5 de julho de 2018

Capítulo 50

A caverna nunca parecera grande para começo de conversa, mas, quando Blue caiu de pernas para o ar sobre o traseiro, pareceu ainda menor. A população do ambiente havia subitamente aumentado em três pessoas. A pessoa na frente tinha um cabelo loiro glorioso e uma arma, e o homem atrás dela tinha narinas pequenas e uma arma, e a pessoa atrás era...
— Sr. Cinzento — exclamou Blue alegremente. Ela se sentia tão grata em vê-lo que não conseguia acreditar que aquilo era real.
— Blue? — perguntou o Homem Cinzento. — Ah, não.
Ah, não?
Um segundo depois, ela viu que as mãos dele estavam amarradas atrás das costas.
— O quê? — perguntou a mulher loira com a arma. Ela mirou uma lanterna no rosto de Blue, momentaneamente a cegando. — Você é uma pessoa de verdade?
— Sim, eu sou uma pessoa de verdade! — respondeu Blue, indignada.
A mulher apontou a arma para ela.
— Piper, não! — disse o Homem Cinzento e se jogou com tanta força contra a mulher que a lanterna dela caiu, bateu na pedra e apagou imediatamente. A única iluminação vinha da luz fantasma que amarrava as mãos de Artemus.
— De primeira, sr. Cinzento — disse Piper, piscando, os olhos mirando de relance a luz fantasma e então voltando para ele. — Eu não ia atirar nela. Mas talvez seja o momento de atirar em você agora. O que você acha, Morris? Eu me submeto à sua opinião profissional.
— Por favor, não — disse Blue. — Por favor, realmente, não.
— Nós poderíamos atirar nesta aqui também — respondeu Morris. — Ninguém nunca vai chegar tão longe aqui embaixo para encontrá-los.
Atrás dela, alguns seixos rolaram do teto ou de algum lugar próximo.
Blue se perguntou com uma sombria ansiedade se eles haviam perturbado as cavernas ao deixar que um rebanho de animais galopasse através delas.
Piper apontou para Maura e Artemus, finalmente dando atenção a eles.
— Essas pessoas são reais também? Por que elas estão assim?
— Maura — disse o Homem Cinzento, só agora desviando o olhar de Piper e Blue. Havia uma nota ofegante em sua voz normalmente brusca. — Blue... como foi que você... — Ele franziu o cenho, um tipo de franzir familiar, e Blue sabia que ele estava ouvindo o terceiro adormecido sussurrar dúvidas e promessas em sua cabeça.
Outro seixo caiu no chão da caverna.
— Tudo bem, não importa — disse Piper. Seus olhos claros, concentrados e determinados, estavam na porta. Não havia dúvida na mente de Blue de que ela viera despertar o adormecido. — Deixe eu pensar. É tão claustrofóbico aqui. Sabe de uma coisa, você pode ir embora, garota estranha. Não tem problema. Só finja que nunca nos viu.
— Não vou deixar o sr. Cinzento aqui — Blue afirmou. Depois de dizer isso, ela se deu conta de que fora uma declaração corajosa, mas, naquele momento, dissera aquilo apenas porque era a verdade, mesmo que fosse assustadora.
— É um pensamento comovente, mas não — respondeu Piper. — Ele não pode ir. Por favor, não me faça ser grossa.
O Homem Cinzento estava todo encolhido para caber na caverna, as mãos atadas às costas. Pedras e poeira caíam aos poucos das paredes atrás dele, de maneira agourenta. Para Blue, ele disse:
— Escuta. Pegue os dois e vá embora. Eu fiz por merecer isso. Foi assim que eu vivi e este é o resultado dessa vida. Você não fez nada para merecer isso, nem sua mãe. Agora é a hora de ser uma heroína.
— Ouça o homem — disse Piper. — Quando ele diz que “fez por merecer”, quer dizer que apontou uma arma para a minha cabeça na minha própria cozinha, e ele está certo.
