15 de julho de 2018

Capítulo 5

Blue Sargent havia sido expulsa da escola.
Apenas por um dia. Vinte e quatro horas deveriam curá-la de sua disposição de destruir a propriedade alheia e, francamente, Blue, uma atitude surpreendentemente equivocada. Blue não conseguia se sentir realmente culpada como ela sabia que deveria se sentir; nada a respeito da escola parecia particularmente real em comparação ao resto da sua vida. Enquanto ela esperava no corredor do lado de fora dos gabinetes da diretoria, ouviu sua mãe explicando como elas haviam tido uma morte recente na família e que o pai biológico de Blue havia acabado de retornar à cidade e tudo era muito traumático. Provavelmente, acrescentou Maura — cheirando a artemísia, o que significava que ela estivera fazendo um ritual com Jimi enquanto Blue estava na escola —, sua filha estava externando isso sem nem perceber.
Ah, Blue percebia, sim.
Agora ela estava sentada debaixo da faia no quintal da Rua Fox, 300, sentindo-se esquisita e mal-humorada. Uma parte muito distante dela percebia que ela estava encrencada — encrencada de uma maneira mais séria do que estivera há muito tempo. Mas uma parte próxima dela estava aliviada que por um dia inteiro ela não precisaria fingir que se preocupava com as aulas. Ela arremessou uma noz de faia comida por insetos, que ricocheteou na cerca com o ruído de um tiro.
— Tudo bem, preste atenção.
A voz veio primeiro, então o arrepio na pele. Um momento mais tarde, Noah Czerny se juntou a ela, vestido como sempre, em seu blusão azul-marinho da Aglionby. Juntou-se talvez fosse o verbo errado. Manifestou-se era melhor. A expressão truque de luz era ainda mais forte. Truque da mente era melhor. Porque era raro que Blue notasse o momento em que Noah realmente aparecia, pois a coisa toda acontecia muito rápido e de forma abrupta. De alguma maneira, o cérebro de Blue reescrevia o minuto anterior a isso para fazer de conta que Noah estivera encurvado ao lado dela o tempo inteiro.
Era um pouco horripilante, às vezes, ter um amigo morto.
Noah continuou amigavelmente:
— Então você consegue um trailer. Não um trailer do Adam. Um trailer comercial.
— O quê? Eu?
— Você. Você. Como você chama quando se refere a todos, mas você diz você? Um lance de gramática.
— Não sei. O Gansey saberia. O que você quer dizer com trailer do Adam?
— Você interno? — ele conjecturou, como se Blue não tivesse dito nada. — Como quiser. Quer dizer, tipo, um você geral. Então você apresenta cinco, tipo, super-receitas de frango. Tipo, churrascaria. Aquelas que cozinham para sempre, certo? — Ele estalou os dedos. — Tipo, hum, cozinha mexicana. Molho de curry com mel. Churrasco. Hum. Teriyaki? E... Algo com alho. A outra coisa que você precisa, tipo assim, são bebidas. Bebidas bem viciantes. As pessoas têm que pensar, estou com desejo daquele frango com molho de curry e mel e daquele, hum, chá de limão, sim, ao máximo, sim, frango-frango-frango!
Noah estava mais animado do que Blue jamais o vira. Essa versão tagarela alegre dele era certamente mais próxima de sua versão viva, o aluno skatista da Aglionby com o Mustang vermelho brilhante. Ela se surpreendeu ao se dar conta de que provavelmente jamais teria se tornado amiga desse Noah. Ele não era terrível. Apenas jovem de uma maneira que ela jamais havia sido. Era um pensamento desconfortável, oblíquo.
— ... E eu a chamaria... você está pronta?... PEDE UM FRANGO. Entendeu? O que você quer para hoje à noite? Ah, mãe, por favor, PEDE UM FRANGO. — Noah deu um tapa no rabo de cavalo de Blue que acabou acertando o topo da cabeça dela. — Você poderia usar um chapeuzinho de papel! E ser o rosto do PEDE UM FRANGO.
De uma hora para outra, Blue perdeu a paciência e explodiu:
— Tudo bem, Noah, chega, por...
Uma risada cacarejada vinda de cima deles a silenciou. Algumas folhas secas caíram lentamente.
Blue e Noah inclinaram a cabeça para trás.
Gwenllian, a filha de Glendower, se espreguiçava nos galhos robustos acima deles, o lânguido corpo recostado no tronco, as pernas presas em um galho liso. Como sempre, ela era uma visão aterradora e maravilhosa. A cascata volumosa de cabelo escuro estava cheia de canetas, chaves e papéis dobrados. Ela usava pelo menos três vestidos, e todos haviam conseguido subir até a cintura, seja escalando ou intencionalmente. Noah a encarou.
