16 de julho de 2018

Capítulo 56

Gansey não tinha certeza de há quanto tempo estivera caminhando quando finalmente o encontrou.
No fim, era isto que eles viam: uma porta de pedra com um corvo entalhado e uma abelha sonhada rastejando sobre a hera. O túnel atrás deles viera de uma casa da juventude pouco mágica de Gansey, e não do seu presente extraordinário. Não lembrava em nada o que ele havia sonhado acordado.
Parecia exatamente certo.
Ele ficou parado diante da figura entalhada, sentindo o tempo se esvaindo à sua volta enquanto seguia imóvel em meio à sua correnteza.
— Vocês estão sentindo? — ele perguntou aos outros. Ou sou só eu?
— Chegue mais perto com a lanterna — disse Blue.
Henry se deixara ficar um pouco para trás, um recém-chegado a essa busca, esperando educadamente. Em vez de se aglomerar em torno deles, ele passou a lanterna para ela. Blue a segurou perto da pedra, iluminando os detalhes delicados. Diferentemente da tumba anterior que eles haviam encontrado, que era entalhada com a figura de um cavaleiro, esta era entalhada com corvos sobre corvos. Ronan havia arrombado com um chute a tumba anterior que eles haviam descoberto, mas tocou essa cuidadosamente. Adam apenas olhou para ela de maneira distante, as mãos juntas como se estivesse com frio. Gansey procurou o telefone para tirar a foto de sempre a fim de documentar a busca, lembrou-se de que o telefone estava sem bateria, e então se perguntou se havia algum sentido nisso se aquela fosse realmente a tumba de Glendower.
Não. Esse momento era para ele, não para o público.
Ele colocou a mão na porta, aberta, os dedos bem separados, tateando. Seu balançar fácil indicava que ela se abriria com facilidade.
— Existe alguma chance de esse cara ser diabólico? — perguntou Henry. — Eu sou jovem demais mesmo para morrer. Jovem demais mesmo.
Gansey tivera tempo suficiente em sete anos para contemplar toda opção possível para o rei atrás daquela porta. Ele lera os relatos da vida de Glendower o suficiente para saber que ele podia ser herói ou vilão, dependendo do ponto de vista. Gansey tirara a filha de Glendower da tumba e descobrira que ele a havia deixado maluca. Ele lera lendas que prometiam favores e lendas que prometiam a morte. Algumas histórias tinham Glendower sozinho; outras o tinham cercado por dezenas de cavaleiros adormecidos que acordavam com ele.
Algumas histórias — a história deles — tinham um demônio nelas.
— Você pode esperar lá fora se está preocupado, Cheng — disse Ronan, mas a sua advertência era tão fina quanto uma teia de aranha, e Henry a afastou tão facilmente quanto uma.
— Não posso garantir nada sobre o que está do outro lado disso. Estamos todos de acordo que o favor é matar o demônio, certo? — disse Gansey.
Eles estavam.
Gansey pressionou as mãos contra a pedra fria como a morte. Ela se deslocou facilmente debaixo do seu peso, algum mecanismo inteligente que permitia que a pedra pesada virasse. Ou talvez nenhum mecanismo, pensou Gansey. Talvez algo sonhado, alguma criação elaborada que não tinha de seguir as regras da física.
A lanterna iluminou o interior da tumba.
Gansey a adentrou.
As paredes da tumba de Gwenllian haviam sido ricamente pintadas, pássaros sobre pássaros perseguindo mais pássaros, em tons vermelhos e azuis não esmaecidos pela luz. Armaduras e espadas estavam penduradas nas paredes, esperando que o sonhador fosse acordado. O caixão havia sido elevado e coberto com uma tampa intricadamente entalhada, exibindo uma efígie de Glendower. Toda a tumba havia sido adequada à realeza.
Essa tumba, em contrapartida, era simplesmente um aposento.
O teto era baixo e talhado na rocha: Gansey tinha de baixar a cabeça um pouco; Ronan tinha de baixar a cabeça bastante. As paredes eram pura rocha. O feixe de luz da lanterna encontrou uma tigela larga e escura sobre o chão; havia um círculo mais escuro no fundo dela. Gansey sabia o suficiente a essa altura para reconhecer uma tigela de adivinhação. Blue iluminou mais adiante com a lanterna.
Bem no meio do aposento havia uma laje quadrada; um cavaleiro de armadura estava deitado sobre ela, descoberto e não enterrado. Havia uma espada ao lado da sua mão esquerda, um copo ao lado da direita.
Era Glendower.
Gansey vira esse momento.
O tempo se esvaiu mais generosamente à sua volta. Ele podia senti-lo redemoinhando em torno dos tornozelos, pesando as pernas. Não havia ruído. Não havia nada para fazer ruído, exceto os cinco adolescentes atentos no aposento.
Ele não parecia particularmente real.
— Gansey — sussurrou Adam. O aposento engoliu o som.
A lanterna de Blue apontou além da figura de armadura para o chão mais adiante. Era um segundo corpo. Todos trocaram um olhar sombrio antes de começar a avançar lentamente em sua direção. Gansey tinha ciência absoluta do ruído de raspar seco de seus passos. Todos fizeram uma pausa e olharam para trás, para a porta da tumba. Em um mundo normal, seria fácil se convencerem da irracionalidade do medo de a porta se fechar. Mas eles não viviam em um mundo normal há muito tempo.
Blue continuava iluminando o corpo com a lanterna. Ele era composto de botas, ossos e algum tipo de tecido que se desintegrava em uma cor indeterminada. Estava parcialmente estatelado contra a parede, o crânio apoiado como se mirasse os próprios pés.
O que eu estou fazendo?, pensou Gansey.
— Eles morreram tentando fazer o que nós estamos fazendo? — perguntou Adam.
— Se despertar reis fosse um passatempo histórico — respondeu Henry —, porque esse cara estava bem armado.
Gansey e Ronan se ajoelharam ao lado dos ossos. O corpo carregava uma espada. Bem, carregava era um verbo inadequado para descrever a situação. As costelas carregavam a espada, que haviam sido perfuradas. A ponta dela ficara presa evocativamente em uma omoplata.
— Típico para a época de Glendower — disse Gansey, mais para se sentir como si mesmo.
Houve um silêncio pesado. Todos observavam Gansey. Ele se sentia como se estivesse prestes a dar um discurso para uma multidão.
— Tudo bem — ele disse. — Vou fazer isso.
— Rápido — sugeriu Blue. — Estou virada em um calafrio só.
Esse era o momento, então. Gansey se aproximou do corpo de Glendower, em sua armadura. Suas mãos pairaram apenas sobre o capacete. Seu coração disparava de tal forma que ele não conseguia respirar.
Gansey fechou os olhos.
Estou pronto.
Em seguida abriu suavemente o fecho de couro no queixo do metal frio, e então tirou cuidadosamente o capacete.
Adam inspirou.
Gansey não. Ele simplesmente não respirava. Só ficou parado, congelado, as mãos cerradas em torno do capacete do rei. Ele disse a si mesmo para inspirar, e inspirou. Ele disse a si mesmo para expirar, e expirou. No entanto ele não se movia, nem falava.
Glendower estava morto.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!