5 de julho de 2018

Capítulo 46

Blue Sargent estava com medo.
Existem muitas palavras boas para o oposto de com medo. Destemida, corajosa, intrépida. Alguns poderiam sugerir audaz ou valente.
Mas Blue Sargent era valente porque tinha medo.
Se Persephone podia morrer, qualquer pessoa podia. Maura podia morrer. Gansey podia morrer. Não precisava haver cerimônia ou presságio. Poderia acontecer em um instante.
Eles foram a Cabeswater mais uma vez. Calla foi junto, mas eles estavam sem Malory, que ainda não havia voltado, sem o sr. Cinzento, que havia desaparecido sem explicação, e sem Noah, que havia aparecido apenas como um breve sussurro no ouvido de Blue naquela manhã.
Mais uma vez, eles estavam preparados com o equipamento de segurança e capacetes, e apenas dessa vez Adam e Ronan liderariam o caminho até o poço. Isso havia sido ideia de Adam, rapidamente apoiada por Ronan. Cabeswater não deixaria Adam morrer por causa da barganha, e ela protegeria Ronan por razões desconhecidas.
Estava escuro. Os faróis do BMW de Ronan e do Camaro de Gansey venciam apenas alguns metros na cerração que subia do campo úmido nas cercanias de Cabeswater. Parecia impossível que fosse o mesmo dia que Persephone havia morrido. Como alguns dias continham tantas horas?
Do lado de fora dos carros, Blue implorou para Calla:
— Por favor, fique aqui e faça companhia para o Matthew.
— De jeito nenhum, sua medrosa. Eu vou com vocês — disse Calla. — Não vou deixar você fazer isso sozinha.
— Por favor — disse Blue novamente. — Eu não estou sozinha. E não vou suportar se você...
Ela não terminou. Ela não conseguia dizer se você morrer também.
Calla colocou as mãos nas têmporas de Blue, alisando seu cabelo não alisável. Blue sabia que ela estava sentindo tudo o que a garota não conseguia dizer, mas não se importava com isso. Palavras eram impossíveis.
Calla estudou os olhos de Blue. Seus dedos estudaram a alma de Blue.
Por favor confie em mim por favor fique aqui por favor confie em mim por favor fique aqui por favor não morra
Finalmente, Calla disse:
— Aterramento. Eu sou boa em aterramento. Vou ficar aqui e vou aterrar você.
— Obrigada — sussurrou Blue.
Dentro de Cabeswater era cerração e mais cerração. Ronan cumprimentou as árvores enquanto se deslocava em uma redoma de luz estonteante lançada da iluminação de sonho que ele trouxera da Barns. Adam a chamara de luz fantasma, e o nome parecera apropriado.
Ronan pediu respeitosamente por uma travessia segura.
O pedido fez com que Blue se lembrasse de uma reza.
As árvores farfalharam em resposta, folhas invisíveis se movendo na noite.
— O que elas disseram? — perguntou Gansey subitamente. — Elas não acabaram de dizer para termos cuidado?
— O terceiro adormecido. Elas nos avisaram para não acordá-lo — disse Ronan.
Eles entraram na caverna.
No caminho de descida do túnel até o poço, Gwenllian cantou uma canção a respeito de se provar merecedora de um rei.
Eles se aprofundaram mais ainda.
Gwenllian ainda estava cantando, agora sobre deveres, julgamentos e potenciais cavaleiros. As mãos de Adam se fechavam e se abriam nos fachos de luz das lanternas de cabeça em movimento.
— Por favor, cala a boca — disse Blue.
— Chegamos — disse Ronan.
Gwenllian se calou.
Adam se juntou a Ronan na beira do precipício, os dois espiando para dentro como se pudessem ver o fundo. A luz em torno deles era curiosa e dourada, lançada não apenas pelas lanternas de mão e de cabeça, mas também pela luz fantasma.
Adam murmurou algo para Ronan. Ronan balançou a cabeça.
— Ainda sem fundo? — A voz de Gansey veio lá de trás.
Ronan soltou a luz fantasma do seu ombro, onde ela estava pendurada como uma bolsa a tiracolo, e a amarrou em uma das cordas de segurança.
Blue estava com mais medo do que antes. Era mais fácil não ter medo quando era você que fazia as coisas temíveis.
— Baixe isso lá dentro — ordenou Ronan para Adam. — Vamos dar uma olhada lá embaixo, certo?
Os dois garotos ficaram ali por longos minutos, balançando a luz fantasma no poço. Faixas de luz cortavam o espaço desordenadamente de um lado para o outro acima do poço enquanto eles faziam isso. Mas eles pareceram insatisfeitos com os resultados. Adam se inclinou para frente, Ronan agarrou seu braço firmemente, e então os dois se voltaram para onde os outros esperavam.
— Não consigo ver nada — disse Adam. — Não há o que fazer a não ser entrar.
— Por favor... — Gansey começou, então parou. — Tenham cuidado.
Adam e Ronan se entreolharam e então miraram o poço. Eles pareciam encantadores e valentes, confiantes em Cabeswater ou um no outro. Não pareciam temerosos, então Blue estava com medo por eles.
— Diga — Ronan pediu a Gansey.
— Dizer o quê?
— Excelsior.
— Isso é adiante e acima — disse Gansey. — Tem conotação de ascensão. O que vocês vão fazer é o contrário.
— Ah, bem — disse Ronan. — Abóbora um, abóbora dois, abóbora três e por aí vai...
Então ele desapareceu no buraco, sua voz ainda audível.
— Não vou cantar junto! — disse Adam, mas seguiu Ronan para dentro do poço.
A voz de Ronan cantava e cantava, e então subitamente foi interrompida.
Houve silêncio.
Um silêncio total, do tipo que você só consegue em um buraco no chão.
Então houve um ruído de escorregão, como pedrinhas quicando sobre a rocha.
E mais silêncio.
— Jesus — disse Gansey. — Não vou suportar isso.
— Preocupação é fraqueza, rei — disse Gwenllian com uma voz fina.
Silêncio.
Então um grito rouco, entrecortado, em uma voz irreconhecível. Adam, ou Ronan, ou totalmente outra coisa.
Gansey emitiu um som terrível e pousou a testa contra a parede. A mão de Blue se lançou no mesmo instante para segurar a mão dele firmemente.
Ela não conseguia suportar aquilo também, mas não havia nada a fazer a não ser suportar. Dentro dela, aquele medo novo, sombrio, cresceu, o conhecimento de que a morte acontecia em um instante e para qualquer um. Ronan e Adam podiam estar mortos e não haveria um terremoto. Não haveria fanfarra.
O terror parecia encher seu estômago de sangue.
Eles confiavam em Cabeswater?
Essa era a questão.
Será que aquele poço ia além do alcance de Cabeswater?
Essa era a segunda questão.
— Não vou conseguir viver com isso — disse Gansey. — Se alguma coisa aconteceu.
— Você nunca será um rei — disse Gwenllian. — Você não sabe como a guerra funciona?
Mas seu amargor não era realmente por Gansey; era uma chacota com alguém que a havia enterrado ou sido enterrado com ela fazia muito tempo.
Subitamente, uma voz veio lá de baixo:
— Gansey?
— Adam — gritou Gansey. — Adam?
A voz subiu novamente:
— Estamos voltando para mostrar a vocês o caminho aqui para baixo!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!