30 de julho de 2018

Capítulo 5

AURANOS

— Os pássaros estão me observando — Cleo disse enquanto andava de um lado para o outro no pátio do palácio.
— É mesmo? — Emilia conteve um sorriso enquanto acrescentava outra pincelada de tinta em sua tela. Era uma imagem do palácio de Auranos, conhecido por sua fachada de ouro assentado na pedra polida, que o fazia parecer uma joia brilhante sobre o verde viçoso ao redor. — Minha irmãzinha está paranoica ou está começando a acreditar em lendas antigas?
— Talvez as duas coisas. — As saias de Cleo farfalharam quando ela mudou de direção e apontou para o canto da área gramada. — Mas juro que aquela pomba branca no pessegueiro analisou todos os movimentos que fiz desde que cheguei aqui.
Emilia riu e trocou um olhar divertido com Mira, que estava sentada ao lado, trabalhando em seu bordado.
— Dizem que os vigilantes veem pelos olhos de falcões, não de qualquer pássaro aleatório.
Um esquilo de orelha comprida subiu correndo pelo tronco. A ave finalmente voou.
— Se está dizendo… Você é a especialista em religião e mitos em nossa família.
— Só porque você se recusa a estudar — Mira observou.
Cleo mostrou a língua para a amiga.
— Tenho coisas melhores para fazer com o meu tempo do que ler.
Na última semana, as “coisas melhores” se resumiram a muito aborrecimento e preocupação quando estava acordada e pesadelos enquanto dormia. Mesmo se quisesse ler, seus olhos estavam vermelhos e doloridos.
Emilia largou o pincel para dar total atenção a Cleo.
— Devíamos entrar. Lá dentro você ficará a salvo dos olhinhos das aves espiãs.
— Pode zombar de mim o quanto quiser, minha irmã, mas não posso controlar o que sinto.
— De fato. Talvez a culpa em relação ao que aconteceu em Paelsia esteja causando isso.
A náusea tomou conta dela. Cleo virou o rosto para o sol, tão diferente da frieza de Paelsia que permeara seus ossos. Ela havia tremido durante toda a viagem para casa, sem conseguir se aquecer. O frio a havia acompanhado por vários dias, mesmo depois de voltar ao calor de sua terra.
— Isso é ridículo — ela mentiu. — Eu até já esqueci.
— Você tem ideia sobre o que o nosso pai falará na reunião do conselho hoje?
— Sobre o quê?
— Bem… sobre você. E Aron. E tudo o que aconteceu naquele dia.
Cleo sentiu o sangue se esvair do rosto.
— O que vão dizer?
— Nada que interesse.
— Se não interessasse, você não teria mencionado. Teria?
Emilia balançou as pernas e levantou-se da cadeira. Ela se apoiou por um instante e Mira ergueu os olhos, preocupada, e largou a costura para ficar a seu lado. Emilia andava tendo problemas com dores de cabeça e tontura.
— Então me diga o que sabe — Cleo insistiu, observando Emilia com preocupação.
— Aparentemente, a morte do filho do vendedor de vinho causou alguns problemas políticos para nosso pai. Tornou-se um escândalo, na verdade. Todos estão falando sobre isso e jogando a culpa em várias pessoas. Ele está fazendo o possível para amenizar qualquer mal-estar que isso possa ter causado. Mesmo que Auranos importe o vinho paelsiano em grande quantidade, a exportação foi quase totalmente interrompida até o fim da crise. Muitos paelsianos recusam-se a negociar conosco. Eles estão com raiva de nós — e de nosso pai, por ter deixado isso acontecer. E, é claro, estão exagerando tudo.
— Foi tão terrível — Mira exclamou. — Queria poder esquecer o que aconteceu.
As duas queriam. Cleo apertou as mãos, vendo seu pavor refletido no rosto de Mira.
— E quanto tempo vai demorar até as coisas voltarem ao normal?
Cleo desprezava política, em especial por não entender nada a respeito. Mas ela não precisava entender; afinal, Emilia era a herdeira do trono do pai. Ela seria a próxima rainha, e não Cleo.
