5 de julho de 2018

Capítulo 48

Blue estava em uma caverna estranha, baixa, de dimensões imprecisas. A luz por detrás iluminava o chão à medida que este se afastava em declive até um poço repleto de estalagmites.
Não. Não era o chão. Era o teto, refletido.
Ela viu um imenso lago parado. A água espelhava perfeitamente o teto cravejado, escondendo a verdadeira profundidade do lago morto. Havia algo morto e desconcertante a respeito dele. Do outro lado, havia outro túnel, pouco visível na luz sombria.
Blue sentiu um calafrio. Seu ombro doía, pois ela havia caído sobre ele, assim como seu traseiro.
Ela desviou o olhar do lago com apreensão, pois quem poderia saber o que ele continha, e procurou sinal dos outros. Viu sua fera enorme e branca de pé, parada e distante, como uma parte da caverna. E viu o caminho que levava de volta até o lugar onde havia se jogado.
— Você está aqui — disse Blue, aliviada porque não estava sozinha: Ronan estava ali. Era sua luz fantasma, jogada sobre o seu ombro ainda, que iluminava a caverna.
Ele parecia tão distante quanto o alce, os olhos cautelosos, sombrios e estranhos, enquanto saía da escuridão. No entanto, não havia sinal da criatura que o levara até ali.
Subitamente, cheia de desconfiança, Blue abriu o canivete.
— Você é o Ronan real?
Ele desdenhou.
— Estou falando sério.
— Claro, sua idiota — disse Ronan, espiando à sua volta do mesmo jeito desconfiado como ela o olhara minutos atrás, o que deixou Blue um pouco mais segura a seu respeito. Era o lago, ou algo embaixo dele, que a estava deixando nervosa.
— Por que você não precisou montar em nada?
— Eu montei. Ele fugiu.
— Fugiu? Para onde?
Ronan rastejou até chegar mais perto de Blue, então se inclinou para pegar uma pedra solta do chão. Ele a jogou no lago, a mão na cintura. Houve um ruído como se alguém soprasse ar no ouvido deles, e então a pedra desapareceu. Blue viu quando ela atingiu a água e desapareceu — não na água, mas no nada.
Não se formaram ondulações.
— Então, sabe de uma coisa? — Ronan perguntou a Blue. — Foda-se a magia. Foda-se isso.
Blue caminhou lentamente até a beira do lago.
— Ei! Você não me ouviu? Não faça nada estúpido. Ele comeu o meu cervo.
— Só estou olhando — disse Blue.
Ela chegou o mais próximo que a coragem lhe permitiu e então olhou para dentro, tentando ver o fundo.
Mais uma vez, viu o reflexo dourado do teto acima, então a escuridão da água e depois o próprio rosto, os olhos vazios e estranhos.
O rosto de Blue parecia ascender através da água em sua direção, cada vez mais próximo, a pele mais pálida e sem vida, até que ela viu que não era realmente o seu rosto.
Era o de sua mãe.
Seus olhos estavam mortos, a boca caída, as faces encovadas e tomadas pela água. Ela flutuava um pouco abaixo da superfície. O rosto mais próximo, o torso caindo para baixo, as pernas perdidas na escuridão.
Blue sentia que começava a tremer. Era tudo que ela havia sentido após a morte de Persephone. Era a dor ali, naquele momento, queimando-a.
— Não — ela disse em voz alta. — Não. Não.
Mas o rosto de sua mãe continuava flutuando, cada vez mais inerte, e Blue emitiu um ruído agudo e terrível.
Seja sensata — Blue não conseguia fazê-lo. Arraste-a para fora.
Subitamente, ela sentiu braços em torno dela, arrancando-a da beira do lago. Os braços em torno dela também estavam tremendo, mas a seguravam firmemente e cheiravam a suor e musgo.
— Não é real — Ronan lhe disse com a voz baixa. — Não é real, Blue.
— Eu a vi — disse Blue, ouvindo o choro em sua voz. — Minha mãe.
— Eu sei. Eu vi o meu pai — ele disse.
— Mas ela estava lá...
— Meu pai está morto e enterrado. E o Adam viu a sua mãe lá adiante, naquela caverna esquecida por Deus. Esse lago é uma mentira.
Mas parecia real no coração de Blue, mesmo que sua mente soubesse melhor.
Por um momento, eles permaneceram daquele jeito, Ronan a segurando bem junto de si, como seguraria seu irmão Matthew, seu rosto no ombro de Blue. Toda vez que ela pensava em seguir adiante, via o rosto do cadáver de sua mãe de novo.
