15 de julho de 2018

Capítulo 53

Gansey já estivera ali antes — sete anos e pouco. Por incrível que pareça, para outro evento para arrecadar fundos de campanha. Gansey lembrou que estivera empolgado para ir. Washington no verão era abafado e opressivo, seus habitantes, reféns relutantes, sacos enfiados na cabeça. Embora os Gansey tivessem acabado de voltar de uma viagem para o exterior para visitar fazendas produtoras de menta em Punjab (uma viagem política que Gansey ainda não havia compreendido completamente a sua finalidade), ela só servira para deixar o Gansey mais novo mais inquieto. O único pátio que a sua casa em Georgetown tinha estava cheio de parede a parede com flores mais velhas do que Gansey, e ele estava proibido de entrar nele durante o auge do verão, pois o pátio dormitava com abelhas. E, embora os seus pais o levassem para exposições de antiguidades e museus, corridas de cavalos e eventos artísticos, Gansey se sentia cada dia mais ansioso. Ele já vira todas essas coisas. E se sentia ávido por novas curiosidades e assombros, por coisas que ele nunca vira antes e que não podia compreender. Ele queria partir.
Então embora a política não o entusiasmasse, ele se sentia entusiasmado com a ideia de partir.
— Vai ser divertido — seu pai havia dito. — Vai ter outras crianças lá.
— Os filhos de Martin — sua mãe havia acrescentado, e os dois trocaram um risinho privado sobre um pequeno deslize de tempos atrás.
Gansey levara um momento para perceber que eles estavam oferecendo isso como um incentivo em vez de meramente reportar o fato como uma atualização do tempo. Gansey nunca achara crianças divertidas, incluindo a criança que ele fora. Ele sempre ansiara por um futuro onde pudesse mudar o próprio endereço conforme sua vontade.
Agora, anos mais tarde, Gansey estava postado na escada coberta pela hera e olhava para uma placa junto à porta. A CASA VERDE, lia-se nela. EST. 1824. De perto, era difícil dizer precisamente por que a propriedade parecia grotesca em vez de tomada pela vegetação. A presença dos corvos sobre cada superfície horizontal da casa também não prejudicava. Ele tentou a porta da frente: trancada.
Ligou a função de lanterna do seu telefone e se inclinou contra as janelas laterais para tentar ver dentro da casa. Ele não sabia o que estava procurando. Talvez soubesse quando visse. Talvez uma porta dos fundos estivesse destrancada, ou uma janela pudesse ser aberta. Embora não houvesse uma razão em particular pela qual o interior da casa negligenciada devesse conter algum segredo relevante a Gansey, a parte dele que era boa em encontrar coisas batia silenciosamente contra o vidro, querendo entrar.
— Olhe para isso — chamou Henry a alguns metros dele. Sua voz soava teatralmente chocada. — Descobri que algum tempo atrás essa porta lateral foi arrombada por um vândalo adolescente coreano.
Gansey teve de abrir caminho por um canteiro de lírios mortos para se juntar a ele em uma entrada lateral menos elaborada. Henry havia terminado o trabalho de uma vidraça rachada para enfiar a mão e abrir a fechadura.
— Os garotos de hoje em dia. “Cheng” não é coreano, é?
— Meu pai não é — disse Henry. — Eu sou. Herdei isso e a parte do vândalo da minha mãe. Vamos entrar, Dick, eu já arrombei a porta.
Mas Gansey hesitou, do lado de fora.
— Você deixou que a AbelhaRobô cuidasse de mim.
— Era algo amigável. Coisa de amigo.
Ele parecia ansioso que Gansey acreditasse que os seus motivos eram puros, então Gansey disse rapidamente:
— Eu sei disso. Só que... eu não encontro muitas pessoas que fazem amigos como eu faço. Tão… rápido.
Henry fez diabinhos malucos com as mãos para ele.
— Jeong, cara.
— O que isso quer dizer?
— Vá saber — disse Henry. — Significa ser Henry. Significa ser Richard Man. JeongVocê nunca diz a palavra, mas você a vive, de qualquer forma. Vou ser sincero, eu nunca esperava encontrar isso em um cara como você. É como se tivéssemos nos encontrado antes. Não, não realmente. Nós ficamos amigos imediatamente, e faríamos instantaneamente o que amigos fazem uns pelos outros. Não apenas camaradas. Amigos. Irmãos de sangue. Você simplesmente sente isso. Nós em vez de você eu. Isso é jeong.
