16 de julho de 2018

Capítulo 60

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito a Seondeok.
Ela não quisera ser uma negociante de arte internacional ou uma líder criminosa de menor importância. A história começara como um mero desejo por algo mais, e então uma lenta percepção de que esse algo mais jamais seria alcançado em sua trajetória atual. Ela estava casada com um homem inteligente que encontrara em Hong Kong e tivera várias crianças brilhantes que seguiram o exemplo do pai, exceto por um, e assim ela vira como a sua vida se desenrolaria.
E daí ela enlouquecera.
Não fora uma loucura de longa duração. Um ano, talvez, de crises, visões e perambulações pelas ruas. E, quando saíra do outro lado, descobrira que tinha os olhos de uma médium e o toque de um xamã, e que faria uma carreira disso. Ela se renomeou Seondeok, e a lenda nascera.
Ela lidava com o assombro todos os dias.
A abelha robótica foi o momento em que ela percebeu que estava em um caminho predestinado. Henry, seu filho do meio, brilhava intensamente, mas ele jamais parecia capaz de direcionar a luz para fora de si mesmo. E então, quando Niall Lynch se ofereceu para encontrar para ela uma quinquilharia, uma lembrança, um brinquedo mágico que ajudaria o garoto, Seondeok lhe deu ouvidos. A bela abelha chamou sua atenção no momento em que ela a viu. É claro que ele também a mostrara para Laumonier, Greenmantle, Valquez, Mackey e Xi, mas isso era de se esperar, pois ele era um patife e não tinha como evitar. No entanto, quando conhecera Henry, ele deixara Seondeok ficar com a abelha por quase nada, e ela não esqueceria isso.
É claro, fora um presente e uma penalidade, pois, mais tarde, Laumonier raptara Henry por causa dela.
E ela se vingaria por isso.
Ela não se arrependia do caminho que escolhera. Ela não conseguia se arrepender dele, mesmo quando ele ameaçava os seus filhos, mesmo quando era difícil.
Quando Seondeok se viu ao lado do Homem Cinzento, o velho capanga de Greenmantle, em um estacionamento do lado de fora do campus da Aglionby, e descobriu que o sangue nos seus sapatos era de Laumonier, ela ficou instantaneamente interessada no que ele tinha para dizer.
— Um jeito novo, corajoso, de fazer negócios — disse o Homem Cinzento em voz baixa, à medida que o estacionamento começava a encher-se rapidamente com um número pequeno, mas poderoso, de pessoas com aparência ameaçadora. Não que elas parecessem perigosas, necessariamente. Apenas esquisitas de um jeito que sugeria que elas viam o mundo de uma maneira bem diferente da sua. Elas formavam um grupo bem diferente das pessoas que tinham vindo para a escola na noite anterior. Tecnicamente, ambos os encontros tinham muito a ver com política. — Um jeito ético. Não há guardas armados do lado de fora de lojas de móveis para evitar que as pessoas ameacem os empregados e saíam carregando sofás. Esse é o negócio que eu quero.
— Não vai ser algo fácil — disse Seondeok, com a voz também baixa. Ela mantinha os olhos nos carros que estacionavam, e também no seu telefone. Ela sabia que Henry recebera ordens para ficar longe dali, e ela confiava que ele mantivesse a cabeça baixa, mas também não confiava nem um pouco em Laumonier. Não fazia sentido tentá-los mostrando que Henry e, por extensão, sua abelha — estava bem próximo deles. — As pessoas se acostumaram a sair carregando sofás, e ninguém gosta de parar de roubar sofás quando os outros ainda não concordaram com isso.
— A persuasão pode ser necessária no início — admitiu o Homem Cinzento.
— Você está falando de anos.
— Estou determinado — ele respondeu. — Desde que eu consiga um número decente de pessoas que estejam interessadas nessa visão. Pessoas que eu gosto.
