16 de julho de 2018

Capítulo 58

Gansey havia esquecido quantas vezes haviam lhe dito que ele estava destinado à grandeza.
Isso era tudo?
Eles tinham saído para o sol. A linha ley traiçoeira havia roubado horas deles sem que de fato sentissem isso, e agora eles estavam sentados na decadente Casa Verde a apenas algumas centenas de metros de onde Gansey havia morrido. Gansey estava sentado no salão de bailes, encostado na parede, todo ele contido em um quadrado de luz do sol que entrava pelas janelas empoeiradas e de múltiplos caixilhos. Ele passou uma mão sobre a testa, embora não estivesse cansado — ele se sentia tão desperto que era certo que a linha ley havia provocado isso de alguma forma também.
Estava acabado.
Glendower estava morto.
Destinado para a grandeza, os médiuns haviam dito. Uma em Stuttgart. Uma em Chicago. Uma em Guadalajara. Duas em Londres. Onde ela estava, então? Talvez ele a tivesse consumido completamente. Talvez a grandeza se referia somente à sua capacidade de encontrar quinquilharias históricas. Talvez a grandeza estivesse somente no que ele poderia ser para os outros.
— Vamos embora daqui — disse Gansey.


Eles partiram de volta para Henrietta, os dois carros viajando juntos.
Foram necessários apenas alguns minutos para o telefone de Gansey recuperar a carga após ter sido conectado ao acendedor de cigarros, e foram necessários apenas alguns segundos para as mensagens começarem a entrar como um dilúvio — todas que haviam entrado enquanto eles estavam debaixo da terra. Um zunido soou para cada uma delas; o telefone não parava de zunir.
Eles tinham perdido o evento para arrecadar fundos.
A linha ley não havia tomado horas deles. Ela havia tomado um dia deles.
Gansey pediu que Blue lesse as mensagens para ele até ele não conseguir mais ouvi-las. Elas começavam com questionamentos educados, perguntando se ele estava alguns minutos atrasado. Passavam para a preocupação, contemplando por que ele não estava atendendo o telefone. Desciam para a irritação, incertos da razão que ele teria para considerar apropriado chegar tarde a um evento na escola. E então pulavam direto à ira e caíam na mágoa.
Eu sei que você tem a sua vida, disse sua mãe para o correio de voz. Eu só queria fazer parte dela por algumas horas.
Gansey sentiu a espada passar bem no meio de suas costas e sair do outro lado.
Antes, ele estivera repassando o fracasso de despertar Glendower. Agora ele não conseguia parar de repassar a imagem da sua família esperando por ele em Aglionby. Sua mãe pensando que ele estava simplesmente atrasado. Seu pai pensando que ele estava machucado. Helen... Helen sabendo que ele estaria fazendo algo para si mesmo, em vez disso. A única mensagem dela viera no fim da noite: Suponho que o rei sempre vai vencer, não é?
Ele teria de ligar para eles. Mas o que diria?
A culpa crescia em seu peito, garganta e atrás dos olhos.
— Sabe de uma coisa? — disse Henry por fim. — Pare o carro. Ali.
Gansey silenciosamente encostou o Fisker na área de repouso que Henry havia indicado; o BMW encostou atrás dele. Eles estacionaram na única fileira de vagas na frente do prédio de tijolos elegante com banheiros; eram os únicos carros ali. O sol tinha dado lugar às nuvens; parecia que vinha chuva.
— Agora sai — disse Henry.
Gansey olhou para ele.
— Como?
— Para de dirigir — ele disse. — Eu sei que você está precisando. Você estava precisando desde que partimos. Sai. Do. Carro.
Gansey estava prestes a protestar, mas descobriu que suas palavras pareciam um tanto vacilantes em sua boca. Era como os seus joelhos trêmulos na tumba; sorrateiramente, a instabilidade havia tomado conta dele.
Então ele não disse nada e saiu do carro. Muito tranquilamente. Gansey pensou em caminhar até os banheiros, mas no último momento se desviou para o canto de piquenique, ao lado da área de repouso. Fora da vista dos carros. Muito calmamente. Foi até um dos bancos de piquenique, mas não se sentou nele. Em vez disso, lentamente se sentou logo à frente dele e trançou as mãos sobre a cabeça. Ele se curvou tanto para baixo que sua testa raspou a grama.
Gansey não conseguia se lembrar da última vez em que havia chorado.
Não era apenas Glendower que ele lamentava. Eram todas as versões de Gansey que ele fora nos últimos sete anos. Era o Gansey que o havia perseguido com um otimismo e um propósito joviais. Era o Gansey que o havia perseguido cada vez mais preocupado. E era esse Gansey que teria de morrer. Porque fazia uma espécie de sentido fatal. Eles exigiam uma morte para salvar Ronan e Adam. O beijo de Blue deveria ser mortal para o seu verdadeiro amor. A morte de Gansey havia sido prevista para este ano. Seria sempre ele.
Glendower estava morto. Ele sempre estivera morto.
E Gansey queria tipo viver.
Finalmente, Gansey ouviu passos se aproximando nas folhas. Isso era terrível também. Ele não queria se levantar e mostrar a eles seu rosto com lágrimas e receber piedade de todos; a ideia dessa amabilidade bem-intencionada era um pensamento quase tão insuportável quanto sua morte, que se avizinhava. Pela primeira vez, Gansey compreendeu Adam Parrish perfeitamente.
