16 de julho de 2018

Capítulo 59

Ronan levou um tempo para se dar conta de que Adam o estava matando.
As mãos de Adam estavam em torno do pescoço de Ronan, os polegares pressionados contra suas artérias até deixar os nós dos dedos brancos, os olhos revirados para trás. A visão de Ronan produzia flashes de luz; seu corpo estava há apenas um minuto sem ar e ele já sentia falta dele. Ele podia sentir o pulso na órbita dos olhos.
— Adam? — demandou Blue.
Parte de Ronan ainda achava que houvera um erro.
Sua respiração voltou aos solavancos quando os dois tropeçaram para trás através dos pinheiros em torno da área de piquenique. Os outros os rodeavam, mas Ronan não conseguia se concentrar no que eles estavam fazendo.
— Lute — rosnou Adam para Ronan, uma voz fina, desesperada, um animal arrastado pelo pescoço. Ao mesmo tempo em que sua voz protestava, seu corpo comprimia as costas de Ronan contra o tronco de um pinheiro. — Me acerte. Me derrube!
O demônio. O demônio havia possuído suas mãos.
Cada batida do coração de Ronan era uma parte articulada em um trem que desmoronava. Ele agarrou os punhos de Adam. Eles pareciam frágeis, quebráveis, frios. A escolha era morrer ou machucar Adam, o que não era realmente uma escolha.
Adam subitamente perdeu o controle que tinha sobre Ronan, caindo de joelhos antes de se pôr de pé rapidamente de novo. Henry deu um salto para trás quando Adam tentou agarrar o seu rosto de um jeito aterrorizante em seu erro. Nenhum ser humano lutaria desse jeito, mas a coisa que possuía suas mãos e olhos não era humana.
— Me façam parar! — implorou Adam.
Gansey segurou os dedos de Adam, mas ele os livrou com facilidade. Então ele enfiou os dedos na orelha de Ronan e a arrancou, e, com a outra mão, agarrou o queixo de Ronan e o puxou para o outro lado. Seus olhos miravam fixamente para a esquerda, esperando que intrusos o parassem.
— Me parem...
A dor era um pedaço de papel rasgado. Ronan pensou sobre como isso doía, e então se permitiu uma medida mais profunda de dor. Ele se livrou do domínio de Adam. Sentindo a oportunidade, Blue se lançou para frente e agarrou um punhado de cabelo de Adam. No mesmo instante, Adam deu um giro e, com a precisão de uma navalha, arrancou os pontos dela.
Blue expirou em choque enquanto o sangue começava a pingar escuro sobre a sua pálpebra de novo. Gansey a arrastou para trás antes que Adam pudesse arranhá-la de novo.
— Batam em mim — disse Adam miseravelmente. — Não me deixem fazer isso.
Parecia algo simples de fazer: eles eram quatro, Adam um. Mas nenhum deles queria ferir Adam Parrish, não importa o quão violento ele havia se tornado. E o demônio que operava os membros de Adam tinha um poder extraordinário: ele não se importava com as limitações do ser humano a que eles pertenciam. Ele não se importava com a dor. Ele não se importava com a longevidade. Então os nós dos dedos de Adam erravam Ronan e se chocavam contra o tronco de um pinheiro sem a menor hesitação, mesmo enquanto Adam arfava. A respiração de todos soprava branca por toda a sua volta, feito nuvens de poeira.
— Ele vai quebrar as malditas mãos do Adam — disse Ronan.
Blue agarrou um dos punhos de Adam. Houve um estalo terrível quando Adam girou na direção oposta e pegou o canivete dela do bolso solto de seu blusão. A lâmina abriu com um clique.
Ele tinha toda a atenção deles.
Seus olhos revirados, controlados pelo demônio, concentraram-se em Ronan.
Mas Adam — o Adam real — também estava prestando atenção. Ele soergueu o corpo para longe do grupo, jogando-se contra o banco de piquenique, então se jogando novamente, tentando abalar o braço que segurava a faca. Quando conseguiu prendê-lo debaixo do próprio peso, sua outra mão assumiu a forma de uma garra. Rápida como um gato, ela arranhou-arranhou-arranhou o próprio rosto. O sangue exsudou no mesmo instante. Ela estava escalavrando mais fundo. Punindo.
— Não — disse Gansey. Ele não podia suportar, e correu até Adam. Enquanto deslizava até ele, agarrando aquela mão irada, Henry se lançou logo atrás dele. Então, quando Adam ergueu o canivete sobre Gansey, Henry estava ali para aparar os punhos de Adam em suas mãos, pressionando todo o seu peso contra a força do braço direito de Adam. Os olhos de Adam dardejavam furiosamente, ponderando o seu próximo passo. O próximo passo do demônio.
Adam desejava recuperar sua autonomia.
Quando Adam livrou o punho do aperto de Henry — Pare, seu idiota, você vai quebrar o meu pulso! — e acertou os dentes de Gansey — Está tudo bem, Adam, nós sabemos que é você! —, Ronan abraçou Adam, prendendo-lhe os braços.
Ele estava contido.
— Forsan et haec olim meminisse juvabit — disse Ronan no ouvido bom de Adam, e o corpo dele se largou contra o de Ronan, o peito arfando. Suas mãos ainda tinham espasmos e se contraíam violentamente. Ele respirou, ofegante:
— Seu imbecil — mas Ronan podia ouvir o quão próximo ele estava das lágrimas.
— Vamos amarrar as mãos dele enquanto vemos o que podemos fazer — disse Blue. — Você poderia... ah, como você é inteligente.
Isso porque a Garota Órfã já tinha antecipado como isso poderia terminar e havia conseguido uma longa faixa vermelha de origem desconhecida. Blue a aceitou e então se apertou entre Henry e Gansey.
— Me deem um espaço... Juntem os punhos dele.
— Não, presidente — disse Henry, ofegante —, cruze eles assim. Você nunca viu um filme policial?
Blue trançou os dedos de Adam, o que exigiu algum esforço uma vez que eles ainda tinham vida própria, e então amarrou seus punhos ainda rebeldes. Os ombros de Adam ainda tinham espasmos, mas ele não conseguia soltar os dedos, porque eles estavam trançados e amarrados.
Finalmente, silêncio.
Com um grande suspiro, ele deu um passo para trás. Gansey tocou a testa ensanguentada de Blue com cuidado e então olhou para os nós dos dedos de Henry, que haviam ficado esfolados na briga.
As mãos de Adam pararam de ter espasmos, já que o demônio percebeu que elas estavam bem presas. Sua cabeça repousava miseravelmente sobre o ombro de Ronan, todo o seu corpo tremia, de pé somente porque Ronan não permitia que ele desmoronasse. O horror da situação seguia crescendo dentro dele. A permanência desse horror, a corrupção de Adam Parrish, a morte de Glendower.
A Garota Órfã rastejou até eles. Ela tirou cuidadosamente o relógio sujo do seu punho e o prendeu em um dos braços de Adam, com folga, acima de onde ele estava amarrado. Então beijou o seu braço.
— Obrigado — ele disse, desanimadamente. Então, para Gansey, em voz baixa: — Eu bem que poderia ser o sacrifício. Estou arruinado.
— Não — Blue, Gansey e Ronan disseram ao mesmo tempo.
— Não vamos perder a cabeça só porque você acabou de tentar matar alguém — esclareceu Henry, sugando um de seus nós dos dedos ensanguentados.
Adam finalmente ergueu a cabeça.
— Então é melhor que vocês cubram os meus olhos.
Gansey pareceu não entender.
— O quê?
— Porque senão eles vão trair vocês — disse Adam amargamente.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!