5 de julho de 2018

Capítulo 49

O lago era molhado, o que chocou Blue.
De alguma forma, ela havia acreditado que, se o cadáver era falso, talvez a água também fosse. Mas, no fim das contas, pelo menos cinco centímetros da água eram reais e respingavam friamente na sola de seus pés.
Ela não desapareceu.
Blue se virou e viu Ronan agachado alguns metros acima em terra firme, os braços em torno dos joelhos, já esperando que a escuridão o levasse.
Quando ele cruzou com o olhar dela, Ronan a saudou sem sorrir, antes que ela se virasse novamente.
Blue abriu caminho com cuidado através do lago, os olhos focados no verdadeiro fundo dele, no teto e nas paredes — ela não confiava em nada naquele lugar, especialmente à medida que o pavor começava a crescer dentro dela, mais e mais.
Blue não gostava da ideia de deixar Ronan para trás na escuridão.
Mas seguiu em frente sozinha, e, quando achou que não conseguia mais assimilar a escuridão em seu coração, chegou à beira do lago e do túnel que vinha depois.
Ela pisou na rocha e, por apenas um segundo, ficou ali e tentou se ver livre do medo.
Por que preciso estar sozinha para fazer isso?
Blue reconheceu a injustiça disso. Então reajustou a luz fantasma e seguiu em frente.
Ela sabia que estava indo na direção certa, pois começou a sentir o puxão sutil do terceiro adormecido. Era como Adam tinha dito — uma voz na cabeça que soava muito como sua própria voz, se você não estivesse prestando atenção.
Mas Blue estava prestando atenção.