Gansey tinha consciência de que a descrição era melodramática, exagerada, ilógica. Mas, em um nível mais profundo, ela soava verdadeira e familiar, e parecia que explicava grande parte da vida de Gansey. Era como ele se sentia a respeito de Ronan, Adam, Noah e Blue. Com cada um deles, a sua relação parecera instantaneamente certa: como um alívio. Finalmente, ele tinha pensado, ele os tinha encontrado. Nós em vez de você eu.
— Tudo bem — ele disse.
Henry sorriu brilhantemente, e então abriu a porta que tinha acabado de arrombar.
— Então, o que estamos procurando?
— Não tenho certeza — admitiu Gansey. Ele foi capturado pela fragrância familiar da casa: o que quer que fizesse todas essas antigas casas coloniais errantes terem esse cheiro. Mofo, buxo e algum produto velho para polir o assoalho. Ele foi atingido não por uma memória precisa, mas por uma era mais livre.
— Suponho que algo incomum. Acho que é óbvio.
— Devemos nos dividir, ou isso é um filme de terror?
— Grite se algo comer você — disse Gansey, aliviado que Henry tenha sugerido que se dividissem. Ele queria estar sozinho com os seus pensamentos. Gansey desligou a lanterna ao mesmo tempo em que Henry ligava a sua. Henry parecia que estava prestes a perguntar por quê, e então Gansey seria forçado a dizer Deixa meus instintos mais aguçados, mas Henry simplesmente deu de ombros e cada um partiu para um lado.
No silêncio, Gansey perambulou pelos corredores obscuros da Casa Verde, os fantasmas o seguindo logo atrás. Aqui houvera um bufê; ali um piano; aqui um grupo de políticos estagiários que pareciam muito viajados. Ele parou exatamente no centro do que fora o salão de baile. Uma luz de movimento foi acionada na rua enquanto Gansey avançava pelo salão, sobressaltando-o. Havia uma larga lareira com uma fornalha obsoleta, ameaçadora, e uma boca negra sinistra. Moscas mortas enchiam os peitoris das janelas. Gansey tinha a sensação de ser o último homem vivo.
O salão parecera enorme antes. Se semicerrasse os olhos, ele ainda podia ver a festa. Ela estava sempre acontecendo em algum ponto no tempo. Se isso fosse Cabeswater, talvez ele pudesse repassar aquela festa, pulando de volta no tempo para observá-la de novo. O pensamento era ao mesmo tempo melancólico e desagradável: ele fora mais jovem e mais acessível então, liberto de qualquer coisa como responsabilidade ou sabedoria. Mas ele tinha feito muita coisa entre agora e então. A ideia de viver tudo isso de novo, de aprender todas as duras lições de novo, de lutar para mais uma vez assegurar que ele encontrasse Ronan, Adam, Noah e Blue — era exaustivo e esgotante. Deixando o salão de baile, ele seguiu por corredores, esquivando-se por baixo de braços que não estavam mais ali, pedindo licença enquanto passava através de conversas que há muito tempo haviam terminado. Havia champanhe; havia música; havia o cheiro penetrante de colônia. Como você está, Dick? Ele estava ótimo, excelente, muito bem, as únicas respostas possíveis àquela pergunta. O sol sempre brilhava sobre ele.
Ele entrou em uma varanda protegida por telas e olhou para fora, para o novembro escuro. A grama mal cortada parecia cinzenta na luz de movimento; as árvores sem folhas pareciam negras; o céu tinha um tom sombriamente arroxeado da ameaça distante de Washington. Tudo estava morto. Será que ele ainda conhecia alguma das crianças com as quais havia brincado naquela festa?
Esconde-esconde: Gansey havia se escondido tão bem que o deram como morto, e, mesmo quando fora ressuscitado, ele ainda fora ocultado deles. Ele havia tropeçado por acaso em uma estrada diferente.
Ele abriu a porta de tela e pisou sobre a grama morta e úmida do quintal. A festa havia ocorrido ali também, as crianças mais velhas jogando um jogo frustrado de croquet, os arcos enganchados nos dedos dos pés dos jogadores.
