15 de julho de 2018

Capítulo 52

Ronan soubera antes de cair no sono que Cabeswater seria insuportável, mas ele não havia percebido ainda o quão insuportável.
O pior não eram as visões; eram as emoções. O demônio ainda estava trabalhando nas árvores, no chão e no céu, mas também corrompia o sentimento da floresta, as coisas que fazem um sonho um sonho, mesmo que não exista um cenário nele. Agora era toda a inspiração culpada feita após alguma mentira. Era o aperto no estômago após descobrir um corpo. Era a suspeita angustiante de que você era descartável, que incomodava demais, que era melhor que estivesse morto. Era a vergonha de querer algo que você não deveria; a emoção vil de quase estar morto. Eram todas essas coisas ao mesmo tempo.
Os pesadelos de Ronan costumavam ser uma ou duas dessas coisas. Apenas raramente eram todas. Isso era na época em que o queriam morto.
A diferença é que ele estivera sozinho naqueles. Agora Maura e Calla o apoiavam no mundo desperto — Calla sentada no capô, e Maura no banco de trás. Ele podia sentir a energia delas como mãos em torno de sua cabeça, bloqueando algum ruído pavoroso. E ele tinha a mente de Adam aqui no sonho com ele. No mundo real, ele estava adivinhando no assento do passageiro de novo, e, nesse mundo, estava parado nessa floresta arruinada, os ombros caídos, o rosto inseguro.
Não. Ronan tinha de admitir para si mesmo que, embora eles tivessem tornado a situação mais fácil, sua presença não era a diferença real entre os seus antigos pesadelos e este. A diferença real era que, à época, os pesadelos o queriam morto, e da mesma forma Ronan.
Ele olhou à sua volta em busca de algum lugar seguro no sonho, algum lugar que a sua criação tivesse alguma chance de se desenvolver em segurança. Não havia um lugar assim. As únicas coisas não corrompidas no sonho eram Adam e ele mesmo.
Então ele o seguraria em suas próprias mãos. Ronan pressionou as palmas juntas, imaginando uma bola minúscula de luz se formando ali. O demônio não se importava com isso. Em seu ouvido, ele ouviu um arfar. Sem dúvida, o seu pai. Sem dúvida, com dor. Morrendo sozinho.
Culpa sua.
Ronan empurrou o pensamento para longe e seguiu imaginando o objeto minúsculo brilhante que estava formando para encontrar Gansey. Imaginou o seu peso, o seu tamanho, o padrão das suas asas em miniatura.
— Você realmente achou que eu ficaria nesse lugar para você? — disse Adam em seu outro ouvido, todo repúdio frio.
O Adam real estava parado com a cabeça virada para o lado enquanto um fac-símile irracional de seu pai gritava em seu rosto, a cadência de sua voz casando perfeita e sinistramente com o Robert Parrish real. Havia uma expressão firme na boca de Adam que denotava menos medo e mais teimosia. Ele estivera lentamente se desvencilhando de seu pai real durante semanas; essa duplicata era mais fácil de resistir.
Abandonável.
Não vou pedir que ele fique, pensou Ronan. Apenas que volte. Ele queria muito conferir se o objeto em suas mãos era o que ele intencionava que fosse, mas Ronan podia sentir como o demônio desejava corromper o objeto, virá-lo do avesso, torná-lo vil e o oposto. Melhor mantê-lo escondido de vista por ora, confiando apenas que ele estava criando algo positivo. Ele tinha de se ater à ideia do que o objeto deveria fazer quando ele o trouxesse de volta à sua vida acordado, e não à ideia do que o demônio queria que o objeto fizesse quando fosse trazido de volta.
Algo arranhava o pescoço de Ronan. Leve, inofensiva, repetida e incansavelmente, até que ele trabalhou o seu caminho através da camada mais superior de sua pele e encontrou sangue.
Ronan o ignorou e sentiu o objeto em sua mão se agitar para a vida contra os seus dedos.
O sonho cuspiu um corpo na sua frente. Escuro e virado, rasgado e corrompido. Gansey. Os olhos ainda vivos, a boca se movendo. Arruinado e indefeso. Uma garra de um dos horrores noturnos de Ronan ainda estava enganchada no canto de sua boca, atravessando o seu rosto.
Impotente.
Não. Ronan não achava isso. Ele sentia o sonho vibrando contra a palma das mãos.
Adam cruzou com o olhar de Ronan, mesmo enquanto a versão duplicada do seu pai seguia gritando com ele. A tensão de qualquer que fosse o equilíbrio de energia que ele estava conseguindo era visível em seu rosto.
— Você está pronto?
Ronan esperava que sim. A verdade era que eles não saberiam realmente quem vencera esse round até ele abrir os olhos no BMW. E disse:
— Me acorda.

Um comentário:

  1. Espero que tenha dado certo! Que encontrem logo o Gansey, antes que faça alguma estupidez.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!