Graças à deusa. Cleo não suportaria de jeito nenhum as infinitas reuniões do conselho, nem ser cordial e educada com aqueles que não merecessem. Emilia havia sido criada desde o nascimento para ser a princesa perfeita, capaz de lidar com qualquer questão que surgisse. Cleo… bem, ela gostava de tomar banho de sol, de sair com seu cavalo para longas cavalgadas no campo e de passar tempo com os amigos.
Ela nunca havia sido associada a um escândalo como aquele. Além do segredo mantido por Aron, não havia nada escandaloso que pudesse ser falado sobre a princesa Cleiona. Até agora — ela se deu conta, ansiosa.
— Preciso falar com nosso pai — afirmou Cleo — para descobrir o que está acontecendo.
Sem dizer mais uma palavra, ela deixou Emilia e Mira no pátio e entrou no castelo, apressando-se pelos corredores iluminados até chegar à sala do conselho. Passando pela porta arqueada, a luz do sol brilhava através das várias janelas que tinham as venezianas de madeira abertas. Uma grande lareira no centro também iluminava a grande sala. Ela teria que esperar até que a reunião acabasse e seu pai estivesse sozinho. Ficou andando de um lado para o outro, cheia de ansiedade. Paciência era um dom que Cleo nunca tivera.
Assim que todos saíram, ela entrou correndo e encontrou o pai sentado à cabeceira de uma longa mesa de madeira polida, grande o suficiente para acomodar uma centena de homens. O bisavô de Cleo havia mandado fazê-la com a madeira das oliveiras que cresciam em frente aos muros do palácio. Havia uma grande e colorida tapeçaria pendurada na parede oposta, detalhando a história de Auranos. Quando criança, Cleo passava muitas horas olhando para ela com admiração, impressionada com o belo trabalho artístico. Na outra parede estava o brasão da família Bellos e um dos muitos mosaicos brilhantes que retratavam a deusa Cleiona, a quem Cleo devia seu nome.
— O que está acontecendo? — Cleo perguntou.
Seu pai levantou os olhos de uma pilha de pergaminhos e documentos. Ele estava vestido casualmente, com roupas de couro e uma túnica muito bem-feita. Sua barba castanha e bem tratada tinha fios grisalhos. Algumas pessoas diziam que os olhos de Cleo e de seu pai eram do mesmo verde-azulado intenso, enquanto sua irmã, Emilia, havia herdado os olhos castanhos da mãe. Tanto Emilia quanto Cleo, contudo, nasceram com os cabelos claros da mãe, incomuns em Auranos, onde as pessoas costumavam ter a pele mais escura devido ao sol. A rainha Elena era filha de um rico proprietário de terras nas colinas a leste de Auranos, até o rei Corvin conhecê-la e se apaixonar por ela em sua viagem de coroação, há mais de duas décadas. As tradições familiares diziam que os ancestrais de Elena haviam emigrado de terras além do Mar Prateado.
— Suas orelhas estavam queimando, filha? — ele perguntou. — Ou Emilia falou sobre os últimos acontecimentos?
— Que diferença isso faz? Diz respeito a mim, então eu já deveria estar sabendo de tudo. Conte-me!
Ele ficou olhando nos olhos dela, impassível diante de suas exigências. A natureza exaltada de sua filha mais nova não era novidade, e ele a aturava como sempre fizera. E por que não? Cleo nunca havia causado mais estardalhaço do que algumas palavras fora de hora. Ela resmungava e vociferava, mas logo se esquecia daquilo que a incomodava e voltava sua atenção a outra coisa. O rei a havia comparado a um beija-flor voando de flor em flor, o que ela não tomou como um elogio.
— Sua viagem a Paelsia na semana passada virou questão de conflito, Cleo. Um conflito que receio estar aumentando.
Medo e culpa recaíram imediatamente sobre ela. Até o momento, ela nem havia se dado conta de que ele sabia. Exceto por desabafar com Emilia, ela não havia dito uma palavra sobre o assunto desde que pisara no navio no porto de Paelsia. Ela esperava tirar o assassinato do filho do vendedor de vinho da cabeça, mas não estava dando muito certo. Cleo revivia aquele momento toda noite quando fechava os olhos e pegava no sono. Além disso, o olhar sanguinário do irmão do rapaz — Jonas — ao ameaçar sua vida a assombrava.