Não era longe até a câmara que ele havia descrito. Ela se enfiou através do buraco escuro, sentindo uma voz dentro de si dizer: Aproxime-se aproxime-se aproxime-se, quando a voz real dentro dela dizia: Eu gostaria de poder fugir.
E lá estava ela, como ele havia descrito. Uma pequena câmara, aberta na caverna, tão baixa que Blue teve de se agachar para entrar. Ela não gostou de se agachar; isso a fez se sentir desconfortavelmente vulnerável.
Parece muito com se ajoelhar.
Mas não era a voz real na sua cabeça que havia pensado isso; era a voz imitada do terceiro adormecido.
Ela desejava tanto a presença dos garotos, ou de Calla, ou de sua mãe, ou... Blue tinha tantas pessoas a quem não dava o real valor o tempo inteiro. Ela nunca precisara ter medo de verdade antes. Sempre houvera outra mão para pegá-la, ou pelo menos para segurar a sua enquanto eles caíam juntos.
Blue rastejou para dentro da câmara. A luz fantasma de Ronan iluminou o espaço. Ela se encolheu quando percebeu quão próxima estava de um homem ajoelhado. Ele estava a centímetros dela, esguio e de certa maneira familiar, completamente imóvel.
Não estava dormindo, como uma criatura de sonho, tampouco morto, como o vale dos ossos. Mas com o olhar fixo, absorto, sobre uma porta vermelha enfadonha com uma maçaneta em um tom negro oleoso.
Abra
Blue desviou os olhos dela.
Sou um espelho, ela pensou. Dê uma olhada em si mesma enquanto dou uma olhada ao redor.
Ela caminhou em torno do homem imóvel, tentando criar coragem para o que iria ver. Tentando se guardar contra a pior sensação de todas, aquela esperança traiçoeira, pior que os sussurros do terceiro adormecido em sua cabeça.
Mas isso não ajudou. Porque do outro lado do homem estava Maura Sargent.
Ela estava imóvel, as mãos enfiadas nas axilas, mas estava viva.
Viva, viva, viva, e era a mãe de Blue, e ela a amava, e a encontrara.
Blue não se importava se Maura podia sentir isso ou não — ela avançou aos tropeços e jogou os braços furiosamente em torno do pescoço da mãe.
Ela parecia tão confortadora quanto a sua mãe, porque era a sua mãe.
Para sua enorme surpresa, Maura se mexeu ligeiramente por baixo dela e então sussurrou:
— Não deixe que eu me mexa!
— O quê?
— Não vou conseguir evitar abrir a porta, agora que estamos nós três!
Blue olhou de relance para o homem. Seu cenho estava mais franzido.
— A gente devia simplesmente cair fora — disse Blue. — Como você atravessou o lago?
— Dei a volta — Maura sussurrou. — Por cima.
— Tinha outro caminho?
Agora que Blue sabia que Maura estava viva, tinha espaço em seu coração para outras emoções, como ficar indignada. Ela espiou em torno da caverna e viu uma pequena abertura no topo de uma das paredes baixas.
Nesse instante, viu que o homem estava começando a rastejar na direção da porta.
Blue não pensou. Agachada, ela voou até ele e abriu o canivete.
— Ah, não. Vem comigo, cara.
Ele parecia preferir ter uma lâmina enfiada em si a se afastar da porta.
Finalmente recuou, trôpego, alguns centímetros. Então alguns centímetros mais. Blue procurou algo para amarrar as mãos dele, mas só tinha a luz fantasma. Ela a passou sobre a cabeça e disse:
— Não leve para o lado pessoal, quem quer que você seja, mas não confio em você com essa sua expressão enfeitiçada no rosto.
Então colocou o cabo do canivete entre os dentes, sentindo-se ligeiramente heroica, e usou o cabo flexível da luz para amarrar as mãos do homem atrás das costas. Ele não protestou, e suas sobrancelhas se suavizaram em uma expressão que parecia ser de gratidão. Agora que ele não conseguia abrir a porta, desabou de joelhos, ombros caídos, e soltou um suspiro trêmulo.
Há quanto tempo Maura e esse homem estavam ali embaixo, resistindo ao chamado de quem quer que estivesse dormindo atrás daquela porta? Esse tempo todo?
— Você é o Artemus? — Blue lhe perguntou.
Ele olhou para ela em um reconhecimento abatido.
Então era por isso que ele parecia familiar. Blue não tinha o rosto alongado ou os pés de galinha profundos, mas a boca e os olhos dele eram os mesmos que ela reconhecera no espelho durante toda sua vida.
Hum. Oi, pai. Então ela pensou: Realmente, com essa genética, eu devia ser mais alta.
Ela olhou de volta para a outra abertura, a que estava no topo da parede. Não era o tipo de buraco mais acolhedor, mas, pelo que Blue sabia, sua mãe não tinha nenhuma experiência com escaladas, então não podia ser pior do que o caminho que ela havia tomado.
Blue não tinha tempo para continuar refletindo. Ainda curvada, caminhou com dificuldade na direção da abertura do túnel por onde havia entrado. E chamou na escuridão:
— Ronan?
Sua voz se espalhou e se suavizou no espaço, devorada pela escuridão.
Uma pausa. Em algum lugar, uma água pingava. Então:
— Sargent?
— Eu a encontrei! Tem outra saída! Você consegue sair por onde viemos?
Outra pausa.
— Sim.
— Então vá!
— Mesmo?
— Sim, não faz sentido se você não consegue atravessar!
Era mais perigoso para Ronan ficar naquela escuridão desconhecida, e, além do mais, Blue não seria capaz de levar sua mãe e Artemus de volta por aquele caminho.
Meus pais, ela pensou. Não posso levar meus pais de volta por aquele caminho.
Isso fez Blue franzir o cenho.
Ela se voltou para Maura.
— Vamos lá. Você pode se mexer sem abrir a porta. Vamos embora.
Mas Maura não parecia mais ouvir. Ela olhava fixamente para a porta de novo, franzindo o cenho.
A voz de Artemus soou no ambiente escurecido, surpreendendo-a:
— Como você consegue suportar isso?
Sua voz tinha um... sotaque. Ela não sabia por que isso a surpreendia. Era algo como o inglês britânico, mas entrecortado, como se o inglês não fosse sua língua pátria.
Blue considerou outras opções para amarrar as mãos de sua mãe; ela se perguntou se poderia forçá-la a deixar o lugar. Seria horrível se tivesse de brigar com ela.
— Sou um espelho, eu acho. Apenas o virei para si mesmo.
— Mas isso não é possível — disse Artemus.
— Tudo bem — ela respondeu. — Então provavelmente não seja isso que eu estou fazendo, e você sabe mais das coisas. Agora, se não se importa, estou tentando descobrir como tirar minha mãe dessa caverna.
— Mas ela não pode ser sua mãe.
Blue teve uma primeira impressão de seu pai pior do que imaginara ter por todos aqueles anos.
— Você, meu senhor, supõe um monte de coisas que considera fatos, e, numa outra oportunidade, acho que deveria ponderar com mais calma sobre tudo o que você julga verdadeiro. Mas, por enquanto, só me diz se eu consigo arrastar ela para fora deste lugar e para cima daquele buraco. Aquela é a saída, certo?
Ele retorceu as mãos e a luz se derramou sobre Blue um pouco mais.
— Na realidade, você parece um pouco com ela.
— Por Deus, homem — disse Blue. — Você ainda está nessa? Sabe com quem mais eu pareço um pouco? Com você. Pense nisso enquanto eu descubro uma saída sozinha.
Artemus ficou em silêncio, sentado com os braços amarrados atrás de si, a expressão pensativa. Blue não tinha certeza se ele estava realmente pensando com quem ela parecia, ou se estava caindo de volta nas garras do terceiro adormecido.
Blue pegou o braço de sua mãe e deu um puxão.
— Vamos.
O braço de sua mãe ficou rígido, resistindo não a Blue, mas ao conceito de se mexer. Então, quando Blue a soltou, Maura imediatamente estendeu a mão para a porta.
Blue deu um tapa nela e se virou para a porta.
— Deixe ela em paz!
A voz tentou se esgueirar em torno de suas defesas. Abra a porta e todos estarão livres, e com um favor. Certamente você quer salvar a vida daquele garoto.
O terceiro adormecido era bom no que fazia.
Embora Blue soubesse que não havia nenhuma chance de abrir a porta ou aceitar a ajuda oferecida, ela sentiu a oferta abrir caminho até o seu coração.
Ela se perguntou o que aquela voz havia sussurrado para sua mãe.
Blue tirou o suéter. Ela pegou as mãos de Maura — Maura resistiu — e as amarrou tão bem quanto podia, torcendo os braços do suéter em torno delas. Tentou não se importar com o fato de o suéter ter se deformado, mas Persephone o havia feito para ela, e isso parecia tão triste quanto todo o resto. Todas as preocupações e todas as alegrias haviam se tornado iguais, a prioridade apagada pelo terror.
Blue pegou Artemus pelo cotovelo e Maura pelo cotovelo e os arrastou adiante. Pelo menos o máximo que eles podiam ir naquele ambiente pequeno. Empurrando-os um contra o outro e parando bastante para erguê-los de volta, ela começou a afastá-los aos poucos da porta, na direção do buraco da caverna. Ela não se importava que estivessem todos machucados e sangrando quando saíssem dali — desde que saíssem.
Mas então uma massa de corpos subitamente adentrou aos tropeços por onde eles saíam.

Um comentário:

  1. Acho que o Homem Cinzento é um material de pai melhor que esse Artemus. Foi realmente uma péssima primeira impressão (e aposta quanto que a massa de corpos q eles trombraram n são Piper & cia?)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!