15 de julho de 2018

Capítulo 4

A floresta era Ronan.
Ele estava deitado com o rosto voltado para o chão, os braços abertos, os dedos cravados no solo, em busca da energia da linha ley. Ele sentia o cheiro de folhas queimando e caindo, de morte e renascimento. O ar era seu sangue. As vozes que lhe murmuravam dos galhos eram sua própria voz, reproduzida sobre si mesma. Ronan, ela repetia; Ronan, novamente; Ronan, novamente.
— Levante-se — a Garota Órfã disse em latim.
— Não — ele respondeu.
— Você está preso aqui? — ela perguntou.
— Não quero partir.
— Eu quero.
Ronan olhou para ela, embora ainda estivesse todo emaranhado em seus dedos-raízes e nos ramos de tinta que cresciam da tatuagem em suas costas nuas. A Garota Órfã estava parada com um balde de ração nas mãos. Seus olhos eram escuros e desalentados, os olhos dos sempre famintos ou dos sempre desejosos. O solidéu branco estava puxado para trás sobre o cabelo loiro, curto e repicado.
— Você é apenas um pedaço de sonho — ele disse. — Apenas uma bobagem da minha imaginação.
Ela se lamuriou como um cachorrinho chutado, e Ronan se sentiu imediatamente irritado com ela, ou consigo mesmo. Por que ele não podia dizer simplesmente o que ela era?
— Eu estava te procurando — ele disse, assim que se lembrou disso. A presença dela sempre remetia à ideia de que ele estava sonhando.
— Kerah — ela disse, ainda magoada com sua declaração anterior. Ronan se sentiu incomodado de ouvi-la surrupiar o nome de Motosserra para ele.
— Encontre o seu — ele disse, desgostoso de ser firme com ela, mesmo que estivesse sendo apenas sincero. Ela se sentou ao lado dele, recolhendo os joelhos até o peito.
Ronan pressionou a face contra o solo frio e enfiou ainda mais os braços por baixo da terra. As pontas dos dedos roçaram larvas e minhocas, toupeiras e cobras. As larvas se desenroscavam à medida que ele passava por elas. As minhocas se juntavam a ele em sua jornada. O pelo das toupeiras se pressionava contra ele. As cobras se enrolavam em seus braços. Ronan era todas elas.
Ele suspirou.
Na superfície, a Garota Órfã se balançava e cantava um breve lamento para si mesma, olhando ansiosamente para o céu.
— Periculosum — ela avisou. — Suscitat.
Mas ele não sentia nenhum perigo. Apenas terra, a energia da linha ley e as ramificações de suas veias. Lar, lar.
— Está aqui embaixo — disse Ronan. A terra engoliu suas palavras e mandou brotos novos para cima.
A Garota Órfã apoiou as costas encurvadas contra a perna de Ronan e tremeu.
— Quid... — ela começou, então continuou, tropeçando, em inglês. — O que é?
Era uma pele. Tremeluzindo, quase transparente. Uma parte suficiente de seu corpo estava abaixo da superfície da floresta, de maneira que Ronan podia ver a sua forma em meio à terra. Ela tinha o formato de um corpo, como se estivesse germinando abaixo da superfície, querendo ser desenterrada. A textura dela lembrava o tecido da sacola no quarto de Matthew.
— Peguei — disse Ronan, os dedos roçando a superfície. Me ajude a segurar. Talvez ele só tivesse pensado isso, não dito alto.
A Garota Órfã começou a chorar.
— Cuidado, cuidado.
Ela mal tinha terminado de dizer, quando ele sentiu...
Algo
Alguém?
Não eram as escamas frias e secas das cobras. Tampouco as rápidas batidas do coração das toupeiras. Não era a suavidade que deslocava a terra das minhocas, ou a carne mole e lenta das larvas.
Era escuro.
Exsudava.
Não era bem uma coisa.
Ronan não esperou. Ele conhecia um pesadelo quando sentia um.
— Garota — ele disse — me puxa para fora.
Ele pegou a pele de sonho em uma de suas mãos-raízes, rapidamente tentando guardar a sensação na memória. O peso, a densidade, a realidade.
A Garota Órfã escavou o solo à volta dele, cavando como um cão e balbuciando pequenos ruídos assustados. Como ela odiava os sonhos de Ronan.
A escuridão que não era escuridão se insinuou terra acima. Ela consumia as coisas que tocava. Ou melhor, elas estavam ali, e então não estavam mais.
— Mais rápido — disparou Ronan, recuando com a pele agarrada em seus dedos-raízes.
Ele podia deixar a pele de sono para trás e despertar.
Mas ele não queria deixá-la. Poderia funcionar.
A Garota Órfã estava com a perna presa, ou o braço, ou um de seus ramos, e ela puxava sem parar, tentando desenterrá-lo.
— Kerah — ela chorou.
A escuridão mordia persistentemente. Se ela prendesse a mão de Ronan, ele poderia acordar sem uma. Ele teria de reduzir suas perdas...
A Garota Órfã caiu para trás, livrando-o do solo. A escuridão irrompeu solo afora atrás de Ronan. Sem pensar, ele se atirou para proteger a garota.
Nada é impossível, disse a floresta, ou a escuridão, ou Ronan.


Ronan acordou. Ele estava imobilizado, como sempre ficava após ter trazido algo de qualquer tamanho de um sonho. Ronan não conseguia sentir as mãos — por favor, ele pensou, por favor, me deixe ter mãos ainda — nem as pernas — por favor, ele pensou, me deixe ter pernas ainda. Ronan passou longos minutos encarando o teto. Ele estava na sala de estar, no velho sofá de capa xadrez, olhando para as mesmas três rachaduras que haviam formado a letra M Durante anos. Tudo cheirava a nogueira e a madeira de buxo. Motosserra bateu asas sobre ele, até se ajeitar pesadamente sobre a perna esquerda.
Então ele devia ao menos ter uma perna ainda.
Ronan não conseguia formular bem o que havia tornado a escuridão tão aterrorizadora, agora que ele não estava olhando para ela.
Lentamente, seus dedos começaram a se mover, então ele ainda devia tê-los, também. A pele de sonho tinha vindo com ele e estava meio caída para fora do sofá. Ela parecia transparente e insubstancial, manchada de sujeira e rasgada em tiras. Ronan tinha seus membros, mas suas roupas eram só farrapos. Ele também estava morrendo de fome.
O telefone de Ronan zumbiu, e Motosserra voou para o encosto do sofá. Normalmente, ele não o teria conferido, mas ele estava tão agitado com a lembrança do nada no sonho, que usou os dedos recentemente móveis para tirá-lo do bolso para ter certeza de que não era Matthew.
Era Gansey. Parrish quer saber se você acabou de se matar sonhando, por favor dê um retorno
Antes que Ronan tivesse tempo para formular uma emoção a respeito dessa ciência de Adam, Motosserra subitamente enfiou a cabeça para trás do sofá. As penas do pescoço se arrepiaram, cautelosamente atentas.
Ronan ficou de pé e acompanhou para onde a atenção dela se dirigia. Em um primeiro momento, ele não viu nada, exceto a bagunça familiar da sala. A mesa do café, a TV, o armário de jogos, o cesto de bengalas. Então seus olhos perceberam um movimento abaixo da mesa ao fundo.
Congelou.
Lentamente, percebeu o que estava vendo.
— Merda — ele disse.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!