-calças dessa cor. Aquelas coisas na extremidade das pernas eram botas ou cascos. A mente de Blue tentava dar sentido para o que via.
A voz de Ronan soou tediosa:
— Eu costumava chamá-la de Garota Órfã.

2 comentários:

  1. Parabéns, Ronan, agora você é papai kkkkkkkk

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  2. Parabéns, Ronan, agora você é papai kkkkkkkk

    kkkkkkk agora ele é pai de dois né essa garota e o mattew
    kkkkkkkk
    ASS:Janielli

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Boa leitura, E SEM SPOILER!