16 de julho de 2018

Capítulo 63

O demônio trabalhava lentamente as fibras do sonhador.
Eles eram coisas difíceis de desfazer, os sonhadores. Muito de um sonhador não existia dentro de um corpo físico. Muitas partes complicadas deles se emaranhavam nas estrelas e se prendiam nas raízes das árvores. Muito deles fugia pela correnteza dos rios e explodia através do ar, entre gotas de chuva.
Esse sonhador lutava.
O demônio dizia respeito ao desfazer e ao nada, e sonhadores diziam respeito ao fazer e à plenitude. Esse sonhador era tudo isso até um extremo, um novo rei em seu reino inventado.
Ele lutou.
O demônio continuava deixando-o inconsciente, e, naquelas breves rupturas de escuridão, o sonhador arrebatava a luz e, quando nadava de volta à consciência, impelia o sonho sobre a realidade.
Ele lhes atribuía o formato de criaturas com asas, estrelas presas à terra, coroas flamejantes, notas douradas que cantarolavam por si mesmas, folhas de menta dispersas através do pavimento estriado de sangue e de pedaços de papel escritos com uma caligrafia entalhada: Unguibus et rostro.
Mas ele estava morrendo.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!