16 de julho de 2018

Capítulo 67

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito à Cabeswater.
Cabeswater não era uma floresta. Cabeswater era uma coisa que parecia uma floresta agora. Tratava-se de uma mágica peculiar, segundo a qual era sempre muito antiga e muito nova ao mesmo tempo. Ela sempre fora e, no entanto, estava sempre se conhecendo. Ela sempre estivera viva e querendo estar viva novamente.
Ela jamais havia morrido de propósito antes.
Mas jamais haviam lhe pedido isso.
Por favor, o Greywaren disse. Amabo te.
Não era possível. Não como ele havia pensado. Uma vida por uma vida era um bom sacrifício, uma base brilhante para uma mágica fantástica e peculiar, mas Cabeswater não era bem mortal, e o garoto que os humanos queriam salvar era. Não era tão simples quanto Cabeswater morrendo, e ele ressurgindo. Se fosse para ser, teria de ser com Cabeswater fazendo com que alguma parte essencial dela assumisse a forma humana, e mesmo Cabeswater não tinha certeza se isso era possível.
A mente do garoto mágico se movia através dos pensamentos andrajosos de Cabeswater, tentando compreender o que era possível, projetando imagens pessoais para ajudar Cabeswater a compreender a meta da ressurreição. Ele não havia se dado conta de que se tratava de um conceito muito mais difícil para ele entender do que para Cabeswater; Cabeswater estava sempre morrendo e ressurgindo novamente; quando todos os momentos eram os mesmos, a ressurreição era meramente uma questão de mover a consciência de um minuto a outro. Viver para sempre não era algo difícil para Cabeswater imaginar; reanimar um corpo humano com uma linha de tempo finita era.
Cabeswater fez o melhor que pôde para demonstrar a ele a realidade disso, embora a nuance fosse difícil com a linha ley tão desgastada como estava. A pouca comunicação que eles conseguiam reunir só era possível porque a filha da médium estava ali com ele, como sempre estivera de alguma forma, amplificando tanto Cabeswater quanto o mágico.
O que Cabeswater estava tentando fazê-los compreender era que ela dizia respeito à criação. Fazer. Construir. Ela não poderia desfazer a si mesma para esse sacrifício, porque isso ia contra a sua natureza. Ela não poderia realmente morrer para trazer um humano de volta como ele era antes. Teria sido mais fácil fazer uma cópia do humano que acabara de morrer, mas eles não queriam uma cópia. Eles queriam aquele que eles haviam acabado de perder. Era impossível trazê-lo de volta inalterado; aquele seu corpo estava irreversivelmente morto.
Mas talvez fosse possível refazê-lo em algo novo.
Cabeswater só precisava se lembrar de como eram os humanos.
Imagens eram transmitidas de Cabeswater para o mágico, e ele as sussurrava para a filha da médium. Ela começou a direcionar sua mágica de espelho para as árvores que restavam em Cabeswater, e sussurrou por favor enquanto o fazia, e as tir e e’lintes reconheceram Blue como uma delas.
Então Cabeswater começou a trabalhar.
Seres humanos eram coisas muito engenhosas e complicadas.
À medida que ela começou a gerar vida e ser do seu estoque de sonhos, as árvores restantes começaram a zunir e a cantarolar juntas. Em eras passadas, suas canções haviam soado diferentes,  mas dessa vez elas cantarolavam as canções que o Greywaren havia dado para elas. Era uma canção que se elevava, um lamento cheio de dor e alegria ao mesmo tempo. E, à medida que Cabeswater destilava a sua mágica, essas árvores começaram a cair, uma a uma.
A tristeza da filha da médium irrompeu através da floresta, e Cabeswater aceitou isso também, e a colocou na vida que ela estava construindo.
Outra árvore caiu, e outra, e Cabeswater seguia voltando sempre de novo para os humanos que tinham feito o pedido. Ela tinha de se lembrar de como eles se sentiam. Ela tinha de se lembrar de se fazer suficientemente pequena.
À medida que a floresta diminuía, o desespero e o assombro do Greywaren se avolumavam através de Cabeswater. As árvores cantarolavam docemente de volta para ele, uma canção de possibilidade, poder e sonhos, e então Cabeswater coletava o seu assombro e o colocava na vida que ela estava construindo.
E, por fim, o arrependimento melancólico do mágico se insinuou através do que restava das árvores. Sem isso, o que era ele? Simplesmente humano, humano, humano. Cabeswater pressionou folhas contra o seu rosto uma última vez, e então eles levaram essa humanidade para a vida que ela estava construindo.
Ela quase tinha uma forma humana. Serviria bem. Nada era perfeito.
Abram caminho para o rei corvo.
A última árvore caiu, a floresta desapareceu, e tudo estava absolutamente silencioso.
Blue tocou o rosto de Gansey e sussurrou:
— Acorde.

Um comentário:

  1. Acabou dessa maneira....Esperei mais. Mas Gansey iria ficar bem, isso é o mais importante e com um mundo de possibilidades quando acordasse...

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!