16 de julho de 2018

Capítulo 62

Era impossível acreditar que Adam havia pensado que o momento anterior fora o pior.
Isto era o pior: estar vendado e amarrado no banco de trás de um carro, sabendo que o ruído arfado e suave era Ronan Lynch tentando respirar, sufocado, toda vez que ele vadeava de volta à consciência.
Tanto de Ronan era bravura, e não sobrara nada dela.
E Adam não passava de uma arma para matá-lo mais rápido.
Parecia que fazia anos que ele tinha feito essa barganha com Cabeswater. Serei suas mãos. Serei seus olhos. Quão horrorizado Gansey ficara, e talvez ele estivesse certo. Porque ali estava Adam despido de todas as opções. Tornado tão fácil e simplesmente impotente.
Seus pensamentos eram um campo de batalha agora, e Adam fugiu para a escuridão da venda. Era um jogo perigoso fazer uma divinação quando Cabeswater corria tamanho perigo, quando todos os outros estariam ocupados demais se ele também começasse a morrer no banco de trás, mas essa era a única maneira que ele tinha para sobreviver estando tão próximo do arfar dolorido de Ronan.
Ele rodou para longe e rápido, lançando seu inconsciente para bem distante de seus pensamentos conscientes, o mais longe que ele poderia chegar da verdade do carro o mais rápido possível.
Restava muito, muito pouco de Cabeswater. Na maior parte, escuridão. Talvez ele pudesse encontrar seu caminho de volta para seu corpo corrompido. Talvez ele se perderia, como Persephone
Persephone
Tão logo Adam pensou o seu nome, percebeu que ela estava com ele. Adam não sabia dizer como ele sabia disso, tendo em vista que ele não podia vê-la. Na realidade, ele não conseguia ver nada. Na realidade, ele descobriu que estava mais uma vez intensamente ciente do tecido da venda em seus olhos, assim como da dor surda de seus dedos entrelaçados e presos uns nos outros. Mais uma vez intensamente ciente de sua realidade física; mais uma vez encarcerado dentro de seu corpo inútil.
— Você me empurrou de volta para cá — ele a acusou.
Psss, ela respondeu. Foi você que se deixou ser empurrado.
Adam não sabia o que lhe dizer. Ele estava dolorosamente contente de sentir sua presença novamente. Não era que Persephone, a vaga Persephone, fosse uma criatura dada a proporcionar conforto. Mas sua sensibilidade, sabedoria e regras o haviam confortado enormemente quando ele era um caos, e, embora ela não tivesse dito nada realmente para ele, a mera lembrança daquele conforto lhe causara um impulso de felicidade desmedida.
— Estou arruinado.
Humm.
— A culpa é minha.
Humm.
— Gansey estava certo.
Humm.
— Pare com esse humm!
Então talvez você devesse parar de dizer coisas que cansou de dizer para mim semanas atrás.
— Minhas mãos, no entanto. Meus olhos.
Quando ele os nomeou, Adam os sentiu. As mãos em garras. Os olhos revirados. Eles estavam empolgados com a destruição de Ronan. Esse era o seu propósito. Como eles desejavam ajudar naquela tarefa pavorosa.
Com quem você fez aquele trato?
— Cabeswater.
Quem está usando as suas mãos?
— O demônio.
Isso não é a mesma coisa.
Adam não respondeu. Mais uma vez Persephone estava lhe dando um conselho que soava bom, mas era impossível de usar no mundo real. Era sabedoria. Não um item leiloável.
Você fez o seu trato com Cabeswater, não com um demônio. Embora eles pareçam a mesma coisa e você os sinta da mesma maneira, eles não são a mesma coisa.
— Eu os sinto da mesma maneira.
Eles não são a mesma coisa. O demônio não tem direito algum sobre você. Você não escolheu o demônio. Você escolheu Cabeswater.
— Não sei o que fazer — disse Adam.
Sim, você sabe. Você tem que continuar fazendo suas escolhas.
Mas Cabeswater estava morrendo. Talvez em breve não houvesse Cabeswater para escolher.
Talvez em breve só restasse a mente de Adam, o corpo de Adam e o demônio. Ele não disse isso em voz alta. Não tinha importância. Nesse lugar, seus pensamentos e suas palavras eram a mesma coisa.
Isso não o torna um demônio. Você será um daqueles deuses sem poderes mágicos. Como eles são chamados?
— Não creio que exista uma palavra.
Rei. Provavelmente. Estou indo agora.
— Persephone, por favor... Eu... — sinto sua falta.
Ele estava sozinho; ela havia partido. Adam fora deixado, como sempre, com partes iguais de conforto e incerteza. O sentimento de que ele sabia como avançar; a dúvida de que ele fosse capaz de executá-lo. Mas, dessa vez, ela fizera um esforço enorme para lhe dar a sua lição. Adam não tinha certeza se ela ainda podia vê-lo agora, mas ele não queria decepcioná-la.
E a verdade era que, se pensasse a respeito das coisas que ele adorava sobre Cabeswater, não havia a menor dificuldade em dizer a diferença entre ela e o demônio. Eles cresciam do mesmo solo, mas não tinham nada a ver um com o outro.
Esses olhos e essas mãos são meus, pensou Adam.
E eram. Ele não precisava provar isso. Era um fato tão logo ele acreditasse nele.
Adam virou a cabeça e se livrou da venda, esfregando-a.
Então viu o fim do mundo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!