16 de julho de 2018

Capítulo 61

Adam não conseguia decidir se essa fora a pior coisa que havia lhe acontecido, ou se ele se sentia assim porque estivera tão recente e insensatamente feliz que a comparação lhe causava essa impressão.
Ele estava no banco de trás do BMW, as mãos ainda amarradas, os olhos cobertos, um ouvido surdo. Ele não se sentia real. Sentia-se cansado, mas não sonolento, debilitado pelo esforço de ser incapaz de comandar seus sentidos. E, ainda assim, o demônio trabalhava contra a faixa — como sua pele chiava de dor — e revirava os olhos contra a sua vontade. Blue estava sentada ao seu lado, e a Garota Órfã do outro, a pedido seu. Adam não sabia se conseguiria escapar da faixa, mas sabia que o demônio só machucaria Blue, em um esforço para chegar até Ronan ou a Garota Órfã. Então pelo menos eles teriam um aviso se isso acontecesse de novo.
Deus, Deus. Ele quase matara Ronan. Ele o teria matado. Não fazia muito ele beijara Ronan, e suas mãos mesmo assim o teriam assassinado enquanto Adam observava.
Como ele iria para a escola? Como ele faria qualquer coisa...
Sua respiração o traiu, pois Blue recostou contra o seu ombro.
— Não... — ele avisou.
Ela ergueu a cabeça, mas então Adam sentiu os dedos dela em seu cabelo, acariciando-o suavemente e tocando a pele do seu rosto onde ele havia se ferido. Blue não disse nada.
Adam fechou os olhos por trás da venda, ouvindo ao lento bater da chuva no para-brisa, o varrer dos limpadores. Ele não fazia ideia de quão próximos eles estavam de Cabeswater. Por que ele não conseguia pensar em outra maneira sobre o sacrifício? Gansey só estava se apressando para fazer isso por causa dele, por causa de como essa barganha havia transformado isso em uma emergência. No fim das contas, Adam o estava matando do mesmo jeito, bem como em sua visão. Uma versão às avessas, oblíqua da culpa, mas com Adam dirigindo o timão do mesmo jeito.
Contudo, era inegável que fora Adam que transformara isso tudo em uma emergência.
Um mau pressentimento sibilava dentro de Adam, mas ele não sabia dizer se era culpa ou aviso de Cabeswater.
— O que é aquilo? — ouviu-se a voz de Gansey do banco de passageiros. — Na estrada?
Blue se afastou de Adam; ele a ouviu se posicionar entre os assentos do motorista e do passageiro. Ela parecia em dúvida.
— Será que é... sangue?
— Do quê? — perguntou Ronan.
— Talvez de nada — disse Gansey. — Será que é real?
— A chuva está caindo em cima dele — disse Ronan.
— Será que devemos... passar por cima? — perguntou Gansey. — Blue, qual a expressão no rosto do Henry? Você consegue ver?
Adam sentiu o corpo de Blue o abalroar enquanto ela se virava para olhar para o Fisker atrás deles. As mãos de Adam se crispavam e tinham espasmos, eternamente famintas. O demônio parecia… próximo.
— Me passa seu telefone. Vou ligar para a minha mãe — disse Blue.
— O que está acontecendo? — perguntou Adam.
— A estrada está alagada — disse Blue. — Mas parece sangue... E tem alguma coisa flutuando nele. O que é aquilo, Gansey? São... pétalas? Pétalas azuis?
Houve um silêncio pesado no carro.
— Vocês não acham que as coisas estão voltando ao ponto de partida? — disse Ronan em voz baixa. — Vocês...
Ele não terminou a frase. O carro estava em silêncio novamente, parado — aparentemente ele não havia decidido se deveria passar ou não pelo trecho alagado. A chuva salpicava. Os limpadores suspiraram com ruído mais uma ida e vinda.
— Acho que nós... Jesus — interrompeu Gansey. — Jesus. Ronan?
O terror revestia suas palavras.
— Ronan? — repetiu Gansey. Houve uma batida metálica. O ranger de um assento. Confusão. O carro balançou debaixo deles com a ferocidade do deslocamento do peso de Gansey. Ronan ainda não havia respondido. Um rugido ressoava grave por trás de suas palavras. O motor: Ronan estava apertando o acelerador com o carro no ponto morto.
O aviso doentio em Adam havia se transformado em alarme.
O rugir cessou subitamente; o carro havia sido desligado.
— Ah, não — disse Blue. — Ah, não, a garota também!
Ela se afastou de Adam, rápido; ele a ouviu abrir a porta do outro lado do carro. O ar frio e úmido foi sugado para dentro do BMW. Outra porta se abriu, e mais outra. Todas elas, exceto a de Adam. A voz de Henry chegou da rua, grave, séria e completamente destituída de humor.
— O que está acontecendo? — demandou Adam.
— Será que podemos... — A voz de Blue estava a meio caminho do choro, vindo do lado de fora da porta do motorista. — Será que podemos o recolher?
— Não — arfou Ronan. — Não toque nele... não...
O assento do motorista bateu de volta com tanta força que atingiu os joelhos de Adam. Ele ouviu um som que era inequivocamente Ronan inspirando com dificuldade.
— Ah, Jesus — disse Gansey de novo. — Me diga o que eu devo fazer.
Mais uma vez o assento corcoveou. As mãos de Adam cerraram-se como garras contra o assento atrás dele, absolutamente contra a sua vontade. O que quer que estivesse acontecendo, eles queriam fazer com que acontecesse mais rápido. Do assento da frente, o telefone de Ronan começou a tocar e tocar e tocar. Um toque baixo, monótono, que Ronan havia programado para quando o número de Declan ligava.
O pior era que Adam sabia o que isso queria dizer: algo estava acontecendo com Matthew. Não, o pior era que Adam não podia fazer nada a respeito de nada.
— Ronan, Ronan, não feche os olhos — disse Blue, agora chorando. — Estou ligando... estou ligando para a minha mãe.
— Uau, se afastem! — gritou Gansey.
O carro todo balançou.
— O que foi isso? — demandou Henry.
— Ele o trouxe de volta dos seus sonhos — disse Gansey. — Quando ele apagou. Não vai nos machucar.
— O que está acontecendo? — demandou Adam.
A voz de Gansey soou baixa e miserável. Ficou muito aguda e se fendeu.
— Ele está se desfazendo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!