A luz de movimento cinzenta que Gansey havia acionado antes brilhava através do quintal. Ele cruzou o gramado até a beira das árvores. A luz da varanda se infiltrava por todo o terreno até ali e penetrava mais longe do que ele teria esperado. As árvores não eram tão desarranjadas quanto ele se lembrava, embora ele não soubesse dizer se isso ocorria por ele ser mais velho e ter vagueado por mais matas, ou simplesmente por ser uma época do ano com menos folhagem. Não parecia um lugar onde se pudesse se esconder agora.
Quando Gansey fora ao País de Gales procurar por Glendower, ele ficara à beira de muitos campos como esse, lugares onde batalhas haviam sido combatidas. Ele tentara imaginar como fora estar ali naquele momento, espada na mão, cavalo debaixo dele, homens suando e sangrando. Como fora ser Owen Glendower, sabendo que eles lutavam porque ele os havia convocado.
Enquanto Malory se demorava no caminho ou passava ao largo de carro, Gansey havia caminhado a passos largos para o meio dos campos, o mais longe possível que pudesse chegar de qualquer coisa moderna. Ele havia fechado os olhos, se desligado do ruído de aviões distantes, tentado ouvir os sons de seiscentos anos atrás. A versão mais jovem dele carregava uma pequena esperança de que ele pudesse ser assombrado; de que o campo pudesse ser assombrado; de que ele pudesse abrir os olhos e ver algo mais do que vira antes.
Mas Gansey não tinha a menor inclinação mediúnica, e o minuto que começou com Gansey sozinho no campo de batalha terminou com Gansey sozinho no campo de batalha. Agora ele estava parado à beira de uma mata na Virgínia por talvez um minuto, até que o próprio ato de estar de pé parecia esquisito, como se suas pernas tremessem, embora não fosse o caso. Então ele a adentrou.
Os galhos desfolhados acima estalavam na brisa, mas as folhas abaixo de seus pés estavam úmidas e silenciosas.
Sete anos antes ele havia pisado nas vespas ali. Sete anos antes ele havia morrido. Sete anos antes ele havia nascido de novo.
Gansey tivera muito medo.
Por que eles o haviam trazido de volta?
Ramos se prenderam às mangas do seu blusão. Ele ainda não estava no lugar onde o ataque havia acontecido. Gansey disse a si mesmo que o enxame não estaria mais ali; a árvore caída onde ele havia desmaiado ao lado teria se decomposto; estava escuro demais nessa luz fantasma; ele não a reconheceria.
Mas ele a reconheceu.
A árvore não havia apodrecido. Ela estava inalterada, tão robusta como antes, mas escura com a umidade e a noite.
Fora ali que ele sentira a primeira picada. Gansey estendeu o braço, examinando o dorso da própria mão, em um gesto de assombro chocado. Deu mais um passo trôpego. Fora ali que ele as sentira na nuca, rastejando ao longo da linha de seu cabelo. Ele não deu um tapa na sensação; isso nunca o ajudara a espaná-las. Seus dedos, no entanto, crisparam-se para cima, resistindo. Gansey deu mais um passo incerto. Ele estava a meio metro daquela velha e inalterada árvore escura. Aquele Gansey de vários anos atrás havia tropeçado e caído de joelhos. Elas haviam rastejado sobre o seu rosto, sobre suas pálpebras fechadas, ao longo dos lábios trêmulos. Ele não havia corrido. Não havia como correr delas, e, de qualquer forma, a arma já havia feito o seu trabalho. Ele se lembrou de ter pensado que o seu ressurgimento coberto de vespas apenas arruinaria a festa.
Gansey aparou a queda com as mãos, apenas por um momento, e então rolou sobre o cotovelo. O veneno destruía suas veias. Ele estava de lado. Encolhido. Folhas molhadas contra o seu rosto enquanto todas as partes do seu corpo pareciam sufocar. Ele estava tremendo e acabado, e com medo, muito medo.
Por quê?, ele se perguntou. Por que eu? Qual o sentido disso?
Abriu os olhos.
Ele estava de pé, os punhos fechados, olhando para o lugar onde o ataque havia acontecido. Ele deve ter sido salvo para encontrar Glendower. Ele deve ter sido salvo para matar esse demônio.
— Dick! Gansey! Dick! Gansey! — a voz de Henry atravessou o jardim. — Você vai querer ver isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!