— Olá, coisa morta — cantarolou Gwenllian, tirando um cigarro de um lado do cabelo e um isqueiro do outro.
— Há quanto tempo você está aí? Você está fumando? — demandou Blue. — Não mate minha árvore.
Gwenllian soltou uma baforada com cheiro de cravo-da-índia.
— Você fala como o Artemus.
— Não sei.
Blue tentou não soar ressentida, mas estava. Ela não esperava que Artemus preenchesse um buraco aberto em seu coração, mas também não esperava que ele simplesmente se trancasse em uma despensa.
Soprando um belo anel de fumaça através das folhas secas, Gwenllian empurrou o tronco e se deixou deslizar para um galho mais baixo.
— Seu pequeno inquilino de uma moita de pai não é algo muito fácil de compreender, oh, lírio azul, azul lírio. Mas então, aquela coisa ali não é fácil de compreender também, não é?
— Que coisa... o Noah? O Noah não é uma coisa!
— Nós vimos um pássaro em um arbusto, um pássaro em um arbusto, um pássaro em um arbusto — cantou Gwenllian. Em seguida escorregou para baixo, e então mais para baixo novamente, o suficiente para balançar suas botas ao nível dos olhos de Blue. — E trinta dos seus amigos! Você estava se sentindo bem vivo, ah, coisinha morta, entre nós duas, não é? Azul lírio com seu poder de espelho, e gwen lírio com seu poder de espelho, e você no meio, se lembrando da vida?
Incomodava perceber que Gwenllian provavelmente estivesse certa: esse Noah efervescente, lépido, seguramente só teria sido possível por causa da concentração de suas baterias mediúnicas.
Também incomodava ver que Gwenllian tinha acabado completamente com o bom humor de Noah.
Ele havia enfiado a cabeça nos ombros de maneira que somente a onda de sua franja era visível.
Blue lançou um olhar dardejante para ela.
— Você é horrível.
— Obrigada.
Gwenllian pulou no chão com um salto amplo, como um voo, e apagou o cigarro no tronco da faia, deixando uma marca negra que, para Blue, era o reflexo de sua alma.
Ela fez uma carranca para Gwenllian. Blue era muito baixa e Gwenllian, muito alta, mas Blue queria muito fazer uma carranca para Gwenllian e Gwenllian parecia querer isso. De fato, elas conseguiram que isso funcionasse.
— O que quer que eu diga? Que ele está morto? Qual o sentido de esfregar isso na cara dele?
Gwenllian se inclinou tanto para a frente que o nariz das duas roçou um no outro. As palavras que saíram de sua boca eram um sussurro com cheiro de cravo-da-índia.
— Você já solucionou um enigma que não lhe pediram?
Calla achava que Gwenllian havia começado a cantar e a formular enigmas por ter sido enterrada viva por seiscentos anos. Mas olhando para seus olhos alegremente brilhantes agora, lembrando como ela havia sido enterrada por tentar esfaquear até a morte o poeta de Owen Glendower, Blue também achou que havia uma chance muito crível de que Gwenllian sempre tivesse sido desse jeito.
— Não há como solucionar o Noah — respondeu Blue —, exceto fazendo ele... partir dessa para melhor. E ele não quer isso!
Gwenllian soltou um cacarejo.
— Querer precisar são coisas diferentes, meu gatinho. — E cutucou a nuca de Noah com uma bota erguida. — Mostre a ela o que você andou escondendo, coisa morta.
— Você não precisa fazer nada do que ela diz, Noah.
Blue falou isso tão rapidamente que no mesmo instante percebeu que acreditava em Gwenllian e temia a verdade dele.
Todos sabiam que a existência de Noah era frágil, sujeita aos caprichos da linha ley e à localização de seus restos mortais. E Blue e Gansey em particular tinham visto em primeira mão como Noah parecia ter cada dia mais dificuldade em lidar com as esquisitices de estar morto. O que Blue já sabia de Noah era assustador. Se havia algo pior, ela não tinha certeza de que queria saber.
— Eu mereço isso. Só... sinto muito, Blue.
Os nervos de Blue começaram a tropear dentro dela.
— Não tem nada do que se desculpar.
— Sim — ele disse com uma voz fina. — Tem, sim.
— Não... só... tudo bem.
