15 de julho de 2018

Capítulo 51

O Camaro quebrou.
Ele estava sempre quebrando e revivendo, mas hoje à noite — hoje à noite, Gansey precisava dele.
Mas quebrou de qualquer forma. Gansey só tinha conseguido chegar às cercanias da cidade quando ele tossiu, e as luzes dentro do carro obscureceram. Antes que Gansey tivesse tempo de reagir, o carro havia morrido. O freio e a direção desapareceram, e ele teve de lutar para pará-lo no acostamento. Gansey tentou a chave, olhou no espelho, tentou ver se os pássaros estavam esperando. Não estavam.
— Abram caminho para o rei corvo! — eles gritaram, seguindo em frente. — Abram caminho!
Maldito seja este carro!
Não fazia muito tempo, o carro tinha morrido exatamente da mesma maneira em uma noite escura como o breu, deixando-o preso no acostamento da estrada, quase o matando. A adrenalina o atingiu da mesma maneira que aquela noite, imediata e completa, como se o tempo jamais tivesse avançado.
Ele bombeou a gasolina, deixou-a repousar, bombeou a gasolina, deixou-a repousar.
Os pássaros estavam se afastando. Ele não tinha como segui-los.
— Por favor — ele suplicou. — Por favor.
O Camaro não fez o favor. Os corvos guincharam furiosamente; eles pareciam não querer deixá-lo, mas também pareciam ser puxados por uma força além de sua vontade. Com um praguejar suave, Gansey saiu com dificuldade do carro e bateu a porta com força. Ele não sabia o que fazer. Talvez continuasse a perseguição à pé, até perdê-los. Ele...
— Gansey.
Henry Cheng. Ele estava parado diante de Gansey, seu Fisker estacionado de lado na rua atrás dele, a porta deixada aberta.
— O que está acontecendo?
A impossibilidade da presença de Henry atingiu Gansey mais duramente do que qualquer coisa aquela noite, embora, na realidade, fosse o fato menos impossível. Eles não estavam longe do lado de Litchfield da cidade, e Henry havia chegado a esse lugar por meios automotivos, em vez de mágicos.
Mas, mesmo assim, a oportunidade estava claramente do lado de Gansey, e Henry, diferentemente dos corvos, não poderia ter aparecido somente porque Gansey o havia solicitado.
— Como você está aqui? — demandou Gansey.
Henry apontou para o céu. Não para os pássaros, mas para o corpo minúsculo e piscante da AbelhaRobô.
— A AbelhaRobô recebeu ordens de me dizer se você precisasse de mim. Então pergunto novamente à Vossa Excelência: o que está acontecendo?
Os corvos ainda guinchavam para que Gansey os seguisse. Eles estavam se distanciando ainda mais; logo ele não seria capaz de vê-los. Seu pulso agitava-se em seu peito. Com grande esforço, Gansey forçou-se a se concentrar na pergunta de Henry.
— O Camaro não dá partida. Aqueles pássaros. Eles estão me levando para Glendower. Eu preciso ir, eu preciso segui-los ou eles serão...
— Pare. Pare. Entre no meu carro. Sabe de uma coisa? Você dirige. Eu morro de medo dessa coisa.
Henry jogou as chaves para ele.
Ele entrou.
Havia uma correção doentia em relação à situação, como se, de alguma forma, Gansey sempre soubera que seria assim que a perseguição continuaria. Enquanto eles deixavam o Camaro para trás, o tempo se esvaía e ele estava dentro dele. Ao alto, os corvos irrompiam e se revolviam através da escuridão. Às vezes contrastavam contra os prédios, às vezes tornavam-se invisíveis contra as árvores. Eles brilhavam e tremeluziam antes das últimas luzes de rua da cidade, como pás de ventilador. Gansey e Henry dirigiam através dos últimos vestígios da civilização campo adentro.
Henrietta era tão grande na mente de Gansey que ele se sentia de certa forma surpreso em ver, quando não estava dando atenção a isso, quão rapidamente as luzes da pequena cidade desapareciam em seu espelho retrovisor.
Fora de Henrietta, os corvos fluíam e emergiam subitamente para o norte. Eles voavam mais rápido do que Gansey achou que seriam capazes de voar, esquivando-se de árvores e vales. Segui-los não era uma tarefa fácil; os corvos voavam absolutamente certeiros de sua direção, enquanto o Fisker tinha de se ater às estradas. Seu coração gritava para ele: Não os perca. Não os perca. Não agora.