Ele se endireitou e pôs-se de pé com a maior dignidade possível. Mas era só a Blue, e de certa maneira não havia humilhação no fato de ela ver que ele fora arrasado. Ela apenas o observou enquanto ele tirava as agulhas de pinheiro das calças, e então, após ele se sentar em cima da mesa de piquenique, ela se sentou ao seu lado até que os outros deixaram os carros para ver o que eles estavam fazendo.
Eles se postaram em um meio círculo, em torno do seu trono de mesa de piquenique.
— Sobre o sacrifício — disse Gansey.
Ninguém disse nada. Ele não sabia dizer nem se havia falado em voz alta.
— Eu falei alguma coisa? — perguntou Gansey.
— Sim — respondeu Blue. — Mas não queríamos falar a respeito disso.
— Desculpa se essa for uma pergunta elementar — interpôs Henry —, considerando que cheguei atrasado à aula. Mas acho que o seu pai-árvore não te passou outro conselho sobre como matar um demônio, não é?
— Não, apenas o sacrifício — disse Blue. Cautelosamente, ela acrescentou: — Acho... que ele talvez soubesse sobre Glendower. Não o tempo inteiro, quem sabe. Talvez ele tenha ficado sabendo dele enquanto perambulava lá por baixo, depois de ficar com a minha mãe, ou talvez desde o início. Mas acho que ele era um dos mágicos de Glendower. Talvez também aquele… outro cara.
Ela se referia ao outro corpo na tumba. Não era difícil seguir a história que Blue imaginava, de Artemus tentando colocar Glendower para dormir e fazendo algo errado.
— Então nos sobrou o sacrifício — pressionou Gansey. — A não ser que você tenha alguma ideia melhor, Adam?
Adam estivera observando os pinheiros esparsos que cercavam a área de piquenique com o cenho franzido. Ele disse:
— Estou tentando pensar o que mais satisfaria a mágica da linha ley, mas a morte voluntária pela morte involuntária não sugere substituições.
Gansey sentiu um comichão de pavor no estômago.
— Bem, então...
— Não — disse Ronan. Ele não disse isso como se estivesse protestando, bravo ou incomodado. Ele simplesmente disse não. Factual.
— Ronan...
— Não. — Factual. — Eu não vim te tirar desse buraco simplesmente para você morrer de propósito.
Gansey correspondeu ao seu tom.
— A Blue viu o meu espírito na linha ley, então eu já sei que vou morrer este ano. A navalha de Occam sugere que a explicação mais simples é a certa: decidimos que sou eu.
— A Blue fez o quê? — demandou Ronan. — Quando você ia me contar isso?
— Nunca — disse Blue. Ela não disse isso como se estivesse protestando, brava ou incomodada. Apenas nunca. Factual.
— Não me olhem desse jeito — disse Gansey. — Eu não quero morrer. Na verdade, estou aterrorizado. Mas não vejo outra opção. E o fato é que eu quero fazer algo antes de morrer, e achei que seria algo a respeito de Glendower. Obviamente não é. Então por que não fazer algo significativo? E... nobre. — A última parte foi um pouco melodramática, mas se tratava de uma situação melodramática.
— Acho que você está confundindo nobre com mártir — disse Henry.
— Estou aberto a outras opções — disse Gansey. — Na realidade, eu as prefiro.
— Nós somos os seus mágicos, certo? — disse Blue abruptamente.
Sim, seus mágicos, sua corte, e ele seu rei sem sentido, sem nada para oferecer a não ser o próprio pulso. Como parecera certo cada momento que ele encontrara todos eles. Quão indubitável que eles se lançavam na direção de algo maior até aquele momento.
— Sim — ele disse.
— Eu só... eu sinto que deve ter algo que nós todos possamos fazer, como na caverna dos ossos — ela disse. — Estava errado na tumba porque não havia vida ali, pra começo de conversa. Ou alguma coisa. Não havia energia. Mas e se tivéssemos mais peças certas?
— Não entendo o suficiente de mágica — disse Gansey.
— O Parrish entende — disse Ronan.
— Não — protestou Adam. — Acho que não.
— Melhor do que qualquer um de nós aqui — disse Ronan. — Nos dê uma ideia.
Adam deu de ombros. Ele segurava as mãos tão firmemente que os nós dos dedos estavam brancos.
— Talvez — ele começou, então parou. — Talvez você pudesse morrer e então voltar. Se nós usássemos Cabeswater para matar você de alguma maneira que não ferisse o seu corpo, então isso provocaria a parada no tempo como 6h21. Um minuto sendo repassado sempre de novo, de maneira que você não teria como, não sei, se afastar demais do seu corpo. Ficar morto por tempo demais. E então... — Gansey podia sentir que Adam formulava a sua ideia enquanto falava, delineando um conto de fadas plausível para Ronan. — Teria de ocorrer em Cabeswater. Eu poderia fazer uma divinação no espaço de sonho enquanto a Blue a amplificava, e durante um dos espasmos de tempo nós poderíamos dizer para a sua alma retornar para o seu corpo antes que você estivesse realmente morto. Então você cumpriria as exigências do sacrifício para morrer. Em nenhum lugar está dito que você precisa continuar morto.
Houve uma longa pausa.
— Sim — disse Gansey. Factual. — Parece correto. Isso seria nobre o suficiente para você, Ronan? Não um martírio, Henry?
Eles não pareciam empolgados, mas pareciam dispostos, o que era a única coisa que importava.
Eles só precisavam querer acreditar naquilo, não realmente acreditar.
— Vamos para Cabeswater — disse Gansey.
Eles haviam apenas começado a retornar na direção dos carros quando Adam atacou Ronan.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!