15 de julho de 2018

Capítulo 48

Todos os ruídos e cheiros da Rua Fox eram ampliados após o cair da noite, quando todos os seus ocupantes humanos estavam em silêncio. Todos os chás, velas e condimentos fragrantes se tornavam mais distintos, cada um declarando sua origem, quando durante o dia eles se misturavam em algo que Gansey só havia identificado como Rua Fox. Agora essa atmosfera lhe passava a impressão de algo poderoso e caseiro, secreto e deliberado. Essa casa era um lugar de mágica, como Cabeswater, mas era preciso lhe dar mais atenção. Gansey deitou no sofá e se cobriu com uma colcha, os olhos fechados no escuro, os ouvidos atentos ao estrepitar de uma brisa que soprava de alguma fresta, ao arranhar de folhas ou unhas de alguma janela, ao baque surdo de galhos se quebrando ou de passos em outro aposento.
Abriu os olhos, e lá estava Noah.
Noah sem nenhuma luz do dia para anuviar o que ele realmente havia se tornado. Ele estava muito próximo, porque havia esquecido que os vivos não conseguiam focar bem coisas que estivessem mais próximas do que um palmo de distância. Ele estava muito frio, pois agora precisava de quantidades enormes de energia para continuar visível. Ele estava com muito medo, e porque Gansey também estava com medo, seus pensamentos se emaranhavam.
Gansey afastou a colcha com um chute. Amarrou os cadarços dos sapatos e colocou seu blusão. Silenciosamente, tomando todo cuidado para pisar de leve nas tábuas velhas, Gansey seguiu Noah para fora da sala de estar. Ele não acendeu nenhuma luz, pois sua mente ainda estava embrulhada com a de Noah, e ele usava os olhos de Noah, que não se importavam mais se estava escuro ou não. O garoto morto não o levou para rua, como ele imaginara, mas escada acima, até o segundo andar. Nos primeiros degraus da escada, Gansey achou que estava sendo levado para a ronda habitual de Noah pela casa, e nos últimos achou que estava sendo levado para Blue. Mas Noah passou pela porta do quarto dela e esperou na base da escada do sótão.
O sótão era um lugar carregado, que fora ocupado primeiramente por Neeve e então por Gwenllian, duas pessoas difíceis de diferentes maneiras. Gansey não teria considerado nenhuma delas como possíveis caminhos que representassem um avanço, mas Noah o levara até ali, e assim Gansey hesitou com a mão sobre a maçaneta. Ele não queria bater, pois despertaria o restante da casa.
Noah empurrou a porta.
Ela se abriu sem nenhuma resistência — não havia sido trancada —, e Noah seguiu escada acima.
Uma luz descorada veio de cima deles, acompanhada por um frio cortante cheirando a carvalho.
Parecia que havia uma janela aberta.
Gansey seguiu Noah.
Uma janela estava aberta.
Gwenllian havia transformado o aposento em uma bagunça enfeitiçada, e ele estava cheio de toda sorte de objetos estranhos fora ela mesma. Sua cama estava vazia. O ar frio da noite entrava por uma portinhola redonda.
Quando Gansey passara escalando por ela, Noah havia desaparecido.
— Olá, reizinho — cumprimentou Gwenllian. Ela estava distante, sentada em um dos ângulos de telhado pequenos e desproporcionais da casa, as botas apoiadas contra as telhas, uma silhueta escura e estranha na luz ambiente e bruxuleante dos postes da rua assombrada abaixo. No entanto, havia algo nobre a respeito dela, uma inclinação brava e arrogante de seu queixo. Ela deu um tapinha no telhado, bem ao seu lado.
— É seguro?
Ela aprumou a cabeça.
— É assim que você vai morrer?
Gansey se juntou a ela, escolhendo seu caminho cuidadosamente, terra e folhas decompostas das árvores esmigalhando-se debaixo dos sapatos, e então se sentou ao lado dela. Desse ponto alto, havia árvores e mais árvores. Os carvalhos, meramente troncos indistintos ao nível do chão, transformavam-se em mundos complicados de galhos em ascensão ao nível do telhado, seus padrões mais complexos pelas sombras jogadas pelo brilho laranja abaixo.
— Hi ho hi ho — cantarolou Gwenllian em uma voz baixa e desdenhosa. — Você está me procurando em busca de sabedoria?
Gansey balançou a cabeça.
— Coragem.
Ela o avaliou.
— Você tentou parar a guerra do seu pai — disse Gansey. — Esfaqueando o poeta dele na mesa do jantar. Você tinha certeza de que isso não terminaria bem para você. Por que continuou?
Seu ato de bravura havia acontecido centenas de anos atrás. Glendower já não combatia em solo galês há séculos agora, e o homem que Gwenllian tentara matar estivera morto por gerações. Ela estivera tentando salvar uma família que não existia mais; Gwenllian perdera tudo para sentar-se sobre esse telhado da Rua Fox, 300, em um mundo inteiramente diferente.
— Você não aprendeu ainda? Um rei age para que os outros ajam. Nada vem do nada vem do nada. Mas algo faz algo. — Ela desenhou no ar com seus dedos longos, mas Gansey não achou que ela estivesse desenhando algo com a intenção de chamar a atenção do olhar de alguém, exceto o seu. — Eu sou Gwenllian Glen Dŵr, filha de um rei e irmã de uma luz de árvore, e fiz algo para que os outros fizessem algo. Isso é nobre.
— Mas como? — perguntou Gansey. — Como você conseguiu isso?
Ela fingiu esfaqueá-lo nas costelas. Então, quando Gansey olhou para ela pesarosamente, Gwenllian riu de maneira livre e selvagem. Após a alegria de um minuto inteiro, ela disse:
— Eu parei de perguntar como. Eu simplesmente fiz. A cabeça é sábia demais. O coração é todo fogo.
Ela não disse mais nada, e Gansey não perguntou mais nada. Eles estavam sentados um ao lado do outro no telhado, Gwenllian dançando os dedos pelo ar, ele observando as luzes de Henrietta dançarem similarmente no ritmo de alguma linha ley escondida e intermitente. Finalmente, ele disse:
— Você tomaria a minha mão?
Os dedos de Gwenllian pararam de se mover, e ela olhou para ele astutamente, segurando o seu olhar por um longo minuto, como se apostasse com ele para desviar o olhar ou mudar de ideia. Gansey não o fez.
Gwenllian se inclinou para perto, cheirando a cigarros de cravo-da-índia e café, e, para sua grande surpresa, o beijou no rosto.
— Vá com Deus, rei — ela disse, e tomou a sua mão.
No fim das contas, era uma questão muito ínfima e simples. Ele não sentira flashes disso antes na vida, a certeza absoluta. A verdade é que ele seguira se afastando dela. Era uma ideia muito mais aterrorizante imaginar quanto controle ele realmente tinha sobre sua vida. Era mais fácil acreditar que ele era um barco vistoso jogado pelo destino do que capitaneá-lo em pessoa.
Ele o conduziria agora, e, se houvesse rochas próximas da margem, que assim fosse.
— Me diz onde está Owen Glendower — ele disse para a escuridão. Seco e certo, com o mesmo poder que havia usado para comandar Noah e os esqueletos na caverna. — Me mostre onde está o rei corvo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!