Gwenllian deu um passo para trás para deixar Noah se levantar. Ele o fez, lenta e rigidamente, voltando as costas para Blue. Em seguida endireitou os ombros costumeiramente caídos como se estivesse se preparando para um confronto. Blue sentiu o momento que Noah parou de sugar energia dela. Era como se ela tivesse deixado cair uma mochila no chão.
Então ele se virou para encará-la.
Todos os verões, um parque de diversões itinerante vinha a Henrietta. Eles ficavam nos pavilhões de venda de gado atrás do Walmart, e por algumas noites você tinha bolos de funil, luzes piscando no escuro e relva aplanada. Blue sempre quis gostar deles — ela fora algumas vezes com o pessoal da escola (ela sempre quis gostar deles, também) —, mas, no fim, ela simplesmente sentia que ainda esperava pelo acontecimento real acontecer. Acreditando precisar de adrenalina, ela tentara o elevador, que os içara todos para cima — ca-glang, ca-glang — e então, nada. Algum tipo de defeito não permitiu que eles desabassem lá de cima, e eles desceram exatamente da mesma maneira como haviam subido. Embora em momento algum eles tivessem caído no vazio, por um instante, Blue sentira um frio no estômago como se eles tivessem realmente desabado, um sentimento ainda mais estranho, levando-se em consideração que o resto do seu corpo não havia movido um centímetro.
Era precisamente o que ela sentira agora.
— Ah — disse Blue.
Eram olhos vazios mortos, uma boca sem dentes e uma alma costurada, em meio a ossos nus. Ele estivera morto havia anos. Era impossível não ver quão decomposta estava sua alma, quão removida de humanidade, quão esmaecida pela longa ausência de um pulso.
Noah Czerny havia morrido.
Isso era tudo que sobrara.
Essa era a verdade.
O corpo de Blue era uma rebelião de calafrios. Ela havia beijado isso. Essa memória tênue e fria de um ser humano.
Como essa memória era apenas energia, ela lia as lembranças de Blue tão facilmente quanto suas palavras. Blue sentiu que ela assombrava seus pensamentos e então passava para o outro lado.
— Eu disse que sentia muito — ele sibilou.
Blue respirou fundo.
— Eu disse que não tem nada que se desculpar.
E ela estava sendo sincera.
Blue não se importava que ele — coisa — Noah — fosse estranho, podre e assustador. Ela sabia que ele — coisa — Noah — era estranho, podre e assustador, e ela sabia que o amava de qualquer jeito.
Ela o abraçou. Ele. Noah. Blue não se importava que ele não fosse mais humano. Ela seguiria chamando o que quer que fosse aquilo de Noah, enquanto ele quisesse ser chamado de Noah. E ela se sentia feliz que ele pudesse ler os pensamentos dela naquele momento, pois ela queria que ele soubesse o quão completamente ela acreditava nisso.
Seu corpo ficou gelidamente frio enquanto ela deixava que Noah sugasse energia dela, seus braços abraçando firmemente o pescoço do amigo.
— Não conte para os outros — ele disse. Quando Blue deu um passo para trás, ele havia recuperado seus traços de garoto novamente.
— Você precisa ir? — perguntou Blue. Ela queria dizer para sempre, mas não conseguia pronunciar isso em voz alta.
— Ainda não — sussurrou Noah.
Blue secou uma lágrima do rosto com o dorso da mão, e ele fez a mesma coisa com outra lágrima que escorria do outro lado da face da amiga. O queixo de Noah fez uma covinha daquele jeito que acontece antes de virem as lágrimas, mas Blue colocou os dedos nele e resolveu a questão. Totalmente conscientes, eles avançaram rápido na direção do fim de algo.
— Bom — disse Gwenllian. — Odeio mentirosos e covardes.
Imediatamente, ela começou a escalar a árvore mais uma vez. Blue se virou de volta para Noah, mas ele tinha desaparecido. Talvez tivesse ido antes que Gwenllian tivesse falado; assim como com a sua chegada, era difícil dizer o momento exato de sua partida. O cérebro de Blue já reescrevera todos os segundos em torno de seu desaparecimento.
O fato de Blue ter sido suspensa da escola parecia um sonho obscuro. O que era real? Isso era real.
A janela da cozinha se abriu com um rangido, e Jimi gritou:
— Blue! Seus garotos estão ali na frente, acho que vão enterrar um corpo.
De novo?, pensou Blue.

2 comentários:

  1. — Blue! Seus garotos estão ali na frente, acho que vão enterrar um corpo.
    De novo?, pensou Blue.
    kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!