15 de julho de 2018

Capítulo 49

A noite começou a se lamentar.
O som vinha de todas as partes — um grito selvagem. Um grito primal. Um brado de batalha. Ele ficou cada vez mais alto, e Gansey se pôs de pé, as mãos cobrindo parcialmente os ouvidos.
Gwenllian gritou algo de prazer e fervor, mas o som abafou sua voz. Abafou o estrepitar das folhas de carvalho secas que restavam nas árvores, assim como o ruído do arrastar dos sapatos de Gansey sobre o telhado enquanto ele andava cuidadosamente até a beirada para ter uma visão melhor. Abafou as luzes, e a rua mergulhou na escuridão. O grito abafou tudo e, quando parou e as luzes retornaram, uma fera sombria e de chifres brancos estava parada de lado, no meio da rua abaixo, os cascos desajeitados sobre o asfalto.
Em alguma parte por ali havia o mundo ordinário, um mundo de semáforos e centros comerciais, de luzes fluorescentes em postos de gasolina e tapetes azul-claros em uma casa suburbana. Mas aqui, agora, havia apenas o momento antes e depois do grito. Os ouvidos de Gansey retiniam.
A criatura ergueu a cabeça para olhar para ele com olhos brilhantes. Era o tipo de animal que todos achavam que sabiam o seu nome até o verem, e então o nome os fugia e deixava para trás somente a sensação de tê-lo visto. Ele era mais velho do que qualquer coisa, mais adorável do que qualquer coisa, mais terrível do que qualquer coisa.
Algo decisivo e assustado se manifestou no peito de Gansey; era exatamente o mesmo sentimento que havia lhe ocorrido da primeira vez que vira Cabeswater. Gansey percebeu que já tinha visto algo como essa criatura antes: a manada de feras brancas que havia estourado através de Cabeswater. No entanto, agora que olhava para essa fera, ele se deu conta de que aquelas eram cópias dessa, descendentes dessa, memórias sonhadas dessa.
A fera contraiu uma orelha. Então mergulhou na noite.
— Bem, você não vai segui-la? — perguntou Gwenllian a Gansey.
Sim.
Ela apontou para os galhos do carvalho, e ele não a questionou. Gansey se dirigiu rapidamente para onde um grande galho pairava sobre o telhado, subiu nele, segurando-se aqui e ali em esporões verticais. Escorregou para baixo de galho em galho e então saltou os dois ou três metros até o chão, sentindo o choque do pouso dos calcanhares até os dentes.
A fera tinha desaparecido.
Não houve nem tempo para Gansey registrar o seu desapontamento, por causa dos pássaros. Eles estavam por toda parte: a atmosfera bruxuleava e fascinava com penas e penugens de animais. Os pássaros redemoinhavam, mergulhavam e precipitavam-se em torno da rua, as luzes pegando asas, bicos, garras. A maioria deles eram corvos, mas havia outros também. Pequenos chapins, rolinhas lamentosas aerodinâmicas, gaios compactos. Esses pássaros menores pareciam mais caóticos que os corvos, como se tivessem sido pegos no espírito da noite sem compreender o propósito. Alguns deles soltavam pequenos guinchos ou lamentos, mas, na maior parte, o som era de asas. O sopro zunido, esvoaçado, do voo frenético.
Gansey pisou no jardim e, imediatamente, o bando denso voou em sua direção. Eles redemoinhavam à sua volta, asas raspando nele, penas tocando seu rosto. Ele não podia ver nada a não ser pássaros, de todas as formas e cores. Seu próprio coração parecia ter asas. Gansey não conseguia respirar.
Ele estava com muito medo.
Se você não consegue não ter medo, disse Henry, tenha medo e seja feliz.
O bando mergulhou e se foi. Eles queriam ser seguidos, e eles queriam sê-lo agora.
Redemoinharam em uma grande coluna sobre o Camaro.
— Abram caminho! — gritaram. — Abram caminho para o rei corvo!
O grito era tão alto agora que as luzes começaram a se acender nas casas. Gansey entrou no carro e virou a chave — vamos, Pig, vamos. Ele ligou aos resmungos. Gansey era tudo isso ao mesmo tempo: entusiasmado, aterrorizado, dominado, saciado.
Com um guinchar de pneus, saiu em busca do seu rei.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!