5 de julho de 2018

Capítulo 47

Eles haviam encontrado um vale de esqueletos.
O poço não era sem fundo, embora fosse vasto e profundo. O fundo era inclinado e mais estreito, e os levava para longe de Gansey e dos outros, fazendo-os escorregar surpreendente e abruptamente para longe da superfície. Sob o olhar difuso da luz fantasma, Adam viu de relance ninhos estranhos pendurados na parede. Ele estendeu as mãos para fora, na tentativa de desacelerar. Os buracos dos ninhos se agitavam com algo escuro e nervoso, mas Adam não conseguia ver o que era. Podiam ser ninhos de insetos, mas então ele ouviu Ronan, escorregando à frente dele, falando rapidamente em latim, e, mesmo enquanto Adam deslizava ao lado deles, os viu transmutando-se para ninhos de pássaros em galhinhos.
Esse era o trabalho deles, percebeu Adam. Era isso que eles tinham a oferecer: tornar o poço seguro para os outros. Era isso que eles haviam prometido: ser os mágicos de Gansey.
Então eles tinham deslizado, e tinham sussurrado e tinham pedido, e juntos haviam convencido Cabeswater a transformar os ninhos em algo inofensivo. Pelo menos por um tempo.
Em seguida foram lançados do fundo do declive para uma caverna.
Agora os outros haviam se juntado a eles, e todos olhavam para o vale debaixo da terra.
Entre eles e a parede oposta distante, havia um rebanho de ossos, uma tragédia de ossos. Havia esqueletos de cavalos e de cervos, esqueletos pequeninos de gatos e esqueletos sinuosos de fuinhas. Todos haviam sido pegos em pleno movimento, todos apontando na direção dos adolescentes parados na entrada do vale.
De certa maneira, o efeito era de assombro, não de terror.
O espaço em si era assombroso também. Era a vasta bacia de uma caverna, duas vezes mais comprida que larga. Raios divinos de luz desciam dos buracos no teto da caverna centenas de metros acima. Diferentemente da caverna que eles haviam deixado para trás havia pouco, esse vale tinha cores: samambaias e musgos buscavam a luz do sol inalcançável.
— Nuvens — sussurrou Blue.
Era verdade; o teto estava tão distante acima que a umidade ficava presa ali, atravessada pelas estalactites.
Adam sentiu como se tivesse caído em um dos sonhos de Ronan.
Gwenllian começou a rir e bater palmas. A risada, uma canção em si, ecoava nas paredes superiores.
— Alguém faz ela calar a boca — disse Ronan. — Antes que eu mesmo faça.
— O que é este lugar? — perguntou Blue.
Adam foi o primeiro a descer.
— Cuidado... — avisou Gansey.
Gwenllian dançava à frente.
— Do que vocês têm medo? De alguns ossos?
Ela chutou um dos esqueletos de gato; ossos voaram. Adam fez uma careta.
— Não faça isso! — disse Blue.
— Os mortos continuam mortos continuam mortos — respondeu Gwenllian, usando um fêmur para quebrar outro esqueleto.
— Nem sempre — avisou Gansey. — Tenha cuidado.
— Sim, pai! — Mas ela se preparou para outro chutão.
— Ronan — disse Gansey bruscamente, e Ronan se mexeu para contê-la, segurando os braços de Gwenllian para trás, sem nenhuma cerimônia.
Adam parou ao lado de uma das feras mais próximas; os ombros dela eram mais altos que ele, seu crânio enorme mais alto ainda, e, acima de tudo, se estendia um conjunto de chifres que pareciam gigantescos até em comparação àquele esqueleto gigante. Era lindo.
A voz de Blue veio bem de perto.
— É um alce irlandês.
Ele se virou e tocou um grande osso branco. Blue correu um dedo ao longo dele de maneira tão carinhosa que parecia até que ele estava vivo.
— Eles estão extintos — ela acrescentou. — Sempre me senti mal porque nunca teria a oportunidade de ver um. Olha quantos deles existem aqui.
Adam olhou; havia muitos. Mas olhar para eles era enxergar além deles, e enxergar além deles era ficar estupefato novamente com aquele espetáculo de ossos. Mil animais, suspensos nos cascos. Isso lhe lembrava algo, embora Adam não conseguisse saber o que era.
Ele esticou o pescoço para olhar para a entrada, então para Ronan e Gwenllian. Gansey caminhava entre os esqueletos como se estivesse sonhando, seu rosto tomado pelo assombro e pela cautela. Ele tocou o pescoço arqueado de uma criatura esquelética com respeito, e Adam se lembrou de Gansey dizendo a Ronan que jamais deixava um lugar em pior situação por ter passado lá. Adam compreendeu, então, que o assombro de Gansey e Blue mudou o lugar. Ronan e Adam talvez tivessem visto aquele lugar como mágico, mas o assombro de Gansey e Blue o tornou sagrado. Ele se tornou uma catedral de ossos.