Pense, Blue, pense — sua cabeça estava cheia e confusa. Provavelmente era o terceiro adormecido cutucando sua consciência. Talvez fosse o pavor de aquele lago subir aos poucos pelo túnel. Talvez fosse apenas a crescente suposição de que algo terrível estava prestes a acontecer ali. Uma pedra maior rolou livre, vinda do túnel de onde os outros haviam emergido.
Aquela caverninha já era tão pequena; não parecia nem um pouco difícil que ela desabasse completamente.
— Desculpe, você poderia acelerar um pouco? — perguntou Piper. — Eu sei que ninguém quer dizer “Ah, olha, essa merda de caverna está desabando”, mas vou chamar atenção para isso, só para agilizar um pouco o processo.
— Você está começando a falar que nem o Colin — disse o Homem Cinzento.
— Diga isso de novo e atiro nas suas bolas. — Piper gesticulou para Blue. — Você vai ou o quê?
Blue mordeu o lábio.
— Posso... posso dar um abraço de despedida nele? Por favor?
Ela encolheu os ombros, os braços em torno de si mesma, parecendo miserável. A última parte não foi difícil.
— Você quer abraçar o cara? Que zoológico — disse Piper. — Está bem.
Com enfado, ela apontou a arma na direção deles enquanto Blue se inclinava sobre o Homem Cinzento.
— Ah, Blue — ele disse.
Ela jogou os braços e o apertou firme em um abraço que ele não conseguia retribuir. Inclinando o rosto contra a face barbada dele, ela sussurrou:
— Eu queria lembrar aquela frase sobre heroísmo que você citou em inglês antigo.
O Homem Cinzento a disse.
— Soa como vômito de gato — observou Piper. — O que quer dizer?
— O coração de um covarde não é um prêmio, mas o homem de valor merece o seu capacete reluzente.
— Estou trabalhando nisso — respondeu Blue enquanto usava o canivete que havia escondido na mão para cortar silenciosamente a braçadeira de plástico que amarrava os pulsos dele. Ela deu um passo para trás. O Homem Cinzento seguiu curvado com as mãos atrás das costas, mas ergueu uma sobrancelha incolor para ela.
— Tudo bem, agora cai fora. Se manda. Adeus — disse Piper enquanto mais partes da parede se mexiam inquietamente, a camada mais superficial caindo cheia de poeira no chão. — Vá ser baixinha em outro lugar.
Blue esperava ardorosamente que o Homem Cinzento fizesse algo agora.
O problema era que Maura e Artemus estavam tão imóveis quanto antes, mesmo que Blue estivesse disposta a abandonar absolutamente o Homem Cinzento na caverna. A única coisa que ela podia fazer era voltar à luta para levá-los em direção à saída da caverna. Era como um sonho febril, só que, em vez de saírem dali guiados pelas pernas de Blue, eram as pernas terrivelmente lentas de Maura e Artemus que fariam isso.
Piper permitiu isso por aproximadamente trinta segundos, antes de exclamar:
— Isso é ridículo — e soltar a trava de segurança de sua arma.
— Blue, abaixa! — gritou o Homem Cinzento, já se movendo.
Ele deve ter acertado Piper, ou Morris, pois corpos foram lançados selvagemente contra Artemus e depois Blue. Contava como cair se a pessoa já estava de joelhos?
Uma arma disparou próxima, e, por meio segundo, houve silêncio.
Todo ruído havia colidido contra as paredes daquele ambiente minúsculo, e, quando voltou, ele apenas retinia. A poeira se movia através do espaço, onde quer que a bala tenha terminado ou ricocheteado. Mais pedras escorregaram precipitadamente, depois rebateram nos ombros de Blue — era o teto.
Blue não sabia dizer quais braços eram de quem, e se deveria se abaixar, socar ou esfaquear. Tudo que sabia era que alguém poderia morrer em um instante ali. Essa ameaça era real no ar obscuro.
