4 de julho de 2018

Capítulo 6

Aquela não era a vida real de Blue.
Enquanto se recostava contra a parede do lado de fora da sala da orientadora vocacional, ela se perguntou quando começaria a pensar na escola como uma coisa importante de novo. Após um verão extraordinário, repleto de perseguições a reis e mães desaparecidas, era difícil de realmente, verdadeiramente se ver indo para a aula todos os dias. Que importância isso teria em dois anos? Ninguém ali se lembraria dela, e vice-versa. Ela apenas lembraria que aquele fora o outono em que sua mãe desaparecera.
Aquele fora o ano de Glendower.
Ela espiou o relógio através do corredor forrado de linóleo. Em uma hora ela caminharia de volta para casa, para sua vida real.
Você vai voltar amanhã, disse Blue para si mesma. E no dia seguinte.
Mas parecia mais um sonho do que Cabeswater.
Ela tocou a palma com os dedos da outra mão e pensou sobre aquela bandeira que Malory havia encontrado, pintada com três mulheres de mãos vermelhas e o seu rosto. Blue pensou sobre como os garotos estavam lá fora explorando sem ela.
Então se deu conta da presença de Noah. Em um primeiro momento, ela simplesmente sabia que ele estava ali e, quando ponderou como aquilo acontecia, percebeu que podia vê-lo curvado ao lado dela, em seu uniforme da Aglionby amarrotado.
— Aqui? — demandou Blue, embora na realidade estivesse satisfeita. — Aqui e não na caverna dos corvos da morte?
Noah deu de ombros, envergonhado e manchado. Sua proximidade esfriava Blue, à medida que ele tirava energia dela para permanecer visível. Ele piscou para duas garotas que passaram ao lado empurrando um carrinho. Elas não pareceram notá-lo, mas era difícil dizer se isso ocorria porque Noah era invisível para elas ou apenas porque era Noah.
— Acho que sinto falta dessa parte — ele disse. — O início. Este é o início, certo?
— Primeiro dia — respondeu Blue.
— Ah, sim. — Noah se recostou e inspirou. — Ah, espera, não, é o outro dia. Esqueci. Na realidade, eu odeio essa parte.
Blue não odiava, porque isso exigiria reconhecer que ela estava realmente acontecendo.
— O que você está fazendo? — perguntou Noah.
Ela passou a ele um folheto, embora se sentisse constrangida compartilhando-o, como se estivesse passando a Noah uma lista para o Papai Noel.
— Vou falar com a orientadora sobre isso.
Ele leu as palavras como se elas estivessem em uma língua estrangeira.
— Ex-pe-ri-men-te di-versos tipos de flo-res-tas na A-ma-zônia. A Es-cola de Eco-lo-gia pro-por-ciona estu-dos no ex-te-rior... Ah, você não pode ir a um lugar qualquer.
Ela sabia que provavelmente ele estava certo.
— Obrigada pelo voto de confiança.
— As pessoas vão te ver falando sozinha e vão pensar que você é esquisita.
Isso divertiu Noah, mas não a divertiu nem a preocupou. Ela passara dezoito anos como a filha da médium da cidade, e agora, no último ano do ensino médio, já tivera todas as conversas possíveis a respeito do fato. Blue fora evitada, acolhida, perseguida e adulada. Ela ia para o inferno, tinha uma linha direta para o nirvana espiritual. Sua mãe era uma picareta, sua mãe era uma bruxa. Blue se vestia como uma andarilha, Blue se vestia como uma empresária da moda. Ela era incrivelmente engraçada, ela era uma vaca sem amigos. Isso havia desaparecido em um ruído de fundo monótono. O desfecho triste e desalentador era que Blue Sargent era a coisa mais esquisita nos corredores da Escola Mountain View.
Bem, com a exceção de Noah.
— Você vê outras pessoas mortas? — Blue lhe perguntou.
Querendo dizer: Você vê a minha mãe?
Ele estremeceu.
Uma voz veio da porta da sala entreaberta:
— Blue? Querida, pode entrar.