— Peço desculpas. — As palavras ficaram presas em sua garganta. — Eu não queria que nada disso tivesse acontecido.
— Acredito em você. Mas parece que os problemas a seguem aonde quer que vá.
— O senhor vai me castigar?
— Não exatamente. No entanto, essas dificuldades recentes me fizeram decidir que você ficará aqui no palácio de hoje em diante. Não permitirei que pegue meu navio para suas explorações até segunda ordem.
Apesar do constrangimento em relação ao que acontecera em Paelsia, a simples ideia de ficar de castigo a deixou irritada.
— Não pode esperar que eu nunca saia, como se fosse uma prisioneira.
— O que aconteceu não é aceitável, Cleo.
Sua garganta ficou apertada.
— Não acha que me sinto péssima pelo que houve?
— Certamente sim. Mas isso não muda nada.
— Aquilo não devia ter acontecido.
— Mas aconteceu. Você nem deveria estar lá. Paelsia não é lugar para uma princesa. É muito perigoso.
— Mas Aron…
— Aron. — Os olhos de seu pai piscaram. — Foi ele quem matou o camponês, não foi?
Até mesmo Cleo havia se surpreendido com o comportamento violento de Aron no mercado. Mesmo não confiando no rapaz, ela ficou consternada por ele não ter demonstrado um pingo de culpa pelo que fizera.
— Foi ele — ela confirmou.
O rei ficou em silêncio por um longo instante enquanto Cleo prendia a respiração, temerosa do que ele diria em seguida.
— Graças à deusa ele estava lá para protegê-la — ele disse. — Nunca confiei nos paelsianos e estimulei a dissolução dos negócios entre nossas nações. Eles são um povo selvagem e imprevisível, partem rápido para a violência. Sempre admirei lorde Aron e sua família, e os acontecimentos recentes apenas confirmaram essa impressão. Estou muito orgulhoso dele, e com certeza o pai dele também está.
Cleo precisou morder a língua para não dizer nada que pudesse contrariar a opinião de seu pai.
— Ainda assim — o rei continuou —, não me agrada que essa lastimável contenda tenha acontecido no meio de uma multidão. Quando você sair deste palácio, quando sair deste reino, sempre deve se lembrar de que é uma representante de Auranos. Fui informado de que está efervescendo um dissabor em Paelsia. Eles não estão contentes conosco no momento, ainda menos do que de costume. Já têm inveja de nossos recursos, pois deixaram os seus se esvair até quase acabarem. E, é claro, viram a morte de um dos seus – não importa como aconteceu – como uma afirmação da superioridade auraniana.
Cleo engoliu em seco.
— Uma… uma afirmação?
Ele acenou com desdém.
— Vai passar. Auranianos devem tomar muito cuidado ao viajar por Paelsia. Tanta pobreza e tanto desespero levam inevitavelmente a roubos, assaltos, ataques… — Ele contraiu o rosto. — É um lugar perigoso. E você nunca mais voltará lá, haja o que houver.
— Não que eu queira, acredite, mas… nunca?
— Nunca.
Superprotetor, como sempre. Cleo conteve-se para não discutir. Por mais que odiasse a ideia de Aron ganhar fama de herói por ter matado Tomas Agallon, ela sabia quando parar de falar e evitar se meter em mais problemas.
— Entendo — acabou dizendo.
Ele fez um sinal positivo com a cabeça e mexeu em uns papéis que estavam na sua frente. As palavras que se seguiram deixaram Cleo pasma.
— Decidi anunciar seu noivado oficial com lorde Aron logo mais. Ficará claro que ele matou o rapaz para proteger você, sua futura noiva.
Ela o encarou aterrorizada.
— O quê?
— Algum problema? — Havia algo no olhar do rei que contradizia seu comportamento casual daquela tarde. Algo contido nas entrelinhas. As palavras de protesto de Cleo morreram em seus lábios. Não era possível que seu pai tivesse descoberto seu segredo... ou era?
Ela forçou um sorriso.
— É claro, pai. Como quiser. — Ela encontraria um modo de mudar a cabeça dele quando as coisas se acalmassem, e quando tivesse certeza de que ele não sabia nada sobre aquela noite. Se algum dia ele descobrisse o que Cleo havia feito, ela sabia que não suportaria.