Gansey não conseguia se livrar da ideia de que essa era a sua única chance.
Sua cabeça não pensava. Seu coração pensava.
— Vamos, vamos, vamos — disse Henry. — Eu cuido da polícia. Vamos, vamos, vamos.
Ele digitou algo no telefone e então enfiou a cabeça na janela para olhar para fora do carro e observar a AbelhaRobô partir rodopiando para cumprir a sua ordem.
Gansey foi foi foi.
A nordeste, através de estradas emaranhadas que Gansey provavelmente já estivera, mas não se lembrava. Ele não havia rastejado por todo esse estado? Os corvos os levaram até as montanhas, em estradas que serpenteavam, levantavam pó e voltavam para o asfalto. Em determinado ponto, o Fisker se aferrou à beira de uma montanha e olhou para baixo, para uma queda abrupta com nenhuma barreira de segurança à vista. Então a estrada voltou para o asfalto e as árvores esconderam o céu. Os corvos ficaram instantaneamente invisíveis por trás dos galhos escuros como a noite, voando em alguma direção sem eles.
Gansey pisou com tudo nos freios e baixou a janela. Sem fazer nenhuma pergunta, Henry fez o mesmo. Os dois garotos inclinaram a cabeça e ouviram. Árvores de inverno estalavam na brisa; caminhões distantes rodavam na autoestrada abaixo; corvos chamavam um ao outro com urgência.
— Lá — disse Henry. — À direita.
O Fisker se lançou à frente. Eles se dirigiam ao longo da linha ley, pensou Gansey. Até onde os corvos voariam? Washington? Boston? Por todo o Atlântico? Ele precisava acreditar que eles não seguiriam para um lugar onde ele não pudesse segui-los. Isso terminava hoje à noite, porque Gansey havia dito que terminava hoje à noite, e ele falara sério.
Os pássaros seguiram em frente, sem desvios. O sinal de uma estrada interestadual pairava no escuro.
— O sinal ali diz 66? — disse Gansey. — Aquele é o acesso para a 66?
— Não sei, cara. Os números me confundem.
Era a I-66. Os pássaros se precipitaram em frente; Gansey entrou na interestadual. Ela era mais rápida, mas um pouco arriscada. Não havia opções para seguir se os corvos alterassem o seu caminho.
Os pássaros não hesitaram. Gansey acelerou mais e mais.
Os pássaros se dirigiam ao longo da linha ley, levando Gansey de volta para Washington, D.C., e a casa de sua infância. Ocorreu-lhe um pensamento súbito, terrível, que esse era precisamente o destino para o qual eles o estavam levando. De volta para a casa de Gansey, em Georgetown, onde ele aprendera que o seu fim era o seu início, e ele finalmente aceitou que tinha de crescer para ser apenas outro Gansey com tudo o que isso acarretava.
— O que você disse que isso era? A I-66? — perguntou Henry, digitando em seu celular de novo enquanto outro sinal passava voando por eles proclamando que era realmente a I-66.
— Como quiser. Você dirige?
— Não. Você dirige. Marcador de quilometragem?
— Onze.
Henry estudou o celular, seu rosto azul pela luz do aparelho.
— Ei. Ei. Mais devagar. Policial daqui a um quilômetro.
Gansey deixou o Fisker planar, reduzindo a velocidade para algo próximo do limite permitido. Com certeza, a pintura escura de um carro de polícia sem marcações brilhou na faixa central um pouco menos de um quilômetro de onde Henry o notara. Henry o saudou ao passarem por ele.
— Obrigado por seu serviço, AbelhaRobô.
Gansey soltou uma risada ofegante.
— Tudo bem, agora você... espera. A AbelhaRobô pode encontrar uma saída para a gente?
Os corvos se afastavam ligeiramente da interestadual a cada quilômetro percorrido, e agora ficava bastante claro que se desviavam de uma maneira permanente. Henry consultou seu celular.
— Três quilômetros. Saída 23.
Três quilômetros em um triângulo cada vez mais amplo colocaria um espaço enorme entre os corvos e o carro.
— A AbelhaRobô consegue acompanhar os pássaros?
— Vou descobrir.