Noah entrou furtivamente na sala, na frente dela. Embora parecesse sólido e vivo sob a forte luz do sol que entrava pela janela, a orientadora olhou bem através dele. Sua invisibilidade parecia absolutamente milagrosa enquanto ele se sentava no chão na frente da mesa de metal para ouvir prazerosamente a conversa.
Blue lhe lançou um olhar fulminante.
Havia dois tipos de pessoas: as que conseguiam ver Noah e as que não conseguiam. Blue geralmente só se dava bem com as primeiras.
A orientadora, srta. Shiftlet, era nova na escola, mas não em Henrietta. Blue a reconhecia da agência dos correios. Era uma daquelas mulheres mais velhas impecavelmente vestidas que gostavam das coisas feitas certas na primeira tentativa. Ela se sentava perfeitamente ereta em uma cadeira projetada para se deixar largar, fora do lugar, atrás de uma mesa barata, compartilhada e atulhada de quinquilharias pessoais que não combinavam entre si.
A srta. Shiftlet conferiu eficientemente o computador.
— Vejo que alguém acabou de fazer aniversário.
— Foi seu aniversário? — demandou Noah.
Blue lutou para se dirigir à orientadora em vez de a Noah.
— O quê? Ah, sim.
Fora duas semanas antes. Normalmente, Maura fazia brownies molhadinhos, mas não estava ali para o aniversário. Persephone fizera o seu melhor para recriá-los em sua glória malpassada, mas os brownies saíram acidentalmente belos e precisos, com açúcar de confeiteiro polvilhado em desenhos de padrões rendados sobre eles. Calla parecera preocupada que Blue ficaria brava, o que não fez sentido para a garota. Por que Blue ficaria brava com elas? Era Maura que ela queria esbofetear.
Ou abraçar.
— Não acredito que você não contou para a gente — sussurrou Noah. — A gente podia ter saído para tomar um sorvete.
Noah não podia comer, mas gostava da sorveteria na cidade por razões que escapavam ao entendimento de Blue.
A srta. Shiftlet inclinou a cabeça para ela, sem perder a postura perfeita.
— Vejo aqui que você falou com o sr. Torres antes da saída dele. Ele fez uma observação aqui a respeito de um incidente em...
— Isso já foi superado — interrompeu Blue, evitando os olhos de Noah e empurrando o folheto para o outro lado da mesa. — Faz de conta que nunca aconteceu. Eu só gostaria de saber se tem alguma maneira de chegar aqui a partir do que estou fazendo agora.
A srta. Shiftlet estava visivelmente ansiosa para abandonar o assunto de qualquer coisa que pudesse ser considerada um incidente. Ela consultou o folheto.
— Bem, isso parece um carnaval na floresta, sem brincadeira! Você tem interesse em vida selvagem? Vou buscar informações sobre essa escola.
Noah se inclinou para frente.
— Você devia ver os sapatos dela. Pontudos.
Blue o ignorou.
— Eu gostaria de fazer algo com sistemas de rios, ou florestas...
— Ah, essa escola é muito competitiva. — A srta. Shiftlet era eficiente demais para deixar Blue terminar a frase. — Aqui, vou lhe mostrar a média das notas dos alunos que são aceitos.
— Grossa — comentou Noah.
A srta. Shiftlet virou o monitor para que Blue pudesse ver um gráfico de certa maneira desmoralizante.
— Veja como são poucos os alunos que são aceitos. Isso significa que a ajuda financeira também seria muito disputada. Você pretende tentar uma bolsa?
Ela disse isso como uma declaração em vez de uma pergunta, mas não estava errada. Aquela era a Escola Mountain View. Ninguém pagava o valor total de uma escola particular. A maioria dos colegas de Blue considerava uma faculdade mais acessível ou do estado, isso quando considerava o grau universitário.
— Eu não sei se o sr. Torres passou pelos tipos de escola que você precisa. — A srta. Shiftlet soava como se suspeitasse que ele não o havia feito, e o julgava por isso. — O que você precisa são três tipos diferentes. Faculdades distantes, faculdades acessíveis e faculdades seguras. Esta aqui é um exemplo maravilhoso de faculdade distante. Mas agora chegou o momento de acrescentar mais algumas à sua lista. Algumas faculdades que você tenha certeza de que pode entrar e pagar por elas. Estamos falando apenas de bom senso.