Ali estava Laumonier, finalmente, um deles ao telefone. Seu rosto sugeria que ele estava tentando contatar o terceiro, mas o terceiro não estava em condições de responder. O Homem Cinzento discutiria isso com eles depois de terminada a venda. De maneira persuasiva, ajudado por algumas armas verdadeiramente fantásticas que encontrara na fazenda Lynch.
— Eu não sou uma pessoa que você gosta — disse Seondeok.
— Você é uma pessoa que eu respeito, o que é quase o mesmo.
O sorriso dela mostrava que ela sabia que o Homem Cinzento a estava bajulando, e ela o aceitava mesmo assim.
— Talvez, sr. Cinzento. Isso está de acordo com os meus interesses.
Foi quando Piper Greenmantle chegou.
Bem, não era ela, em um primeiro momento. Foi o terror primeiro, então Piper. O sentimento os atingiu como uma onda de náusea, sacudindo-os dos pés à cabeça, mandando mãos, gargantas e joelhos para o chão. Era início da tarde, mas o céu subitamente parecia mais escuro. Era o primeiro sinal de que essa venda seria algo extraordinário.
Assim, primeiro o medo, então Piper. Ela havia chegado voando, o que era o segundo sinal de que as coisas seriam de certa forma incomuns.
Quando pousou, ficou claro que ela havia chegado em um tapete de minúsculas vespas que se dissolveram quando tocaram o asfalto.
Ela parecia bem.
Isso era surpreendente por várias razões: primeiro porque os rumores diziam que ela havia morrido antes de o seu marido puxa-saco ter sido morto por vespas em seu apartamento, e ela claramente não estava morta. E, em segundo, porque ela estava segurando uma vespa negra que tinha quase meio metro de comprimento, e a maioria das pessoas não parecia tão serena e composta quanto ela segurando um inseto venenoso de qualquer tamanho.
Ela caminhou a passos largos até Laumonier, com a intenção de cumprimentá-los com um beijo no rosto, mas ambos se inclinaram para trás do inseto. Esse foi o terceiro sinal de que as coisas seriam de certa forma incomuns, porque Laumonier normalmente fazia questão de jamais parecer alarmado.
— Isso não é bom — sussurrou o Homem Cinzento.
Porque agora era óbvio que o terror estava vindo ou de Piper ou da vespa. A sensação seguia atingindo Seondeok em ondas doentias, lembrando-lhe dolorosamente do ano em que enlouquecera.
Foi preciso um momento para que ela percebesse que estava sendo verbalmente lembrada daquele fatídico ano — ela podia ouvir as palavras em sua cabeça. Em coreano.
— Obrigada a todos por terem vindo — disse Piper grandiosamente. Ela inclinou a cabeça, os olhos estreitados, e Seondeok sabia que algo estava sendo sussurrado para ela também. — Agora que estou solteira, pretendo atuar de forma independente no negócio de objetos mágicos de luxo, com a curadoria de somente as merdas malucas mais extraordinárias e sobrenaturais. Espero que todos vocês comecem a confiar em mim como sendo uma fonte de qualidade. E a nossa peça que vai dar início aos trabalhos... a coisa que vocês vieram até aqui para ver... é isto. — Ela ergueu o braço, e a vespa avançou um pouco mais em direção à sua mão. As pessoas tiveram calafrios ao mesmo tempo; havia algo muito errado a respeito dela. O terror, mais o tamanho, o peso real dela movendo o tecido da manga de Piper. — Um demônio.
Sim. Seondeok acreditava nisso.
— Ele me concedeu favores, como vocês podem ver, pelo meu cabelo e minha pele incríveis, mas estou pronta para passá-lo adiante para o próximo usuário, para que eu possa encontrar o grande objeto seguinte! O que importa é a jornada, certo? Certo!
— Ele é... — começou um dos homens no grupo. Rodney, Seondeok achava que esse era o nome dele. Ele não parecia saber como terminar a sua pergunta.
— Como ele funciona? — perguntou Seondeok.
— Na maioria das vezes eu simplesmente peço as coisas — disse Piper —, e ele as busca. Não sou realmente religiosa, mas acho que alguém com alguma formação religiosa poderia realmente fazê-lo realizar alguns truques bacanas. Ele me fez uma casa e essas sapatilhas. O que ele poderia fazer para vocês? Coisas. Vamos começar com as ofertas, pai?