Finalmente, Blue se afastou e Ronan se pôs de pé. Ele desviou o olhar, mas não antes de ela ver a lágrima que ele limpou do queixo.
— Foda-se isso — ele disse de novo.
Blue fez um grande esforço para que sua voz soasse normal.
— Por que o lago nos mostraria aquilo? Se não era real, por que Cabeswater nos mostraria algo tão horrível?
— Isso não é mais Cabeswater — respondeu Ronan. — Isso está por baixo. O lago pertence a outra coisa.
Ambos olharam de um lado para o outro, procurando uma maneira de atravessar. Mas não havia nada naquele cenário árido e apocalíptico, exceto a presença deles e da grande fera, tão imóvel quanto uma formação natural da caverna.
— Vou olhar de novo — disse Blue finalmente. — Quero ver se enxergo a profundidade real dele.
Ronan não a impediu, mas também não a acompanhou. Blue caminhou até a margem, tentando não tremer com o pensamento de ver sua mãe novamente, ou algo pior. Ela se inclinou, pegou outra pedra solta e, quando chegou à beira, deixou que ela caísse imediatamente, sem esperar que um reflexo emergisse.
A pedra desapareceu logo que atingiu a superfície da água.
Mais uma vez, não se formou nem uma ondulação.
E agora, serenamente, a água começou a formar de novo uma visão para ela, deixando-a flutuar das profundezas.
À medida que o horror aumentava, Blue subitamente se lembrou da lição dos espelhos de Gwenllian.
A magia de espelhos não é nada para os espelhos.
Se um lago morto havia mostrado Maura para ela e o pai de Ronan a ele, então ele não estava criando nada — estava usando os pensamentos deles e os refletindo de volta.
Era apenas uma enorme tigela de divinação.
Blue começou a construir os blocos dentro dela, do mesmo jeito que fizera para desconectar Noah e Adam. Enquanto o rosto do cadáver lentamente ascendia na direção dela, ela o ignorou e continuou.
Blue era um espelho.
Seu olhar estava concentrado sobre a água mais uma vez. Não havia um corpo. Não havia um rosto. Não havia reflexo algum, da mesma maneira que não houvera reflexo nos espelhos de Neeve. Havia apenas a superfície de vidro imóvel da água, e então, forçando a visão para além do reflexo do teto, a superfície irregular e lodosa do lago.
Ele tinha apenas alguns centímetros de profundidade. Cinco ou dez.
Uma ilusão perfeita.
Blue tocou o lábio. Isso a fez se lembrar de Gansey, e ela parou.
— Vou atravessar o lago — ela disse.
Ronan riu de maneira pouco engraçada.
— Ah, fala sério.
— Estou falando sério — Blue continuou. Então, apressadamente: — Mas você não. Não acho que você pode tocar a água. Você iria se dissolver como aquela pedra.
— E você não vai?
Blue olhou para a água. Era inacreditável, realmente, que ela estivesse confiando na sabedoria de uma pessoa maluca.
— Acho que não. Por causa do jeito que eu sou.
— Presumindo que isso seja verdade — disse Ronan —, você vai sozinha?
— Não saia desta margem — disse Blue. — Bem, não para sempre. Mas... prometa que vai ficar aqui por um tempo razoável. Só vou ver como é do outro lado.
— Presumindo que você não desapareça, quer dizer.
Ele não estava melhorando a sua coragem já testada.
— Ronan, para.
Ele nivelou um olhar pesado sobre ela, do tipo que normalmente usava para fazer a cabeça de Noah.
— Se ela estiver do outro lado... — começou Blue.
— Sim, eu sei — ele rosnou. — Ótimo. Espera.
Ele baixou a cabeça, pegou sua luz fantasma e a pendurou no ombro de Blue.
Ela não se deu o trabalho de dizer: Mas você vai ficar esperando no escuro.
Tampouco disse: Se eu desaparecer imediatamente no lago, você vai ter que encontrar o caminho de volta sem enxergar nada. Porque ele já sabia das duas coisas quando deu a luz fantasma para ela.
Em vez disso, Blue disse:
— Sabe de uma coisa? Você não é tão imbecil assim.
— Não — respondeu Ronan —, na verdade eu sou.
Ela se virou para a água, se permitiu o breve regalo de fechar os olhos e balançar a cabeça um pouco, com o medo e o horror do que estava prestes a fazer.
Então deu um passo à frente.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!