4 de julho de 2018

Capítulo 5


Na manhã seguinte, Gansey e Malory saíram para investigar a linha ley.
Adam concordou em se juntar a eles, o que surpreendeu Gansey. A questão não era que os dois vinham brigando. A questão era que eles não vinham brigando. Nem conversando. Nem nada. Gansey seguia pela mesma estrada de sempre, e Adam tomara um desvio para uma segunda estrada.
Mas, por um momento, pelo menos, eles estavam indo na mesma direção. Meta: encontrar outra entrada para a caverna dos corvos. Método: refazer os passos de buscas anteriores pela linha ley. Recursos: Roger Malory.
Era uma boa época do ano para mostrar a cidade. Henrietta e seus arredores eram uma caixa de tintas coloridas. Prados verdes, plantações de milho douradas, plátanos amarelos, carvalhos laranja, o tom azul-arroxeado das montanhas, um céu azul-celeste e sem nuvens. A estrada recém-pavimentada era negra, cheia de curvas e convidativa. O ar estava fresco, respirável e insistindo por ação.
Os três se deslocavam com rapidez até que algo chamou realmente a atenção de Malory na quarta parada da manhã: a montanha Massanutten.
Não era dos locais mais místicos. Bairros se destacavam nos flancos e um resort de esqui a coroava. Gansey a achava vulgar, forragem para turistas e estudantes, mas, se ele tivesse dito isso em voz alta, Adam teria cortado sua garganta em um minuto por estar sendo elitista.
Os três pararam ao lado da estrada, evitando os olhares dos motoristas que diminuíam a velocidade. Malory estava todo curvado por detrás do tripé, dissertando algo para Adam ou para si mesmo.
— O procedimento da busca por linhas ley é bastante diferente nos Estados Unidos! Na Inglaterra, uma verdadeira linha ley deve ter pelo menos um elemento alinhado, igreja, túmulo, pedra de pé, a cada três quilômetros, ou será considerada coincidência. Mas, é claro, aqui nas Colônias — os dois garotos sorriram expressando bom humor — tudo é muito mais distante. Além disso, vocês nunca tiveram os romanos para construir coisas para vocês em linhas maravilhosamente retas. Uma pena. Fazem falta.
— Eu sinto falta dos romanos — disse Gansey, apenas para ver Adam sorrir desdenhosamente, o que ele fez.
Malory apontou seu telescópio através de um vão nas árvores, na direção do vale que se abria abaixo.
— E, embora sua linha esteja desperta e profunda agora, positivamente profunda, com energia, a linha secundária que estamos procurando hoje é n... Maldição! — Ele havia tropeçado no Cão.
O Cão olhou para Malory. Sua expressão dizia: Maldição!
— Me passe aquele lápis. — Malory pegou o lápis de Adam e marcou algo no mapa. — Vá se sentar no carro!
— Como? — perguntou Adam, educado e chocado.
— Não você! O Cão!
O Cão se retirou, amuado. Outro carro reduziu a velocidade para encará-los. Malory murmurou para si mesmo. Adam bateu um dedo de maneira ausente contra o próprio punho, um gesto de certo modo vago e desconcertante. Insetos zuniam à volta deles; asas passaram raspando pela face de Gansey.
Uma abelha, talvez; eu posso estar morto em um minuto aqui, talvez, ao lado dessa estrada, antes que Malory consiga pegar o celular no carro, antes que Adam perceba o que está acontecendo.
Gansey não matou o inseto. Ele voou embora zunindo, mas seu coração ainda assim bateu rápido.
— Me explique o que você está fazendo — disse Gansey. Então corrigiu: — Nós. Explique para nós.
Malory adotou sua voz professoral.
— A sua caverna está ligada à linha ley, e não tem uma localização fixa. Portanto, se estamos procurando essa caverna, não faz sentido procurar entradas de cavernas comuns. Apenas uma entrada em uma linha ley vai servir. E, como o mapa da sua caverna sugere que você está se deslocando perpendicularmente à linha ley, em vez de ao longo dela, creio que a malha da caverna em sua totalidade existe em múltiplas linhas. Então nós procuramos uma encruzilhada! Me diga, o que é isso?
Ele indicou algo em um dos mapas que um Gansey mais jovem havia anotado com destaque. O Gansey mais velho levantou o dedo de Malory para olhar debaixo dele.
— Spruce Knob. O pico mais alto da Virgínia Ocidental. Mil e quatrocentos metros ou algo assim.
— O pico mais alto da Virgínia? — ecoou Malory.
— Ocidental — Gansey e Adam disseram ao mesmo tempo.
— Virgínia Ocidental — repetiu Gansey, evitando cuidadosamente cruzar com o olhar de outro motorista reduzindo a marcha. — Cem quilômetros a oeste daqui. Cento e vinte, talvez?
Malory arrastou a ponta quadrada do dedo alguns centímetros ao longo de um dos muitos atalhos realçados.
— E o que é isso?
— Montanha Coopers.
Malory bateu com o dedo sobre ela.
— O que é essa anotação? Túmulo do Gigante?
— É outro nome para a montanha.