Laumonier ainda não havia se recuperado bem. A questão era que a proximidade da presença do demônio se tornava mais desagradável em vez de melhorar. O oposto de se acostumar a ela — essa era a sensação. Um ferimento que aumentava da dor contínua para a punhalada. Os sussurros eram difíceis de suportar, pois não eram realmente sussurros. Eram pensamentos que se misturavam irremediavelmente com seus próprios pensamentos, difícil de estabelecer uma prioridade. Mas Seondeok havia sobrevivido a um ano de loucura, e ela podia suportar isso. Não era impossível de dizer quais pensamentos eram do demônio: só que eram os mais sombrios, os mais às avessas, aqueles que desfariam o pensador.
Alguns dos compradores estavam indo embora, retirando-se sem dizer uma palavra, em direção aos seus carros antes que as coisas ficassem feias. Mais feias. As mais feias.
— Ei! — disse Piper. — Não me deixem. Demônio!
A vespa contorceu as antenas e as pessoas se contorceram com ela. Elas deram um rodopio, os olhos arregalados.
— Estão vendo? — disse Piper entre os dentes cerrados. — Ele é realmente bastante prático.
— Eu acho — disse Laumonier cuidadosamente, olhando para os compradores congelados, então para o rosto dos seus pares e em seguida para a sua filha — que esse talvez não seja o melhor método para exibir esse produto em particular.
O que ele queria dizer era que o demônio estava apavorando a todos, e era difícil se livrar da ideia de que todos ali poderiam morrer a qualquer momento, o que era ruim para os negócios presentes e futuros.
— Não use esse tom passivo-agressivo comigo — disse Piper. — Eu li um artigo sobre como você tem basicamente minado a minha personalidade durante a minha vida inteira, e isso é um exemplo perfeito.
— Isso é um exemplo perfeito de você passando por cima do seu conhecimento — disse Laumonier. — A sua ambição está constantemente atropelando a sua educação! Você não faz nem ideia de como transferir um demônio.
— Vou desejar a sua transferência, você não está entendendo? — disse Piper. — Ele tem que fazer o que eu digo.
Mas Seondeok não tinha certeza de que isso era a mesma coisa.
— Você pensa? — perguntou Laumonier. — Você o controla, ou ele a controla?
— Ah, por favor — disse Piper. — Demônio, descongele aquelas pessoas! Demônio, torne o dia ensolarado! Demônio, mude todas as minhas roupas para o branco! Demônio, faça o que eu disse, faça o que eu disse!
As pessoas descongelaram; o céu assumiu um tom bem claro e brilhante por apenas um segundo; as roupas dela branquearam; o demônio zumbiu para o ar. O sussurro na cabeça de Seondeok havia se tornado furioso.
Laumonier atirou em sua filha.
O disparo fez um ligeiro ruído oonff por causa do silenciador. Laumonier parecia chocado. Os dois ficaram calados, apenas olhando fixamente para o corpo de Piper, então para cima, para o demônio que havia sussurrado para eles.
E então todos fugiram. Se Laumonier atirara em sua filha, qualquer coisa podia acontecer.
O demônio havia pousado sobre o ferimento no pescoço de Piper, as pernas afundando no sangue, a cabeça baixada no buraco.
Ele estava mudando. Ela estava mudando. Tudo estava se desfazendo. Tudo era violência e perversão.
— Me liga — disse Seondeok para o Homem Cinzento —, e cai fora daqui.
O grito de Piper soou de trás para frente. Seondeok não havia percebido que ela ainda estava viva.
O sangue em torno do seu pescoço era negro.
Ambição ganância ódio violência desdém ambição ganância ódio violência desdém
Ela estava morta.
O demônio começou a se levantar.
Desfazedor, desfazedor, eu ressuscito, eu ressuscito, eu ressuscito

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Boa leitura, E SEM SPOILER!