A srta. Shiftlet escreveu distantes, acessíveis e seguras em um cartão. Sublinhando seguras, ela o deslizou para o outro lado da mesa. Blue não tinha certeza se deveria ficar com ele.
— Você já preencheu o formulário para a dispensa de taxa de inscrição?
— Quatro. Li na internet que posso conseguir quatro dispensas dessas taxas?
Essa demonstração de eficiência agradou visivelmente a srta. Shiftlet.
— Então talvez você já saiba que essa é a sua faculdade distante! Agora é chegado o momento de fazer um plano B sensato.
Blue estava tão cansada de concessões. Ela estava cansada do sensato.
Noah arranhou as unhas da mão sobre a perna da mesa. O som, confessamente desconfortável, fez a srta. Shiftlet franzir o cenho.
— Eu seria muito mais simpático se fosse orientador — ele disse.
— Se eu for admitida — disse Blue —, posso conseguir um empréstimo para cobrir tudo?
— Vou pegar a papelada para você — disse a srta. Shiftlet. — A FAFSA paga uma porcentagem, dependendo da sua necessidade. O montante varia.
Blue não podia esperar nenhuma ajuda do orçamento apertado na Rua Fox, 300. E pensou na conta bancária que andara enchendo lentamente.
— Quanto faltaria? Você teria um palpite?
A srta. Shiftlet suspirou. Dar palpites claramente estava fora do seu âmbito de interesses. Ela virou o monitor de novo para revelar a taxa de matrícula da faculdade.
— Se você for morar na faculdade, provavelmente vai desembolsar dez mil dólares por ano. Seus pais podem fazer um empréstimo, é claro. Eu tenho os papéis para isso, também, se você quiser.
Blue se recostou enquanto seu coração deixava a cavidade do peito. É claro que era impossível. Fora impossível antes e continuaria sendo impossível para sempre. A questão é que o fato de passar tanto tempo com Gansey e os outros a fez pensar que o impossível poderia ser mais possível do que ela pensara antes.
Maura estava sempre lhe dizendo: Veja todo o potencial que você tem dentro de si!
Potencial para outras pessoas, no entanto. Não para Blue.
Não valia a pena derramar lágrimas por algo que ela sabia fazia tanto tempo. Era só que isso, além de todo o resto...
Ela engoliu. Não vou chorar na frente dessa mulher.
Subitamente, Noah saiu com dificuldade de debaixo da mesa. Ele se pôs de pé com um salto. Havia algo de errado a respeito da ação que dava a entender que ela era rápida demais, ou vertical demais, ou violenta demais para um garoto vivo realizar. E ele continuou subindo, mesmo após já ter ficado de pé. Quando Noah se estendeu até o teto, o cartão que dizia distantes, acessíveis e seguras levantou voo.
— Hã? — disse a srta. Shiftlet. Sua voz não soava nem surpresa, ainda.
O calor foi sugado da pele de Blue. A água no copo da srta. Shiftlet estalou.
O porta-cartões de visita foi virado. Cartões se espalharam sobre a mesa. Uma caixinha de som do computador caiu de frente. Uma série de papéis se lançou em um redemoinho para o alto. A foto de família de alguém disparou para cima.
Blue se colocou de pé num salto. Ela não tinha nenhum plano imediato a não ser parar Noah, mas, quando se lançou para frente com as mãos estendidas, percebeu que ele não estava ali.
Havia apenas uma explosão arremessada de tecidos, envelopes e cartões de visita, um tornado frenético que perdia propulsão.
O material desabou de volta na mesa.
Blue e a srta. Shiftlet se encararam. O papel farfalhou enquanto pousava completamente. A caixa de som derrubada do computador zunia; um dos cabos havia se soltado.
A temperatura estava lentamente subindo na sala novamente.
— O que acabou de acontecer? — perguntou a srta. Shiftlet.
O pulso de Blue galopou.
Ela respondeu com sinceridade:
— Não faço ideia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!