Ele acenou.
— Boa menina.
Ela se virou para a passagem em arco, esperando sair de uma vez.
— Mais uma coisa, Cleo.
Ela estacou e se virou lentamente.
— Pois não?
— Designarei um guarda pessoal em tempo integral para você. Um cuja função principal seja manter minha filha mais nova longe de futuros problemas.
Ela ficou ainda mais horrorizada.
— Mas não há problemas aqui em Auranos. Se eu prometer não voltar a Paelsia, que mal há?
— Tranquilidade para o seu pai, minha querida. E, não, isso não é negociável. Vou indicar Theon Ranus para a função. Estou esperando que ele venha até aqui para que eu possa informá-lo do novo cargo.
Theon. O guarda que a acompanhara a Paelsia. Por mais bonito que o tivesse achado, isso perdia importância frente à ideia de que ele ficaria a seu lado todas as horas do dia, aonde quer que ela fosse. Aquilo lhe tiraria a privacidade e o tempo para si mesma.
Ela olhou para o pai e viu uma pequena ponta de satisfação em seus olhos. Aquilo, ela percebera, era parte de sua punição por ter arrastado o nome de Auranos na lama e gerado tensão na relação entre as terras. Ela se obrigou a permanecer calma e curvou um pouco a cabeça.
— Como quiser, pai.
— Muito bem. Sabia que podia ser um pouco mais cordata, como sua irmã, se realmente tentasse.
Cleo tinha certeza de que Emilia havia aprendido, no decorrer dos anos, como morder a língua quando tinha que lidar com o pai a fim de se tornar a princesa perfeita. Cleo não era tão perfeita. Nem pretendia ser.
Estava claro para ela o que tinha que fazer. Assim que Theon se apresentasse para a nova função, ela o liberaria do trabalho. Ele poderia fazer o que quisesse e ela faria o mesmo. O rei, que normalmente só a via durante as refeições, nunca saberia. Simples.
Seu futuro casamento com Aron era um problema maior. Depois do que havia acontecido em Paelsia, e do comportamento fútil e egoísta durante a viagem de volta, quando ele parecia apenas se preocupar com o fato de ter perdido sua valiosa adaga na garganta do filho do vendedor de vinho — e ainda ter ficado sem a bebida —, Cleo havia decidido que de jeito algum gostaria de se unir a ele outra vez, muito menos se casar com ele.
Não era negociável, de fato. Seu pai não podia obrigá-la a fazer aquilo.
Em que estava pensando? É claro que ele podia obrigá-la a se casar com alguém que não quisesse. Ele era o rei! Ninguém dizia não ao rei, nem mesmo uma princesa.
Ela saiu correndo da sala do conselho, atravessou o pátio, subiu um lance de escadas e percorreu o corredor até uma área aberta antes de soltar um pungente grito de frustração.
— Ai! Você não tem nenhuma consideração por meus tímpanos, tem, princesa?
Cleo se virou em choque, com o coração acelerado — ela pensou que estivesse sozinha.
Soltou um suspiro de alívio ao ver quem era. E logo se desfez em lágrimas.
Nicolo Cassian encostou-se na parede de mármore liso, com os braços cruzados. A expressão de curiosidade em seu rosto fino desapareceu e suas sobrancelhas se uniram.
— Ah, não. Não chore. Não sei lidar com lágrimas.
— Meu… meu pai é cruel e injusto — Ela soluçou, depois caiu nos braços do rapaz. Ele deu tapinhas leves em suas costas.
— O mais cruel de todos. Nunca existiu um pai mais cruel do que o rei Corvin. Se ele não fosse rei, e se eu não fosse seu escudeiro e tivesse que seguir todas as suas ordens, eu o derrubaria, só para você.
Nic era o irmão mais velho de Mira. Eles só tinham um ano de diferença — Nic tinha dezessete. Enquanto os cabelos de Mira eram escuros com mechas ruivas queimadas de sol e sua figura era calorosamente voluptuosa, os cabelos de Nic eram incomuns para Auranos: ruivo puro, da cor de uma cenoura, arrepiados em todas as direções. Ele tinha uma cara de bobo, angulosa, com o nariz levemente torto para a esquerda. E sua pele era coberta de sardas, cada vez mais intensas pelo tempo que passava no sol. Cleo podia envolver a cintura dele facilmente com os braços enquanto enterrava a cabeça em seu peito e molhava sua túnica de lã com lágrimas.
