16 de julho de 2018

Capítulo 57

Ossos.
Poeira.
— É assim... é assim que ele deveria parecer?
Gansey não respondeu.
Não era como Glendower deveria parecer e, no entanto, não parecia inverossímil. Tudo naquele dia parecia que tinha sido vivido antes, sonhado, refeito. Quantas vezes Gansey temera que encontraria Glendower, apenas para descobri-lo morto? O único detalhe era que Gansey sempre temera que encontraria Glendower apenas um pouco tarde demais. Minutos, dias, meses após a morte.
Mas esse homem estava morto há séculos. O capacete e o crânio eram somente metal e osso. O acolchoado de couro por baixo da cota de malha virara farrapos e poeira.
— Nós vamos... — Adam começou e então parou, incerto. Colocou a mão na parede da tumba.
Gansey cobriu a boca com a mão; ele achou que sua respiração jogaria o restante de Glendower para longe. Os outros ainda estavam parados em círculo, chocados. Ninguém sabia o que dizer. A busca fora mais longa para Gansey, mas eles haviam se sentido tão esperançosos quanto.
— Será que devemos despertar os seus ossos? — perguntou Blue. — Como os esqueletos na caverna de ossos?
— Era isso que eu ia dizer, mas... — disse Adam.
Ele não terminou a frase novamente, e Gansey sabia por quê. A caverna de ossos estivera cheia de esqueletos, mas mesmo assim parecera inerentemente vital. A mágica e a possibilidade crepitavam no ar. A ideia de despertar aqueles ossos parecera incrível, mas não impossível.
— Não tenho meu amplificador de sonhos — disse Ronan.
— Despertar. Os seus. Ossos — ecoou Henry. — Eu realmente não quero soar como o estraga-prazeres aqui, já que vocês são claramente os especialistas, mas...
Mas.
— Então vamos em frente. Vamos rápido. Eu odeio este lugar. Parece que está consumindo a minha vida — disse Ronan.
Essa veemência serviu para focar os pensamentos toldados de Gansey.
— Sim — ele disse, embora não se sentisse remotamente certo disso. — Vamos em frente. Talvez a caverna dos ossos tenha sido um treino para agora, e é por essa razão que Cabeswater nos levou para lá.
Os ossos não haviam permanecido vivos muito tempo naquela caverna, mas isso não importava, ele supôs. Eles só precisavam que Gansey ficasse desperto por tempo suficiente para conceder um favor.
O coração de Gansey dava saltos dentro dele diante da ideia de tentar extrair um favor e um propósito para sua existência antes que Glendower virasse poeira.
Melhor do que nada.
Então os adolescentes tentaram se reunir como haviam feito na caverna dos ossos, com Henry ficando de fora, curioso ou cauteloso. Adam alargou os dedos contra as paredes da tumba, tentando sentir alguma semelhança de energia para projetar. Deu voltas e mais voltas na tumba, claramente infeliz com o que estava encontrando. Então parou onde havia começado e colocou a mão na parede.
— Aqui é tão bom quanto qualquer lugar — ele disse, sem soar esperançoso. Blue pegou a mão dele. Ronan cruzou os braços. Gansey pôs a mão cuidadosamente sobre o peito de Glendower. Parecia pretensioso. Ridículo. Gansey tentou concentrar sua intenção, mas ele se sentia vazio.
Seus joelhos batiam, não de medo ou raiva, mas alguma emoção mais vasta que ele se recusava a reconhecer como luto.
Luto significava que ele desistira.
— Acorde — ele disse. Então, novamente, com um pouco mais de veemência. — Acorde.
Mas eram apenas palavras.
— Vamos — disse Gansey novamente. — Acorde.
Uma voz e nada mais. Vox et praeterea nihil.
O primeiro momento de percepção deu lugar a um segundo e terceiro, e cada novo minuto revelava alguma faceta que Gansey ainda não se deixara considerar. Não haveria o despertar de Glendower, então não haveria favor. Não haveria uma súplica pela vida de Noah, o demônio não seria negociado para longe. Talvez nunca tivesse havido mágica envolvida com Glendower; talvez seu corpo tivesse sido trazido para o Novo Mundo apenas para ser enterrado fora do alcance dos ingleses; era possível que Gansey precisasse notificar a comunidade historiadora desse achado, se ele fosse mesmo encontrável através de meios normais. Se Glendower sempre estivera morto, não poderia ter sido ele quem poupara Gansey.
Se Glendower não salvara a vida de Gansey, ele não sabia a quem agradecer, como viver ou como se definir.
Ninguém disse nada.
Gansey tocou o crânio, a maçã do rosto pronunciada, a face do seu rei prometido e arruinado.
Tudo era seco e cinzento.
Estava acabado.
Esse homem jamais seria coisa alguma para Gansey.
— Gansey? — chamou Blue.
Cada minuto cedia espaço para outro e então outro, e lentamente o desfecho se entranhou em seu coração, até o centro dele:
Acabou.

4 comentários:

  1. Como assim? Não pode acabar assim...Depois de tudo que Gansey passou...Simplesmente não pode terminar assim...

    ResponderExcluir
  2. São 3 adormecidos, Gwen, o demônio e o terceiro seria Glendower, mas ele está morto... então poderia ser que tenha um terceiro que não seja Glendower, um que ninguém saiba. AI MIL TEORIAS NA MINHA CABEÇA

    ResponderExcluir
  3. Talvez esse nao seja o verdadeiro Glendower, talvez o demônio foi, mas ainda há um adormecimento para ser acordado

    ResponderExcluir
  4. Minha teoria é que o demonio é na verdade o verdadeiro Glendower, que ele nunca foi heróico como Gansey acreditava

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!