16 de julho de 2018

Capítulo 65

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito a Noah Czerny.
O problema de estar morto era que suas histórias paravam de ser linhas e começavam a ser círculos. Elas passavam a iniciar e terminar no mesmo momento: o momento da morte. Era difícil se concentrar em outras maneiras de contar histórias e lembrar que os vivos estavam interessados na ordem de especificados eventos. Cronologia. Essa era a palavra. Noah estava mais interessado no peso espiritual de um minuto. Ser morto. Havia uma história. Ele jamais parava de notar aquele momento. Toda vez que ele o via, ia mais devagar e o observava, lembrando-se precisamente de cada sensação física que experimentara durante o assassinato.
Assassinato.
Às vezes Noah era pego em uma volta em que compreendia constantemente que fora assassinado, e a ira o fazia quebrar coisas no quarto de Ronan, chutar o pote de menta de cima da escrivaninha de Gansey, ou dar um soco em uma vidraça na escada que conduzia ao apartamento.
Às vezes ele era pego nesse momento. A morte de Gansey. Observando Gansey morrer, sempre de novo. Perguntando-se se ele teria demonstrado essa bravura na floresta, se Whelk tivesse lhe pedido para morrer em vez de forçá-lo a morrer. Ele não acreditava que Whelk faria isso. Noah não tinha certeza se eles haviam compartilhado esse tipo de amizade. Às vezes, quando ele voltava para ver o Gansey ainda vivo, ele esquecia se esse Gansey já sabia ou não que ele iria morrer. Era fácil saber de tudo quando o tempo era circular, mas difícil lembrar como o usar.
— Gansey — ele disse. — Isso é tudo.
Esse não era o momento certo. Noah fora sugado para a vida espiritual de Gansey, o que era uma linha inteiramente diferente. Ele se afastou dela. Não era uma consideração espacial, mas de tempo. Era um pouco como pular corda de três — Noah não conseguia mais lembrar com quem ele fizera tal coisa, apenas que devia tê-la feito em algum ponto para se lembrar dela —, você tinha de esperar pelo momento certo para avançar ou seria repelido pela corda.
Ele nem sempre se lembrava de por que estava fazendo isso, mas se lembrava do que estava fazendo: olhando para a primeira vez em que Gansey morrera.
Noah não se lembrava da primeira vez em que ele havia feito essa escolha. Era difícil, agora, distinguir o que era uma lembrança e o que na realidade estava se repetindo. Nem agora ele tinha certeza de qual das duas ele estava fazendo.
Noah só sabia que ele seguia em frente até aquele momento. Ele só tinha de permanecer firme por tempo suficiente para se certificar de que ocorreria.
Ali estava ele: Gansey, muito jovem, contorcendo-se e morrendo nas folhas de uma mata no mesmo momento em que Noah, a quilômetros dali, se contorcera, morrendo nas folhas de uma mata diferente.
Todas as vezes eram as mesmas. Tão logo Noah morrera, seu espírito, cheio da linha ley, favorecido por Cabeswater, se sentira espalhado sobre cada momento que ele experimentara e experimentaria. Era fácil parecer sábio quando o tempo era um círculo.
Noah se agachou sobre o corpo de Gansey e disse, pela última vez:
— Você vai viver por causa de Glendower. Alguém na linha ley está morrendo quando não deveria, e assim você vai viver quando não deveria.
Gansey morreu.
— Adeus — disse Noah. — Não desperdice essa chance.
E deslizou silenciosamente através do tempo.

Um comentário:

  1. A busca dele por Glendower não fez sentido, pois que disse aquelas palavras foi Noah. Supreendente. Isso que dizer que Gansey vai viver de novo?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!