16 de julho de 2018

Capítulo 55

Enquanto Gansey caminhava pelo túnel, ele sentia uma espécie de alegria e tristeza insana crescendo dentro de si, cada vez mais intensas. Não havia nada à sua volta, a não ser um caminho de pedras desinteressante, mas, mesmo assim, ele não conseguia se livrar do sentimento de integridade em relação a isso. Ele havia imaginado esse momento tantas vezes e, agora que estava nele, não conseguia se lembrar da diferença entre imaginá-lo e vivê-lo. Não havia dissonância entre a expectativa e a realidade, como sempre houvera antes. Ele quisera encontrar Glendower, e agora estava encontrando Glendower.
Alegria e tristeza, grandes demais para o seu corpo conter.
Ele podia sentir a sensação de esvaimento do tempo novamente. Ali embaixo, ela era palpável, como uma corrente de água correndo por seus pensamentos. Gansey pensou que não era apenas o tempo que se esvaía à sua volta, mas a distância também. Era possível que esse túnel estivesse dobrando-se sobre si mesmo e levando-o para um ponto inteiramente diferente ao longo da linha ley. Gansey mantinha um olho na bateria do seu telefone celular enquanto caminhava; ela drenava rapidamente com a função da lanterna. Toda vez que olhava de relance para a tela, a hora havia mudado de alguma maneira impossível: às vezes adiantando-se a uma velocidade duas vezes mais rápida, às vezes dando um salto para trás, às vezes parando no mesmo minuto por quatrocentos passos. Às vezes a tela bruxuleava e se apagava completamente, levando a lanterna consigo e deixando-o em um segundo de escuridão, dois segundos, quatro.
Gansey não sabia ao certo o que fazer, uma vez deixado na escuridão. Ele já havia descoberto em missões em cavernas anteriores que era muito fácil cair em um buraco, mesmo com uma lanterna. Embora a caverna agora parecesse mais com um corredor do que com uma caverna, não havia como dizer onde ela terminaria.
Ele não tinha nada em que confiar, fora os corvos e o sentimento de integridade. Todos os seus passos o haviam levado para esse momento, não havia dúvida quanto a isso.
Ele tinha de acreditar que a luz não se apagaria antes que ele saísse dali. Essa era a noite, essa era a hora; todo esse tempo ele deveria estar sozinho para isso.
Então Gansey caminhou e caminhou, enquanto sua bateria piscava, ligando e desligando. Na maior parte do tempo desligando.
Quando restava apenas um traço de aviso vermelho, hesitou. Gansey poderia voltar agora e ter luz por um pouco mais de tempo. O resto da caminhada seria na escuridão, mas pelo menos ele sabia que não havia armadilhas no caminho até ali. Ou poderia seguir em frente até o último resquício de luz ter desaparecido, na esperança de encontrar algo. Esperando que precisasse dela quando chegasse seja lá onde fosse.
— Jesus — Gansey suspirou em voz alta. Ele era um livro, segurando as páginas finais. Ele queria chegar ao fim para descobrir como terminava, apesar de não querer que ele terminasse.
Gansey seguiu caminhando.
Em algum momento mais tarde, a luz se apagou. Seu telefone tinha morrido. Ele estava na escuridão absoluta.
Agora que estava parado imóvel, ele percebeu que também estava com frio. Uma gota fria de água pingou bem no topo de sua cabeça, e outra escorregou pelo colarinho de sua camiseta. Ele podia sentir os ombros do blusão emprestado de Henry ficando molhados. A escuridão era como um fato real a comprimi-lo.
Ele não sabia o que fazer. Será que forçava seu caminho para frente? Agora que estava na escuridão absoluta, ele se lembrava bem da sensação do chão ser roubado dele na caverna dos corvos. Não havia Adam para evitar que ele escorregasse mais para longe ainda. Não havia Ronan para dizer aos enxames zumbidores que fossem corvos em vez de vespas. Não havia Blue para lhe sussurrar até que ele estivesse bravo o suficiente novamente para conseguir se salvar.
A escuridão não era somente no túnel; ela estava dentro dele.
— Você não quer que eu te encontre? — ele sussurrou. — Você está aqui?
O túnel ficou em silêncio, exceto pela batida ligeira da água pingando do teto até o chão de pedra.
O medo cresceu dentro dele. O medo, quando se tratava de Gansey, tinha uma forma muito específica. E, diferentemente do buraco debaixo do Prédio Borden, o medo tinha poder em um lugar assim.
Ele percebeu que o túnel não estava mais em silêncio. Em vez disso, um ruído havia começado a tomar forma ao longe: uma nota intensamente familiar.