Nic e Mira eram filhos de Sir Rogerus Cassian, amigo íntimo do rei, falecido havia sete anos, junto com a esposa, em um acidente de barco. O rei havia dado posições oficiais aos órfãos, permitindo que vivessem no castelo e fizessem as refeições ao lado dele, de Cleo e de Emilia, e que fossem educados pelos tutores do palácio. Mira era dama de companhia de Emilia e Nic havia se provado um escudeiro muito útil ao rei — posto invejado por muitos.
Se Mira era a melhor amiga de Cleo, Nic era seu melhor amigo. Ela se sentia mais confortável na companhia dele do que de qualquer outra pessoa, exceto de sua irmã. E essa não era a primeira vez, e ela nem achava que seria a última, que chorava nos ombros dele.
— Meu reino por um lenço — ele murmurou. — Está tudo bem, Cleo. O que aconteceu?
— Meu pai pretende anunciar meu noivado com Aron em breve. — Ela ficou esbaforida. — Oficialmente!
Ele fez cara feia.
— Agora entendi por que está tão chateada. Um noivado com um belo lorde. Como isso deve ser terrível para você.
Ela bateu no ombro do amigo e tentou não rir em meio às lágrimas.
— Pare com isso. Você sabe que eu não quero me casar com ele.
— Eu sei. Mas noivado não é a mesma coisa que casamento.
— Por enquanto.
Nic deu de ombros.
— Acho que tenho uma solução simples para você, já que está tão chateada com isso.
Cleo olhou para ele, ansiosa.
— O que é?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Diga a seu pai que está perdidamente apaixonada por mim e que se recusa a casar com outro. E se ele causar problema, ameace fugir comigo.
O plano arrancou um sorriso dela, que o abraçou outra vez.
— Ah, Nic. Eu devia saber que você conseguiria me animar.
— Isso é um sim?
Cleo olhou para o rosto familiar de Nic com um sorriso.
— Deixe de ser bobo. Como se você fosse me querer. Somos muito amigos para considerar algo mais.
Ele levantou os ombros ossudos.
— Não pode me culpar por tentar.
Cleo soltou um suspiro trêmulo.
— Além disso, meu pai ficaria furioso com a mera insinuação disso. Você não é bem um membro da realeza.
— Estou longe de ser, na verdade. — Ele deu um sorriso torto. — E com muito orgulho. Vocês da realeza são pessoas muito enfadonhas. Mira, no entanto, sempre quis ter nascido nobre.
— Sua irmã dá trabalho.
— É melhor garantirmos que ela se case com um homem que goste muito de trabalhar, para saber lidar com ela.
— E essa pessoa existe?
— Sinceramente, eu duvido.
Cleo ouviu passos pesados sobre o piso de mármore vindo na direção deles.
— Aí está, vossa alteza. — Era Theon, vestindo seu uniforme azul-escuro e com a expressão austera. — O rei me mandou procurá-la.
Ela soltou um longo e trêmulo suspiro. “Lá vamos nós”, pensou.
Nic alternou o olhar entre os dois.
— Algum problema?
— Este é Theon Ranus — ela apresentou. Havia uma tensão no rosto de Theon, mas nada que se comparasse à arrogância que Cleo havia visto naquele dia em Paelsia. — Theon, você não parece muito feliz. Meu pai lhe pediu que fizesse algo com que você não está de acordo?
Os olhos escuros do guarda continuaram fixos à frente.
— Eu obedeço a qualquer ordem do rei.
— Entendo. E o que ele quis de você desta vez? — ela indagou intencionalmente.
Theon retesou o maxilar.
— Ele me designou como seu guarda pessoal.
— Hum. E o que você acha disso?
— Eu fiquei… honrado. — Ele cerrou os dentes.
— Guarda pessoal? — Nic ergueu as sobrancelhas. — Por que você precisaria de um guarda pessoal?
— Meu pai acha que eu ficarei longe de problemas se tiver um guarda em tempo integral para me proteger. Ele quer impedir que eu me divirta.