Morris estava estrangulando o Homem Cinzento. Blue queria cuidar disso — será que poderia? Mas ela viu Piper se debater entre pernas em movimento em busca da arma que devia ter deixado cair. Blue procurou pelo chão e viu a arma de alguém. Tentou pegá-la sem sucesso, bem quando o Homem Cinzento e Morris passaram cambaleando juntos. Um deles chutou a arma, e ela repicou loucamente pelas pedras e para a escuridão do túnel.
A outra arma disparou na mão de outra pessoa. O ruído tornou impossível pensar. Será que alguém levara um tiro? Quem estava atirando? Será que aconteceria de novo?
Naquele momento de imobilidade, Blue viu que Morris ainda estrangulava o Homem Cinzento. Ela esfaqueou seu braço, bem na parte carnuda. E se sentiu consideravelmente menos mal do que quando esfaqueara Adam.
Morris imediatamente soltou o sr. Cinzento, que o pegou e começou a batê-lo contra o teto.
— Tudo bem, parem — disse Piper. — Ou eu mato ela.
Todos se viraram para olhar. Piper tinha uma arma apontada para a cabeça de Maura. Ela jogou a cabeça para o lado para tirar o cabelo loiro dos olhos, e então assoprou para afastar alguns fios da boca.
— O que você quer, Piper? — perguntou o Homem Cinzento, largando Morris no chão.
— Eu quero o que eu pedi — disse Piper. — Lembra quando eu deixei as mulheres e as crianças irem para que eu pudesse me sentir bem comigo mesma? Era isso que eu queria. Acho que ninguém aqui vai ter isso agora.
Atrás dela, Artemus piscava, o que era notável, pois ele realmente não piscara antes. Seu ombro sangrava como se tivesse levado um tiro. Toda vez que pingava no chão da caverna, o sangue corria junto e vertia através das pedras caídas na direção da porta vermelha.
Terreno acima.
Todos pararam para observar a cena.
O olhar de Piper seguiu todo o caminho até a porta e a maçaneta, e seus lábios rosa-chiclete se entreabriram.
Então Artemus usou as mãos amarradas para lançar a luz fantasma contra as mãos dela.
A luz se curvou contra a arma, colidindo com um ruído baixo como uma rebatida de taco. A luz fantasma se apagou e todos ficaram na perfeita escuridão da caverna.
Ninguém se mexia, ou, se alguém o fazia, era sem nenhum barulho.
Ninguém a não ser Piper sabia se ela ainda estava apontando a arma para a cabeça de Maura.
Houve um silêncio, exceto pelo estrépito dos estalos das pedras no teto.
O pior ruído era um que vinha de cima ou do entorno da caverna: uma espécie de rugido chiado à medida que as pedras se deslocavam em uma caverna acima deles. De um ponto mais próximo, ouviu-se um gemido, que Blue pensou ser Morris.
Ela se sentia estranhamente ofegante, como se a caverna estivesse ficando sem ar. Ela sabia o que era realmente aquele sentimento: pânico.
Então todos começaram a se mexer.
Começou com um ruído de passos vindos da direção de Piper, Artemus ou Maura, talvez do Homem Cinzento, e o barulho ficou tão confuso que era impossível dizer quem era quem. Blue guardou rapidamente a lâmina, pois havia grandes chances de acertar alguém que ela não queria ferir, e começou a tatear o chão em busca da lanterna derrubada. Talvez a tampa só precisasse ser apertada para que ela funcionasse novamente.
A voz de Maura subitamente disse:
— Não abra essa porta! Não abra!
Blue não sabia nem onde estava a porta agora. Havia passos em todas as direções.
Mas ela também podia ouvir o terceiro adormecido. Era como se os sussurros coletivos na cabeça de todas as pessoas tivessem se tornado tão altos que se derramassem na própria caverna. Eles não arrastavam Blue, mas se encapelavam através da escuridão e se condensavam sobre seus braços. Escorrendo de seus dedos.
Blue pensou que sabia como o lago espelhado havia se formado agora.
— Parem ela!
Era impossível dizer de quem era aquela voz. Em algum ponto próximo, ela ouviu uma respiração se acelerando.
Seus dedos se fecharam na lanterna. Vamos, vamos...
Subitamente, ouviu-se uma batida e então um quase grito.
