30 de julho de 2018

Capítulo 4

O SANTUÁRIO

Ioannes abriu os olhos e respirou fundo o ar doce e quente. A grama verde aquecida pelo sol havia funcionado bem como cama, e ele então se sentou. Levou uns instantes para de fato voltar ao seu corpo, já que estava viajando sem ele havia um bom tempo. Ele olhou para as mãos — a pele havia substituído as penas. Unhas haviam substituído as garras. Era sempre necessário se acostumar.
— O que você viu?
Talvez ele não tivesse tanto tempo quanto gostaria. Ioannes esticou o pescoço para olhar para aquele que esperava seu regresso. Timotheus estava sentado sobre um banco de pedra esculpida, de pernas cruzadas e com o esvoaçante manto branco, como sempre.
— Nada mais do que o normal — disse Ioannes, embora não fosse totalmente verdade. Ele e os outros que partiam do reino viajando dessa maneira haviam concordado em discutir suas descobertas entre si antes de levar qualquer informação importante aos anciãos, que não podiam mais se transformar em falcões.
— Nenhum indício?
— Da Tétrade? Nada. Os objetos estão tão ocultos hoje quanto estavam há um milênio.
Timotheus cerrou os dentes.
— Nosso tempo está se esgotando.
— Eu sei.
Se eles não encontrassem a Tétrade, a ruína que assolava o reino mortal logo chegaria também ao Santuário.
Os anciãos não sabiam ao certo como proceder. Tantos séculos e nada. Nenhum indício. Nenhum sinal. Até mesmo o paraíso poderia se tornar uma prisão se alguém tivesse tempo o bastante para notar as paredes.
— Há uma menina, no entanto — Ioannes disse um pouco relutante.
Aquilo chamou a atenção de Timotheus.
— Uma menina?
— Ela pode ser aquela que esperamos. Acabou de completar dezesseis anos mortais. Senti algo vindo dela; algo que vai além de qualquer coisa que já senti.
— Magia?
— Acho que sim.
— Quem é ela? Onde ela está?
Ioannes hesitou. Apesar do acordo com os outros, ele tinha o dever de contar aos anciãos o que eles desejavam saber; além do mais, ele confiava em Timotheus. Mas aquele assunto ainda parecia frágil, como uma pequena muda que ainda não criou raízes. Se estivesse errado, ele pareceria tolo ao alardear. Se estivesse certo, porém, a menina era incrivelmente preciosa e precisava ser tratada com cuidado.
— Deixe-me descobrir mais — Ioannes desviou, em vez de responder. — Ficarei atento a ela e relatarei tudo o que vir. Isso significa que devo abandonar minha busca pela Tétrade.
— Os outros se concentrarão nisso. — Timotheus ergueu as sobrancelhas. — Sim, fique atento a essa menina cuja identidade prefere ocultar de mim.
Ioannes olhou para ele com rispidez.
— Sei que não pretende fazer nenhum mal a ela. Por que eu desejaria protegê-la de você?
— É uma boa pergunta. — Um pequeno sorriso tocou os lábios do ancião. — Deseja sair do Santuário e ir para o lado dela ou prefere continuar a observá-la de longe?
Ioannes conhecia muitos que haviam se apaixonado profundamente pelo mundo dos mortais e por aqueles que vigiavam, mas deixar o Santuário significava não poder voltar mais.
— Ficarei exatamente onde estou — ele disse. — Por que eu desejaria algo além de estar aqui?
— Foi o que sua irmã disse certa vez.
Seu coração se contorceu um pouco.
— Ela cometeu um erro.
— Talvez. Você a visita?
— Não. Ela fez sua escolha. Eu não preciso testemunhar o resultado. Prefiro lembrar dela como era — jovem para sempre. Agora deve ser uma mulher velha, esvaindo-se como a terra que ela amou mais do que esta, apenas com suas preciosas sementes para lhe fazer companhia.
Então Ioannes voltou a deitar a cabeça na grama macia e quente, fechou os olhos e se transformou, voando para o frio e implacável mundo dos mortais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!