Eles caminharam lentamente através do vale, procurando respostas e pistas. Não havia outra saída para o ambiente. Só aquele vasto espaço, e um regato correndo pelo chão e desaparecendo por baixo de uma parede rochosa.
— Qual o sentido disso?
— Truques e mais truques — rosnou Gwenllian. — Todos valentes, jovens e belos... Todos nobres e verdadeiros...
— Quem quer que venha a tirar esta espada desta pedra — murmurou Gansey. Blue anuiu. — Isso é um teste.
— Nós os despertamos — disse Ronan subitamente, soltando Gwenllian. — Esse é o teste, não?
— Não é o meu teste, corajoso cavaleiro, senhor — disse Gwenllian. — Sua vez. — Ela imitou um caubói atirando nele.
Os olhos de Blue miravam o alce irlandês; ela estava bastante fascinada com ele.
— Como você desperta ossos?
— Da mesma maneira que despertaria um sonhador — Gwenllian chiou para Ronan. — Se você não consegue despertar esses ossos, como espera fazer com que o meu pai se levante? Mas o que vejo em seus ombros? Ah, fracasso é o que você está usando ultimamente, eu compreendo... Combina com seus olhos. Você tentou isso antes, sonhador fracassado, mas tem mais paixão do que precisão, não é?
— Para — disse Gansey, de tal maneira que todos pararam e olharam para ele.
Não havia raiva em sua voz, não havia injustiça. Ele parou ao lado de uma enorme parelha de esqueletos de cervos machos, seus ombros endireitados e seus olhos sérios. Por um momento, Adam viu o presente, mas também viu o passado e o futuro, estendendo-se como quando Persephone o inspirara a ver sua própria morte. Ele viu Gansey ali naquele instante, mas de certa maneira em todos os instantes, prestes a deixar aquele momento, ou apenas prestes a entrar nele, ou vivê-lo.
Então seus pensamentos se desviaram e o tempo andou novamente.
— Pare de irritar os outros, Gwenllian — disse Gansey. — Você acha que é a única aqui com o direito de se sentir amargurada? Por que você não usa suas habilidades de enxergar além para encorajar em vez de destruir?
— Eu gostaria de enxergar bastante o que acontece no íntimo de todos os rapazes aqui — disse Gwenllian. — Você poderia ser o primeiro a se candidatar à minha atenção, se quisesse.
Então Gansey revirou os olhos e suspirou de maneira muito pouco digna de um rei.
— Ignorem essa mulher. Adam, me dê uma ideia.
Adam era sempre chamado, mesmo quando não levantava a mão. Ele pensou nos fracassos de Ronan, no momento no alto da montanha, com Blue e Noah, e finalmente se lembrou do que Persephone havia dito a respeito do poder de três. Então disse:
— Ronan, você trouxe o seu objeto de sonho?
Ronan gesticulou para a bolsa pendurada abaixo da luz de sonho.
— O quê? — perguntou Blue.
Adam fez um gesto com a mão como se não fosse o momento para explicações.
— Lembra da Barns? Tente despertá-los como as vacas, Ronan. Vou ver se posso redirecionar a linha ley para fornecer mais energia para você; a Blue vai amplificar. Gansey, você pode... mover pedras?
Gansey anuiu em aprovação. Ele não compreendia o plano, mas não precisava: ele confiava no julgamento de Adam.
Ronan soltou sua bolsa, desembrulhando com cuidado seu objeto de sonho do cobertor de lã polar, agora bastante sujo. Ele o escondeu quase completamente enquanto Adam se agachava, pressionando os dedos contra a rocha. Ele soube tão logo a tocara que eles não estavam mais realmente em Cabeswater; haviam passado por baixo dela. No entanto, a linha ley ainda estava lá, e, se eles movessem algumas pedras, ele poderia apontá-la para os esqueletos.
— Blue, Gansey, me ajudem — ele pediu.
Gwenllian os observava com os lábios encrespados.
— Você podia ajudar também — ele lhe disse.
— Não — ela respondeu. — Eu não poderia.
Ela não disse que não poderia ajudá-lo, mas ficou subentendido.
Gansey nem se preocupou em chamar a atenção dela dessa vez. Simplesmente trabalhou com Blue para mover as pedras que Adam indicava. Então eles voltaram à fera bem à frente do rebanho.
Ronan esperou com o objeto de sonho, olhos desviados. Então, enquanto eles ficavam à sua volta, ele assoprou sobre o topo da palavra de sonho, como havia feito na Barns.