O professor ergueu as sobrancelhas peludas.
— Nome interessante para o novo mundo.
Gansey lembrou como ficara empolgado ao saber o nome antigo da montanha Coopers. Parecera um trabalho incrível de detetive tropeçar nessa informação em um velho documento de tribunal, e então fora mais emocionante ainda descobrir que a montanha era apropriadamente esquisita: ficava completamente isolada no meio dos campos ondulantes, a três quilômetros do cume principal.
— Por que é interessante? — Adam perguntou.
Gansey explicou:
— Os reis eram frequentemente gigantes na mitologia britânica. Vários locais britânicos associados a reis têm a palavra gigante, ou são de tamanhos gigantescos. Existe uma montanha no País de Gales, como se chama... Idris?
Dr. Malory, me ajude.
— Cadair Idris. — Malory estalou os lábios.
— Isso. A tradução é a cadeira de Idris, que era um rei, e um gigante, e assim a cadeira na montanha é gigantesca também. Eu consegui permissão para escalar o Túmulo do Gigante. Corriam alguns rumores sobre túmulos de índios norte-americanos ali, mas não consegui encontrar. Nenhuma caverna também.
Malory continuou seguindo a linha realçada.
— E isso?
— Monte Mole. Costumava ser um vulcão. Fica no meio de uma planície. Nenhuma caverna ali também, mas um monte de estudantes de geologia.
Malory bateu com o dedo sobre o último local na linha.
— E aqui estamos nós, não é? Mas-sa-nut-ten. Nossa, essa linha de vocês. Esperei a vida inteira para ver algo assim. Extraordinário! Me digam, deve haver outros por aí vasculhando a linha também, não é?
— Sim — respondeu Adam imediatamente.
Gansey olhou para ele. O sim não havia deixado lugar para dúvida; um sim não de paranoia, mas de observação.
Com uma voz mais baixa, para Gansey, não para Malory, Adam disse:
— Por causa do sr. Cinzento.
É claro. O sr. Cinzento aparecera procurando um pacote mágico e, quando deixara de entregá-lo para seu empregador, Colin Greenmantle, este havia inundado a cidade com pessoas à procura do sr. Cinzento. Seria insensatez presumir que todos houvessem partido.
Gansey preferia ser insensato.
— Não me causa surpresa! — concluiu Malory, batendo uma mão no ombro de Gansey. — Sorte de vocês dois que este jovem tem um ouvido melhor que a maioria; ele vai ouvir aquele rei bem antes que alguém chegue a pensar em escutá-lo. Agora vamos nos mandar deste lugar ordinário antes que ele nos contamine. Aqui! Ao Spruce Knob! Valendo por esses dois outros caroços.
Por força do hábito, Gansey juntou o telescópio, o GPS e a mira de laser enquanto Malory entrava no Suburban para esperar. Adam se dirigiu mata adentro para fazer xixi, coisa que sempre fazia Gansey desejar não ser tão inibido para fazer o mesmo.
Quando voltou, Adam disse subitamente:
— Ainda bem que não estamos brigando. Foi idiotice que isso tenha continuado por tanto tempo.
— É — respondeu Gansey, tentando não soar aliviado, exaurido, satisfeito. Ele temia dizer demais e destruir aquele momento, que já parecia imaginário.
Adam continuou:
— Aquela coisa com a Blue. Eu devia saber que seria esquisito tentar sair com ela, uma vez que ela fosse uma... Você sabe, com todos nós. Sei lá.
Gansey pensou em seus dedos tocando os de Blue e como o gesto havia sido tolo. O equilíbrio era conquistado com tanto esforço.
Ele preferia ser um tolo, mas não poderia continuar daquele jeito.
Os dois garotos olharam através do espaço vazio entre as árvores na direção do vale. Um trovão retumbava em algum lugar, embora não houvesse nem uma nuvem no céu. Não parecia que ele vinha do céu, de qualquer maneira. Parecia que vinha de debaixo deles, lá da linha ley.
A expressão de Adam era feroz e satisfeita; Gansey se sentia ao mesmo tempo orgulhoso por conhecê-lo e incerto que o conhecesse realmente.
— Não consigo acreditar que estamos fazendo isso — disse Gansey.
— Eu consigo — respondeu Adam.

6 comentários:

  1. CADAIR IDRIS! Só eu que pensei em Tessa e Will? Deu até uma saudade.

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    1. Não lembrei exatamente deles, mas de alguém relacionado à série :3

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    2. Ahahhahahhahha. Eu sabia que já tinha lido em algum lugar. Will meu maior crush da vida

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  2. Não não foi só vc,eu também pensei!

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  3. Jess... Você dentre todas as pessoas deveria entender... Acho que eu assim.
    Will meu crush literário.

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  4. Eu pensei na cidade, não em um personagem específico.
    amo os caçadores de sombras.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!