15 de julho de 2018

Capítulo 47

A noite caiu; com isso, pelo menos, ainda se podia contar.
Adam abriu a porta do passageiro do BMW. Ronan ainda não tinha se movido um centímetro desde que ele o vira pela última vez; ele ainda mirava adiante, os pés nos pedais, as mãos repousando sobre a direção. Pronto para partir. Esperando por Gansey. Não era luto; era um lugar mais seguro, mais vazio além dele. Adam disse a Ronan:
— Você não pode dormir aqui.
— Não — concordou Ronan.
Adam estava parado na rua escura, tremendo no frio, pisando de um pé a outro, procurando por qualquer evidência de que Ronan pudesse ceder. Era tarde. Adam havia ligado para Boyd havia uma hora para dizer que não cuidaria do Chevelle com vazamento no escapamento que ele prometera ver. Mesmo se ele pudesse se forçar ficar acordado — Adam quase sempre conseguia isso —, ele não seria capaz de seguir trabalhando na garagem sabendo que Cabeswater estava sendo atacada, Laumonier estava conspirando, e Ronan, de luto.
— Você vai entrar e pelo menos comer algo?
— Não — disse Ronan.
Ele era impossível e terrível.
Adam fechou a porta e bateu levemente com o punho três vezes sobre o teto. Então seguiu para o outro lado do carro, abriu a porta, certificou-se de que Noah não estava ali, e entrou.
Enquanto Ronan o observava, Adam se atrapalhou com os controles do assento até encontrar aquele que o fazia reclinar completamente, e então buscou com a mão o blusão da Aglionby de Ronan. Tanto o blusão quanto a Garota Órfã estavam irremediavelmente enrolados entre as outras coisas no banco de trás — a Garota Órfã fungou e empurrou o blusão na direção da sua mão. Ele o enfiou por baixo do pescoço como um travesseiro, largando a manga sobre os olhos para bloquear a luz da rua.
— Me acorde se precisar — ele disse, e fechou os olhos.


Na Rua Fox, 300, Blue observou Gansey se deixar convencer a ficar ali em vez de retornar à Monmouth à noite. Embora houvesse um número mais do que suficiente de camas vazias na casa agora, ele escolheu o sofá, aceitando apenas uma colcha e um travesseiro com uma fronha rosa-clara. Seus olhos não estavam fechados quando ela subiu para o andar de cima e foi para a cama em seu próprio quarto. Tudo parecia silencioso demais dentro da casa, com todo mundo fora, e ruidoso demais lá fora, com tudo ameaçador.
Blue não dormiu. Ela pensou em seu pai se tornando um com uma árvore, e em Gansey sentado no Camaro de cabeça baixa, e a voz sussurrada do sonhador sombrio que ela encontrara na caverna. As coisas pareciam se desenrolar para o fim.
Durma, disse a si mesma.
Gansey dormia em uma sala a quatro metros abaixo dela. Não deveria ter nenhuma importância — não tinha importância. Mas ela não conseguia parar de pensar na proximidade dele, na impossibilidade dele. A promessa de sua morte.
Blue estava sonhando. Estava escuro. Seus olhos não se acostumaram com a escuridão; seu coração, sim. Não havia luz em parte alguma. Estava tão completamente escuro que os olhos não tinham importância. Agora que ela pensava a respeito disso, e não tinha certeza se possuía olhos. Era uma ideia estranha. O que ela tinha?
Umidade fria em seus pés. Não. Suas raízes. Estrelas pressionando acima dela, tão próximas que elas certamente seriam alcançáveis se ela crescesse apenas alguns centímetros. Uma pele de casca quente, vital.
Aquela não era a forma da sua alma. Era do que estivera sentindo falta. Era como se sentia em sua pele humana, sentimentos na forma de uma árvore em um corpo humano. Que alegria lenta, ampliando-se.
Jane?
Gansey estava ali. Ele deveria estar ali o tempo inteiro, porque, agora que pensava a respeito, ela não conseguia parar de senti-lo ali. Ela era algo mais; ele ainda era humano. Ele era um rei roubado de longe para essa árvore, pela tir e e’lint que era Blue. Ela estava por toda a volta dele. A alegria de sua revelação anterior se sobrepôs lentamente nessa alegria. Gansey ainda estava vivo, Blue o tinha consigo. Ela estava tão próxima dele quanto poderia estar.
Onde estamos?
Estamos em uma árvore. Eu sou uma árvore. Você... haha. Não posso dizer. Seria sujo.
Você está rindo?
Sim, porque estou feliz.
Lentamente, a alegria de Blue se arrefeceu, enquanto ela sentia o pulso rápido de Gansey contra ela. Ele estava com medo.
Do que você tem medo?
Não quero morrer.
Isso parecia verdade, mas era difícil reunir pensamentos. Essa árvore era tão inadequada para sua Blueacidade essencial quanto o seu corpo humano. Ela seguia metade uma, metade a outra.
Você consegue ver se o Ronan deixou o carro e entrou em casa?
Posso tentar. Não tenho olhos realmente.
Ela se estendeu com todos os sentidos disponíveis para ela. Eles eram sempre tão melhores quanto os seus sentidos humanos, mas estavam interessados em coisas muito diferentes. Era excepcionalmente difícil concentrar-se nas questões dos humanos em torno da base do tronco. Blue não havia apreciado adequadamente quanto esforço fora exigido das árvores para atender às necessidades deles até agora.
Não sei. Blue o segurou firmemente, amando-o e guardando-o. Podemos simplesmente ficar aqui.
Eu te amo, Blue, mas sei o que preciso fazer. Eu não quero. Mas sei o que preciso fazer.

Um comentário:

  1. Tenho a sensação de que o gansey vai bancar o herói 😓😓

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Boa leitura, E SEM SPOILER!