Então eles seguiram acelerando em frente enquanto o bando ficava cada vez mais difícil de ver na escuridão, até desaparecer. O pulso de Gansey disparou. Ele tinha de confiar em Henry; Henry tinha de confiar na AbelhaRobô. Na saída, Gansey deixou a interestadual com o Fisker a toda a velocidade. Não havia nenhum sinal dos corvos: apenas a noite ordinária da Virgínia à volta deles. Gansey se sentiu estranho quando reconheceu onde eles estavam, próximos de Delaplane, bastante distantes de Henrietta agora. Esse era um mundo de dinheiro antigo, fazendas de cavalos, políticos e bilionários de companhias de pneus. Não era um lugar para a mágica extraordinária arcaica. Durante o dia a cidade se revelaria um lugar de encanto refinado, há tanto tempo amado e cultivado que era impossível imaginá-lo saindo de controle.
— Para onde agora? — perguntou Gansey. Eles estavam dirigindo para lugar nenhum, para o de sempre, para uma vida que Gansey já vivera.
Henry não respondeu imediatamente, a cabeça inclinada sobre o telefone. Gansey queria pisar no acelerador, mas não fazia sentido se eles estivessem seguindo na direção errada.
— Henry.
— Desculpe, desculpe. Achei! Pé na tábua, vire à direita assim que puder.
Gansey obedeceu com tanta eficiência que Henry colocou uma mão no teto para se segurar.
— Uau — disse Henry. — Ho-ho também.
E então, subitamente, lá estavam os corvos novamente, o bando redemoinhando e se formando de novo acima da linha das árvores, um tom negro perfeito contra a cor púrpura profunda do céu. Henry soqueou o teto em uma comemoração silenciosa. O Fisker entrou em uma autoestrada larga de quatro faixas, vazia nas duas direções. Gansey havia acabado de começar a acelerar de novo quando os corvos se redemoinharam em um tornado de pássaros, lançados ao ar por uma corrente ascendente invisível, mudando o curso abruptamente. Os faróis do Fisker encontraram a propaganda de uma imobiliária ao final de um acesso.
— Lá. Lá! — disse Henry. — Pare!
Ele estava certo. Os pássaros tinham saído da formação no acesso. Gansey já passara por ele. Ele perscrutou a estrada à frente; não havia um retorno imediatamente à vista. Ele não perderia os pássaros. Ele não os perderia. Baixando a janela, Gansey esticou a cabeça para fora para se certificar de que a estrada noturna atrás dele ainda estava escura, então deu ré, a transmissão chiando de empolgação.
— Argh — disse Henry.
O Fisker subiu o acesso íngreme. Gansey não chegou nem a fazer uma pausa enquanto considerava que alguém poderia estar em casa. Era tarde, ele parecia estranho e notável nesse carro vistoso, e tratava-se de um canto privado de um mundo antiquado. Não tinha importância. Ele pensaria em algo para dizer para os proprietários da casa se fosse esse o caso. Ele não deixaria os corvos. Não dessa vez.
Os faróis iluminaram um esplendor malconservado: os dentes grandes demais de pedras de paisagismo correndo ao longo do acesso, a relva crescendo entre elas; uma cerca de quatro tábuas com uma pendurada solta; o asfalto com fendas cuspindo ervas daninhas mortas.
A sensação do tempo se esvaindo era ainda maior agora. Ele estivera ali antes. Ele fizera isso, ou vivera essa vida antes.
— Esse lugar, cara — disse Henry, esticando o pescoço, tentando vê-lo. — É um museu.
O acesso subia até passar da linha das árvores e chegava a um cimo. Havia um grande círculo ao final dele, e, atrás, pairava uma casa escura. Não, não era uma casa. Gansey, que havia crescido em uma mansão, conhecia uma mansão quando via uma. Essa era muito maior do que a casa atual de seus pais, adornada com colunas, terraços com vista panorâmica, pórticos e estufas, uma entidade derramando-se de tijolos e cor creme. Diferentemente da casa de seus pais, no entanto, os buxos dessa mansão estavam tomados por alfarrobeiras altas e ervas daninhas, e a hera havia avançado das paredes de tijolos para a escada que levava à porta da frente. As roseiras tinham crescido desiguais e feias.
— De fora não parece muito legal — observou Henry. — Está meio caída. Mas serviria para umas boas festas de zumbis em cima do telhado, não é?
Enquanto o Fisker estacionava lentamente em torno do círculo, os corvos os observavam do telhado e das balaustradas das varandas. A sensação de já ter vivido aquilo passou pela mente de Gansey, como olhar para Noah e ver ambas as versões dele, a viva e a morta.
Gansey tocou o lábio inferior, pensativo.
— Eu já estive aqui.
Henry espiou os corvos, que o espiaram de volta, sem se mexer. Esperando.
— Quando?
— Foi aqui que eu morri.

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