Sua respiração passou através dela e seguiu para os esqueletos.
Houve silêncio.
Mas Adam podia senti-lo. Aquele vasto vale subterrâneo estava carregado de energia, pulsando com vida. Ela murmurava contra as paredes. Voava de osso em osso em cada esqueleto, e de um esqueleto a outro. Eles queriam saltar; eles se lembravam da vida. Eles se lembravam de seus corpos.
Mas ainda havia silêncio.
Adam sentiu o poder da linha ley o sacudindo e o puxando, amplificado por Blue. A energia não o estava destruindo, mas estava se dispersando. Adam não era o melhor receptor para essa energia, e ele não seria capaz de mantê-la concentrada por muito mais tempo.
Os lábios de Blue estavam apertados, e Adam sabia que ela também estava sentindo aquilo.
Por que não estava funcionando?
Talvez a questão fosse idêntica àquela da Barns. Eles estavam próximos, mas não o suficiente. Talvez Gwenllian estivesse certa; eles não eram dignos.
Gwenllian estava se afastando deles, recuando com os braços abertos para os lados, os olhos dardejando de fera para fera, como se esperasse que uma delas quebrasse primeiro, e ela quisesse ser testemunha disso.
Gansey franziu o cenho enquanto examinava os rebanhos e bandos, Gwenllian e a luz corrente, seus amigos congelados em uma batalha invisível.
Adam não conseguia deixar de ver seu rei falível, pendurado no poço de corvos.
Gansey tocou o lábio inferior muito delicadamente. Ele baixou a mão e disse:
— Acordem.
Ele o disse como havia dito pare antes. Ele o disse em uma voz que Adam tinha ouvido incontáveis vezes, uma voz que ele jamais conseguiria não ouvir.
As feras acordaram.
Os cervos e os cavalos, os leões e os falcões, as cabras e os unicórnios, e as criaturas que Adam não sabia nomear.
Em um momento eram ossos, e no próximo eram inteiros. Adam perdeu o momento da transformação. Era como Noah, de fantasma manchado para garoto, de impossível para possível. Cada criatura estava viva, bruxuleante e mais bela que qualquer coisa que Adam poderia ter imaginado.
Eles empinavam, guinchavam, ganiam e saltavam.
Adam podia ver o peito de Gansey arfar em descrença.
Eles tinham conseguido. Tinham conseguido.
— Nós temos que ir! — gritou Blue. — Olhem!
As criaturas estavam indo embora a galope. Não como uma, mas como uma centena de mentes distintas com um objetivo: passar pela abertura de uma caverna que havia surgido do outro lado do vale, que tinha o aspecto de uma boca aberta que lentamente se fechava. Se eles não passassem logo por ela, ela desapareceria.
Mas nenhum ser humano podia correr tão rápido.
— Este! — gritou Blue, se jogando sobre o alce irlandês. Ele balançou os chifres enormes e corcoveou, mas ela seguiu firme.
Adam não conseguia acreditar.
— Sim... — disse Ronan, se esforçando para agarrar um cervo, então outro, antes de pegar os pelos em torno do pescoço de uma criatura primitiva e se jogar sobre ela.
No entanto, fazer isso na teoria era mais fácil que na prática. As feras eram rápidas e ariscas, e Adam se viu segurando punhados de pelo. A alguns metros dali, ele viu Gansey, frustrado, mostrar-lhe a palma da mão coberta de pelos, também. Gwenllian ria e corria atrás das criaturas, batendo as mãos e as tocando.
— Corram, criaturinhas! Corram! Corram!
Adam subitamente foi lançado para frente, o ombro dolorido, como se alguma criatura tivesse saltado sobre ele e o acertado. Ele rolou, cobrindo a cabeça. Outro casco o acertou. Então ele pensou em seu velho professor de latim pisoteado até a morte em Cabeswater.
A diferença é que Cabeswater não deixaria Adam morrer.
Entretanto, ela o deixaria se machucar. Ele cambaleou para sair do caminho e se pôs de pé.
— Adam — disse Gansey, apontando.
Os olhos de Adam encontraram o que o amigo estava gesticulando para mostrar: as feras de Ronan e Blue saltando através da estreita passagem da caverna, um instante antes de ela desaparecer.

3 comentários:

  1. As vezes eu me surpreendo como a Blue e o Ronan são bons numas coisas nada a ver. Tipo, eles simplesmente montaram em animais selvagens que estavam correndo em debandada e ficaram dboa

    ResponderExcluir
  2. Acontece umas coisas bem fora do comum nesse livro kkk to gostando

    ResponderExcluir
  3. A Blue e o Ronan juntos, vão colocar abaixo a caverna toda

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!