— O irmão do camponês fez uma ameaça de morte — apontou Theon.
O estômago de Cleo se contraiu com a lembrança, mas ela abanou a mão.
— Não estou com medo dele agora que voltei para cá. Ele nunca passaria pelos muros do palácio.
— Bem, isso é cômico — Nic disse. — Um guarda pessoal. Mesmo dentro do palácio.
— É ridículo e desnecessário — Cleo exclamou. — Além disso, Theon me disse que seu objetivo de carreira é se tornar guarda pessoal de meu pai. E em vez disso foi designado para cuidar de mim. Deve ser muito decepcionante para alguém com tal ambição, não acha?
— Profundamente decepcionante — Nic confirmou, olhando para Theon.
Theon ficou tenso, mas não disse nada.
Cleo continuou.
— Ele terá que tomar conta de mim quando eu estiver relaxando no sol, quando estiver ajustando um vestido, quando estiver na aula de artes, quando uma criada estiver trançando meus cabelos… Tenho certeza de que achará tudo isso fascinante.
— Se ele prestar atenção, talvez possa ajudar a trançar — Nic acrescentou, divertido.
Parecia que cada palavra perfurava Theon como uma facada nas costas. Cleo havia imaginado que ele não ficaria feliz com aquele trabalho; ela estava certa.
— Parece divertido para você, Theon? — ela provocou. — Ter que me acompanhar em meus passeios e minhas pequenas aventuras… pelo resto da vida?
Theon olhou nos olhos da garota e ela parou imediatamente. Cleo esperava aversão, mas havia algo mais ali. Algo mais obscuro, e ainda assim um tanto intrigante.
— Se é o desejo do rei, eu obedeço — ele disse, sem se abalar.
— Você vai me obedecer?
— Dentro de limites razoáveis.
— O que isso significa? — Nic perguntou.
Seus olhos escuros se voltaram para o garoto ruivo.
— Significa que se a princesa se meter em uma situação perigosa, eu vou interferir sem pensar duas vezes. Não presenciarei outro incidente como o da semana passada. Aquele assassinato podia ter sido evitado se tivesse me dado a chance de impedir.
A culpa havia ocupado um lugar permanente dentro de Cleo, escondendo-se no fundo de seu coração. Ela parou com as provocações.
— Aron nunca deveria ter matado aquele garoto.
Theon olhou severamente para ela.
— Bom saber que concordamos em alguma coisa.
Cleo não desviou os olhos daquele olhar intenso, desejando que não tivesse achado aquele guarda, apesar de inconveniente, tão fascinante. Mas os olhos dele, aquele olhar instigante… Ela gostava muito daquilo.
Nenhum guarda jamais havia olhado para ela com tanta ousadia. Na verdade, ninguém nunca havia olhado para ela daquele jeito. Irado, brutal e extremamente hostil… mas havia algo mais ali. Como se Cleo fosse a única garota do mundo inteiro e agora ele possuísse uma parte dela. Ele a fazia perder o fôlego e ficar com o peito apertado. Theon tinha um poder avassalador sobre todos os seus sentidos.
— Ai, ai. — A voz de Nic atravessou os pensamentos dela. — Querem que eu deixe os dois sozinhos para continuarem a se encarar o dia todo?
O calor subiu às faces de Cleo e ela desviou os olhos de Theon.
— Não seja ridículo.
Nic riu, mas não foi um riso divertido como o de antes. Foi muito mais seco e menos agradável. Ele se aproximou e sussurrou de forma que Theon não pudesse ouvir:
— Só tenha uma coisa em mente quando embarcar nesse esquema com seu novo guarda…
Cleo olhou para o amigo.
— O que é?
Nic não desviou o olhar.
— Ele também não faz parte da realeza.

2 comentários:

  1. Eu já amo o Nic, meu novo crush (porque assim né, os da vida real não tá dando mais)


    Mais aí gente, que Amorzinho, queria eu ter um melhor amigo assim. Sinceramente eu acho que ele e a cleo deveriam ficar juntos ( mais aí lembro que tem o theon, tudo bem amar os dois não e mesmo, a tia kat amou.kkkkkk)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!