Um enxame.
Não era um único inseto deslocando-se pelo corredor. Não era a AbelhaRobô. Era o lamento de centenas de corpos rebatendo nas paredes enquanto se aproximavam.
E, embora estivesse escuro no túnel, Gansey podia sentir a escuridão que havia sangrado daquela árvore em Cabeswater.
Gansey podia ver a história inteira abrir-se em sua cabeça: como ele havia sido salvo de uma morte por picadas havia pouco mais de sete anos, enquanto Noah morria. E agora, enquanto o espírito de Noah se decompunha, Gansey morreria por picadas novamente. Talvez nunca houvera um propósito para tudo isso, exceto retornar para o status quo.
O zumbido se aproximou. Agora as falhas no zumbido eram pontuadas por batidas quase inaudíveis, insetos ricocheteando através do escuro em sua direção.
Ele se lembrou do que Henry havia dito quando colocou a abelha em sua mão. Ele havia lhe dito para não pensar nela como algo que poderia matá-lo, mas como algo que poderia ser belo.
Ele podia fazer isso. Ele achou que podia fazer isso.
Algo belo, disse a si mesmo. Algo nobre.
O zumbido e o ricochetear contra as paredes perto dele. O ruído era terrivelmente alto.
Elas estavam ali.
— Algo que não vai me machucar — ele disse em voz alta.
Sua visão ficou vermelha, e então escura.
Vermelha, então escura.
Então apenas escura.
— Folhas — disse a voz de Ronan Lynch, cheia de intenção.
— Poeira — disse Adam Parrish.
— Vento — disse Blue Sargent.
— Merda — acrescentou Henry Cheng.
Uma luz passou por Gansey e se distanciou, vermelha, e então escura novamente. Uma lanterna. No primeiro varrer da luz, Gansey achou que as paredes tremiam com vespas, mas, no segundo, viu que eram apenas folhas, poeira e uma brisa que as tinha precipitado pelo túnel. E, nessa nova luz, Gansey viu seus amigos tremendo no túnel onde as folhas haviam estado.
— Seu bosta — disse Ronan. Sua camisa estava encardida e o lado do seu rosto exibia sangue ressecado, embora fosse impossível dizer se era dele mesmo.
Gansey não conseguiu encontrar imediatamente sua voz e, quando a encontrou, disse:
— Achei que você ficaria para trás.
— Pois é, eu também — disse Henry. — Então pensei: não posso deixar o Gansey Três perambular pelo poço misterioso sozinho. Nos restam tão poucos tesouros antigos; seria um descuido muito grande deixá-los serem destruídos. Além disso, alguém tinha que trazer o restante da sua corte.
— Por que você iria sozinho? — perguntou Blue. Ela jogou os braços em torno dele, e Gansey sentiu que ela tremia.
— Eu estava tentando ser heroico — disse Gansey, segurando-a firme. Ela era real. Todos eles eram reais. Todos tinham vindo ali por ele, no meio da noite. A inteireza do seu choque dizia a Gansey que nenhuma parte dele realmente acreditara que eles fariam algo dessa natureza por ele. — Eu não queria que vocês se machucassem mais.
— Seu bosta — disse Adam.
Eles riram inquieta e apreensivamente, porque precisavam. Gansey pressionou o rosto contra o topo da cabeça de Blue.
— Como vocês me encontraram?
— O Ronan quase morreu tentando fazer algo para rastrear você — disse Adam. Ele apontou, e Ronan abriu a mão para mostrar um vagalume aninhado em sua palma. Quando seus dedos deixaram de ser uma gaiola para ele, o vagalume voou para Gansey e se prendeu sobre o seu blusão.
Gansey o puxou cuidadosamente do tecido e o aninhou na própria mão. Ele olhou de relance para Ronan. Ele não disse sinto muito, mas ele sentia, e Ronan sabia. Em vez disso, ele disse:
— E agora?
— Me diga para pedir à AbelhaRobô para encontrar o seu rei — respondeu Henry imediatamente.
Mas Gansey só atuara até hoje no ramo de dar ordens a magias e nunca no ramo de dar ordens a pessoas. Não era o jeito Gansey de comandar ninguém a fazer coisa alguma. Eles pediam, e esperavam. Faziam aos outros e silenciosamente esperavam que os outros o fizessem para eles.
Eles tinham vindo aqui por ele. Eles tinham vindo aqui por ele.
Eles tinham vindo aqui por ele.
— Por favor — disse Gansey. — Por favor, me ajude.
Henry jogou a abelha para o alto.
— Achei que você jamais pediria.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!