15 de julho de 2018

Capítulo 50

Ronan operava com a energia da bateria de emergência. Navegando em velocidade de cruzeiro. Ele era como uma gota d’água parada sobre um para-brisa. O menor choque seria o suficiente para mandá-lo ladeira abaixo.
Como ele estava praticando um ato de equilíbrio tão delicado entre o estado desperto e o sono, foi só quando a porta do lado do motorista do BMW foi escancarada que ele percebeu que algo havia acontecido. O ruído foi terrível, particularmente porque Motosserra voou para dentro do carro tão logo a porta fora aberta. A Garota Órfã deu um grito agudo no banco de trás e Adam despertou, sobressaltado.
— Eu não sei — disse Blue.
Ronan não sabia ao certo o que isso queria dizer, até que percebeu que ela não se dirigia a ele, mas às pessoas atrás dela. Maura, Calla e Gwenllian estavam paradas na estrada, em vários estados de desarranjo noturno.
— Eu disse, eu disse — guinchou Gwenllian. Seu cabelo era um emaranhado de penas e folhas de carvalho.
— Você estava dormindo? — Blue perguntou a Ronan. Ele não estivera dormindo. Mas também não estivera desperto, não realmente. Ele a encarou. Ronan havia se esquecido do ferimento dela até o encarar novamente; era uma assinatura muito violenta, escrita em sua pele. Tão contra tudo que Noah ordinariamente faria. Tudo de trás para frente. Demônio, demônio.
— Ronan. Você viu aonde o Gansey foi?
Agora ele estava acordado.
— Ele está na caçada! — Gwenllian esganiçou alegremente.
— Cala a boca — disse Blue, com inesperada rispidez. — O Gansey saiu em busca de Glendower. O Pig não está aí. A Gwenllian disse que ele seguiu uns pássaros. Você viu para onde ele foi? Ele não está atendendo o telefone!
Ela acenou dramaticamente para trás de si a fim de demonstrar essa verdade. O meio-fio vazio na frente da Rua Fox, 300, a rua tomada de penas de todas as cores, as portas dos vizinhos se abrindo e fechando de curiosidade.
— Ele não pode ir sozinho — disse Adam. — Ele vai fazer alguma coisa idiota.
— Tenho certeza disso — respondeu Blue. — Eu liguei para ele. Eu liguei para o Henry, para ver se poderíamos usar a AbelhaRobô. Ninguém está atendendo o telefone. Eu nem sei se o celular dele está funcionando.
— Você tem como localizá-lo? — Adam perguntou à Maura e à Calla.
— Ele está amarrado à linha ley — disse Maura. — De alguma maneira. Em algum lugar. Então não consigo vê-lo. É tudo que eu sei.
A mente de Ronan oscilava enquanto a realidade começava a acotovelá-lo. O horror de todos os pesadelos tornando-se verdade deixava seus dedos irrequietos na direção.
— Talvez eu possa fazer uma divinação — disse Adam. — Mas não sei dizer se vou saber onde ele está. Se ele estiver em alguma parte que eu nunca estive, não vou reconhecer o lugar e vamos ter que montar um quebra-cabeça de pistas.
Blue rodopiou em um círculo irado.
— Isso vai levar uma eternidade.
As penas espalhadas pela rua atingiram Ronan. Cada borda fina delas parecia afiada, real e importante quando comparada aos eventos obscuros dos dias anteriores. Gansey partira atrás de Glendower. Gansey partira sem eles. Gansey partira sem ele.
— Vou sonhar uma coisa — disse ele. Ninguém o ouviu da primeira vez, então Ronan repetiu.
— O quê? — perguntou Blue, ao mesmo tempo em que Maura disse: — Que tipo de coisa? — e Adam disse: — Menos o demônio.
A mente de Ronan ainda trazia a imagem fresca do horror de ver o corpo de sua mãe. A memória recente mesclava-se sem nenhum esforço com a memória mais antiga de encontrar o corpo de seu pai, criando uma flor tóxica e em expansão. Ele não queria voltar para sua cabeça nesse instante. Mas ele faria isso.
— Algo para encontrar o Gansey. Como a AbelhaRobô do Henry Cheng. Ele só precisa ter uma finalidade. Algo pequeno. Posso fazer isso rápido.
— Você poderia ser morto rápido, você quer dizer — disse Adam.
Ronan não respondeu. Ele já estava tentando pensar em qual forma ele poderia investir agilmente uma habilidade dessas. O que ele poderia criar de maneira mais confiável, mesmo com o furacão do demônio o distraindo? O que ele tinha certeza de que o demônio não corromperia mesmo se o manifestasse?
— Cabeswater não pode ajudar — pressionou Adam. — Ela só pode atrasar. Você teria que tentar criar algo que não fosse terrível em meio a tudo isso, o que parece impossível para começo de conversa, e então você teria que trazer isso de volta, e apenas isso, do sonho, o que parece ainda mais impossível.
Ronan foi para trás do volante.
— Eu sei como funcionam os meus sonhos, Parrish.
Ele não disse Não consigo suportar a ideia de encontrar o corpo do Gansey também. Ele não disse Se eu não posso salvar a minha antiga família, eu posso salvar a minha nova família. Ele não disse Não vou deixar o demônio ficar com tudo.
Ele não disse que o único verdadeiro pesadelo era não ser capaz de fazer algo e que isso, ao menos, era algo.
Ele apenas disse:
— Vou tentar — e desejou que Adam já soubesse de todo o resto.
Adam sabia. Assim como os outros.
Maura disse:
— Vamos fazer o possível para sustentar sua energia e segurar alguma coisa do pior.
Adam colocou o assento de volta em sua posição totalmente ereta e travada. Ele disse:
— Vou adivinhar — ele disse.
— Blue — disse Ronan —, acho melhor você segurar a mão dele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!