16 de julho de 2018

Capítulo 66

Blue Sargent havia esquecido quantas vezes lhe disseram que ela mataria o seu verdadeiro amor.
A sua família atuava no ramo de previsões. Elas liam cartas, promoviam sessões espíritas e viravam xícaras de chá sobre pires. Blue jamais fizera parte disso, exceto de uma maneira importante: ela era a pessoa com a previsão mais longeva na casa.
Se você beijar o seu verdadeiro amor, ele morrerá.
Durante a maior parte de sua vida, ela havia considerado como isso aconteceria. Ela fora avisada por toda sorte de clarividentes. Mesmo sem um pingo de habilidade mediúnica, ela vivera emaranhada em um mundo metade presente, metade futuro, sempre sabendo para onde estava indo.
Mas não mais.
Agora Blue olhava para o corpo morto de Gansey em seu blusão de gola V salpicado de chuva, pensando: não faço ideia do que vai acontecer agora.
O sangue drenava para fora da autoestrada, e corvos haviam pousado a alguns metros para bicá-lo.
Todos os sinais de atividade demoníaca haviam desaparecido de uma vez.
— Tira ele — começou Ronan, e então, endireitando-se para terminar, em um rosnado: — Tira ele da estrada. Ele não é um animal.
Eles arrastaram o corpo de Gansey para a grama verde no acostamento da estrada estreita. Ele ainda parecia inteiramente vivo; só estivera morto por um minuto ou dois, e simplesmente não havia muita diferença entre estar morto e dormindo até as coisas começarem a se decompor.
Ronan se agachou ao lado dele, o líquido negro ainda lambuzado em seu rosto debaixo do nariz e em torno das orelhas. Seu vagalume sonhado repousava sobre o coração de Gansey.
— Acorda, seu bastardo — ele disse. — Seu filho da puta. Não acredito que você...
E começou a chorar.
Ao lado de Blue e Henry, Adam tinha as faces do rosto secas e os olhos mortos, mas a Garota Órfã abraçou seu braço, confortando uma pessoa chorosa enquanto encarava o nada, ao longe. O relógio de Adam se movia espasmodicamente no mesmo minuto sempre de novo.
Blue tinha parado de chorar. Ela já usara todas as suas lágrimas antes.
Os sons de Henrietta encontraram seu caminho até eles; uma ambulância ou um carro dos bombeiros acionava a sirene em alguma parte. Motores aceleravam. Um alto-falante estava ligado. Em uma árvore próxima, pássaros pequenos cantarolavam. As vacas haviam começado a se deslocar colina abaixo na direção deles, curiosas a respeito do tempo em que estavam parados ali.
— Realmente não sei o que fazer — confessou Henry. — Não era assim que eu achava que as coisas terminariam. Achei que iríamos todos para a Venezuela.
Ele soava irônico e pragmático, e Blue percebeu que essa era a única maneira que ele conseguia lidar com o fato do cadáver de Richard Gansey estar deitado no chão.
— Não consigo pensar assim — disse Blue verdadeiramente. Ela não conseguia pensar realmente em nada. Tudo havia chegado ao fim. Cada parte do seu futuro não estava escrita pela primeira vez em sua vida. Será que eles deveriam ligar para a polícia? Questões práticas de amores verdadeiros mortos, caídos à sua frente, e Blue percebia que não conseguia se concentrar em nenhuma delas claramente. — Não consigo realmente... pensar em nada. É como se eu tivesse um abajur sobre a minha cabeça. Vou continuar esperando... não sei.
Adam subitamente se sentou. Ele não disse nada, apenas cobriu o rosto com as mãos. Henry inspirou nervosamente.
— Nós deveríamos tirar os carros da estrada — ele disse. — Agora que as coisas não estão sangrando, o tráfego vai... — Ele se interrompeu. — Isso não está certo.
Blue balançou a cabeça.
— Eu simplesmente não entendo — disse Henry. — Eu tinha tanta certeza de que isso iria... mudar tudo. Não achei que fosse terminar assim.
— Eu sempre soube que terminaria assim — ela disse —, mas mesmo assim não parece certo. Será que um dia vai parecer certo?
Henry deslocou o peso do corpo de um pé para o outro, prestando atenção se não vinham outros carros, mas não tomando iniciativa alguma em relação aos carros deles, apesar de sua preocupação anterior com o tráfego. Ele olhou para o relógio — assim como o de Adam, ele ainda estava tentando incansavelmente os mesmos poucos minutos, embora não tão violentamente como antes — e repetiu:
— Eu simplesmente não entendo. Qual o sentido da mágica, senão por isso?
— Para o quê?
Henry estendeu uma mão sobre o corpo de Gansey.
— Para ele morrer. Você disse que vocês eram os mágicos de Gansey. Façam alguma coisa.
— Eu não sou mágica.
— Você acabou de matar o Gansey com a sua boca. — Henry apontou para Ronan. — Aquele ali acabou de sonhar aquela pilha de bagulhos ao lado do carro! E aquele outro salvou a própria vida quando as coisas caíram de um telhado!
A atenção de Adam se concentrou bruscamente nisso. A dor afiou o seu tom para o fio de uma faca.
— Isso é diferente.
— Diferente como? Desrespeita as regras também!
— Por que uma coisa é desrespeitar as regras da física com mágica — disparou Adam. — E outra é trazer alguém de volta à vida.
Mas Henry não cedia.
— Por quê? Ele já voltou uma vez.
Era impossível argumentar com isso. Blue disse:
— Mas aquilo exigiu um sacrifício. A morte do Noah.
— Então encontrem outro sacrifício — disse Henry.
Adam rosnou:
— Você está se oferecendo?
Blue compreendia a sua raiva, no entanto. Qualquer grau de esperança era impossível de suportar nessa situação.
Houve um silêncio. Henry olhou para baixo, para a estrada de novo. Finalmente, disse:
— Sejam mágicos.
— Cala a boca — disparou Ronan subitamente. — Cala a boca! Não suporto isso. Esquece.
Henry deu um passo para trás, tão feroz era a dor de Ronan. Todos caíram no silêncio. Blue não conseguia parar de olhar para o tempo marcando passo no relógio de Henry. O tremor era cada vez menos frenético à medida que eles se distanciavam do beijo, e Blue não conseguia deixar de temer quando o tempo retornasse inteiramente ao normal. Parecia que Gansey estaria realmente, verdadeiramente morto, quando isso acontecesse.
O ponteiro dos minutos estremeceu. E de novo.
Blue já estava cansada de uma linha do tempo sem Gansey nela.
Adam ergueu o olhar de onde estava curvado na grama. Sua voz soou pequena.
— E Cabeswater?
— O que tem ela? — perguntou Ronan. — Ela não tem mais poder para fazer nada.
— Eu sei — respondeu Adam. — Mas se você pedisse... ela poderia morrer por ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!