A lanterna voltou a tempo de iluminar Piper encolhida na frente da porta vermelha, com as mãos na nuca.
— Vamos — disse o sr. Cinzento, largando uma pedra bastante sangrenta no chão. — Agora.
Choviam pedras agora, maiores que antes.
— Vamos cair fora daqui. Já — disse o Homem Cinzento, de modo curto e eficiente. Ele virou a cabeça para Artemus. — Você. Você está sangrando. Posso ver? Ah, você está bem. Blue? Tudo bem?
Ela anuiu.
— E Maura? — o Homem Cinzento se virou para ela. Ela tinha um arranhão feio no queixo e olhava atentamente para o chão, os braços amarrados atrás de si. Ele tirou delicadamente os cachos sujos de cabelo de sua testa para examinar seu rosto.
— Nós precisamos tirá-la de perto da porta — disse Blue. — E... os outros?
Ela se referia a Piper e Morris. Ambos estavam no chão. Blue não queria pensar demais a respeito.
Não havia bondade no rosto do sr. Cinzento.
— A não ser que você tenha alguma reserva de força escondida que não tenha mostrado até agora, não podemos carregar Piper e Maura, e sei perfeitamente qual das duas eu prefiro. Precisamos ir.
Como se para confirmar a decisão, o túnel pelo qual Blue havia entrado desabou em uma saraivada de pedras e terra.
Eles se deram as mãos. Blue liderava o caminho com sua lanterna, e eles escalaram de volta até o buraco pequeno no topo da caverna. Blue rastejou alguns metros para dentro e então esperou, contando corpos à medida que eles passavam. Um (Artemus), dois (Maura), três (o Homem Cinzento), quatro...
Quatro Piper, quase irreconhecível por detrás de toda a sujeira, apareceu na abertura do túnel. Ela não havia passado pelo buraco, mas estava enquadrada na abertura. Em uma mão trêmula estava a arma.
— Você... — ela disse e parou, como se não conseguisse imaginar o que dizer em seguida.
— Vai! — gritou o Homem Cinzento. — Vai, Blue, rápido, afaste a luz!
Blue disparou túnel acima.
Atrás de si, um tiro foi disparado novamente. Mas nenhuma parte do túnel foi atingida.
— Continue! — ordenou a voz do Homem Cinzento. — Está tudo bem!
Então houve uma exclamação curta e aguda, rouca demais para um grito, e uma explosão de ruídos à medida que a caverna desabava atrás deles.
Blue queria parar de ouvir aquele grito. Não importava que ele viesse de alguém que havia pouco tentara matar sua mãe. Ela não conseguia se convencer de que isso melhorava a situação.
Mas ela não conseguia parar de ouvir, então simplesmente continuou escalando e os guiando para fora da caverna.
Estava escuro do lado de fora quando eles emergiram, mas nada podia ser tão escuro quanto aquela caverna, junto à porta vermelha. Nada podia ter um cheiro tão maravilhoso quanto a relva, as árvores e mesmo o asfalto da rodovia próxima.
A entrada ali era apenas um buraco dentado na encosta de uma colina; era impossível dizer onde eles estavam, exceto que era fora. Aturdido, Artemus se apoiou na encosta, tocando seu ferimento cuidadosamente.
Blue desamarrou sua mãe; Maura jogou os braços em torno do pescoço de Blue e a apertou.
— Eu sinto muito — disse após alguns minutos. — Sinto muito, muito, muito. Vou comprar um carro para você, e aumentar o seu quarto, e só vamos comer iogurte, e...
Ela deixou a frase inacabada, e finalmente elas se soltaram.
O Homem Cinzento estava parado ao lado de Maura, e, quando ela se virou, fez uma careta e tocou o queixo dele com a barba por fazer.
— Sr. Cinzento — ela disse.
Ele apenas anuiu. Em seguida passou o dedo sobre uma das sobrancelhas dela de maneira eficiente, competente e apaixonada, e então olhou para Blue.
— Vamos encontrar os outros — ela disse.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!