16 de julho de 2018

Capítulo 64

Querer viver, mas aceitar a morte para salvar os outros: isso era coragem. Essa era a grandeza de Gansey.
— Tem que acontecer agora — ele disse. — Tenho que fazer o sacrifício agora.
Agora que o momento tinha chegado, havia certa glória em relação a ele. Gansey não queria morrer, mas pelo menos estava fazendo isso por essas pessoas, sua família encontrada. Pelo menos estava fazendo isso por pessoas que ele sabia que realmente viveriam. Pelo menos ele não estava morrendo inutilmente, picado por vespas. Pelo menos dessa vez importaria.
Ali era onde ele morreria: em um campo inclinado, salpicado de folhas de carvalho. O gado escuro pastava colina acima, longe deles, os rabos batendo e balançando enquanto a chuva caía em trovoadas esparsas. A relva estava extraordinariamente verde para outubro, e o choque da cor contra as folhas brilhantes da estação fazia a paisagem parecer uma foto de calendário. Não havia mais ninguém há quilômetros dali. A única coisa fora do lugar era o rio de sangue polvilhado de flores através da estrada sinuosa, e o rapaz morrendo em seu carro.
— Mas não estamos nem perto de Cabeswater! — disse Blue.
O telefone de Ronan tocava de novo: Declan, Declan, Declan. Tudo ruía por toda parte.
Ronan oscilou brevemente de volta à consciência, seus olhos tomados de escuridão, uma chuva de seixos bruxuleantes espalhando-se de sua mão e deslizando até uma parada sórdida sobre o chão ensanguentado. Terrivelmente, a Garota Órfã só observava com uma expressão vazia do banco de trás, a escuridão lentamente escorrendo de seu ouvido mais próximo. Quando ela percebeu que Gansey a olhava, simplesmente fez Kerah com a boca, sem emitir nenhum som.
— Nós estamos na linha ley?
Tudo que importava era que eles estivessem na linha, para que o sacrifício contasse para matar o demônio.
— Sim, mas não estamos nem perto de Cabeswater. Você simplesmente vai morrer.
Uma grande coisa a respeito de Blue Sargent era que ela jamais realmente desistira. Ele teria dito isso a ela, mas sabia que isso só a deixaria mais incomodada. Então ele falou:
— Não posso ver o Ronan morrer, Blue. E Adam... e Matthew... e tudo isso? Não temos mais nada. Você já viu o meu espírito. Você já sabe o que nós escolhemos!
Blue fechou os olhos e duas lágrimas correram deles. Ela não chorou ruidosamente, ou de uma maneira que lhe pedia para dizer qualquer coisa diferente. Ela era uma criatura esperançosa, mas também sensível.
— Me desamarrem — disse Adam do banco de trás. — Se vocês forem fazer isso agora, pelo amor de Deus, me desamarrem.
Adam não tinha mais a venda nos olhos e olhava para Gansey, seus olhos mesmo em vez dos olhos do demônio. O peito se movia rápido. Se tivesse outro jeito, Gansey sabia que Adam o diria.
— É seguro? — perguntou Gansey.
— Tão seguro quanto a vida — respondeu Adam. — Me desamarrem.
Henry só estivera esperando por algo para fazer — ele claramente não sabia como processar essa situação sem ter uma tarefa para realizar —, então deu um salto para desamarrar Adam. Balançando os punhos avermelhados livres da faixa, Adam tocou primeiro o topo da cabeça da Garota Órfã e sussurrou:
— Vai ficar tudo bem.
E então saiu do carro e parou na frente de Gansey. O que eles poderiam dizer?
Gansey tocou seu punho fechado contra o de Adam e eles anuíram um para o outro. Era estúpido, inadequado.
Com esforço, Ronan voltou brevemente à consciência; flores transbordavam do carro em tons de azul que Gansey jamais vira. Ronan estava congelado no mesmo lugar, como ele sempre ficava após um sonho, e a escuridão exsudava de uma de suas narinas.
Gansey jamais compreendera realmente o que significava para Ronan ter de viver com seus pesadelos.
Agora ele compreendia.
Não havia mais tempo.
— Obrigado por tudo, Henry — disse Gansey. — Você é um príncipe entre os homens.
O rosto de Henry estava vazio.
— Eu odeio isso — disse Blue.
Estava certo, no entanto. Gansey sentiu que o tempo se esvaía — uma última vez. Sentiu que já fizera isso antes. Encostou suavemente o dorso das mãos nas faces de Blue e sussurrou:
— Vai ficar tudo bem. Estou pronto. Blue, me beije.
A chuva salpicava à volta deles, levantando borrifos de um líquido rubro-negro e fazendo com que as pétalas em torno deles se contorcessem. Objetos de sonho da recentemente curada imaginação de Ronan se empilhavam aos seus pés. Na chuva, tudo cheirava a essas montanhas no outono: folhas de carvalho e campos de feno, ozônio e terra revirada. Era bonito aqui, e Gansey adorava o lugar.
Levara um longo tempo, mas ele terminara onde quisera, afinal.
Blue o beijou.
Ele havia sonhado muitas vezes com esse beijo, e ei-lo, de desejado para a vida. Em outro mundo, seria apenas isto: uma garota pressionando suavemente seus lábios contra os lábios de um garoto.
Mas, neste mundo, Gansey sentiu os efeitos imediatamente. Blue, um espelho, uma amplificadora, uma alma estranha, metade árvore, com a mágica da linha ley correndo por ela. E Gansey, revigorado imediatamente pelo poder da linha ley, tendo recebido um coração de linha ley, outro tipo de espelho. E, quando eles apontaram um para o outro, o mais fraco cedeu.
O coração de linha ley de Gansey fora doado, não desenvolvido.
Ele se afastou dela.
Em voz alta, com intenção, com a voz que não deixava espaço para dúvidas, Gansey disse:
— Que seja para matar o demônio.
Assim que ele disse isso, Blue jogou os braços apertadamente em torno de seu pescoço. Assim que ele disse isso, ela pressionou o rosto contra a face de Gansey. Assim que ele disse isso, ela o segurou como uma palavra gritada. Amor, amor, amor.
Ele desabou silenciosamente de seus braços.
Ele era um rei.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!