15 de julho de 2018

Capítulo 45

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito ao Homem Cinzento.
O Homem Cinzento gostava de reis.
Ele gostava de reis oficiais, do tipo que tinha o título, a coroa e tudo o mais, mas também gostava de reis não oficiais, que governavam, lideravam e administravam sem nenhuma descendência nobre ou trono de verdade. Ele gostava de reis que viviam no passado e reis que viviam no futuro. Reis que haviam se tornado lendas somente depois da sua morte, reis que haviam se tornado lendas durante a sua vida, e reis que haviam se tornado lendas sem nem ter vivido. Seus favoritos eram os reis que usavam o seu poder na busca do conhecimento e da paz em vez do status e da propriedade, que usavam a violência somente para criar um país que não precisava viver pela violência. Alfred, o rei que o Homem Cinzento mais idealizava, representou o epítome disso, tendo conquistado os reinos querelantes menores da Inglaterra anglo-saxônica para criar um país unificado. Quão intensamente o Homem Cinzento admirava um homem desses, mesmo tendo se tornado um assassino em vez de um rei.
Não deixava de ser interessante que ele não conseguisse lembrar bem a respeito de sua decisão de se tornar um assassino.
O Homem Cinzento se lembrava das porções acadêmicas de sua vida como um historiador lá em Boston: as palestras, as dissertações, as festas, os arquivos. Reis e guerreiros, honra e wergild.* Ele se lembrava dos Greenmantle, é claro. Mas todo o resto era difícil de recordar. Era difícil discernir o que era uma memória verdadeira e o que era meramente um sonho. Na época, ele havia enfileirado um dia cinzento no outro, e parecia provável que ele tivesse perdido semanas, meses ou anos a essa dissociação brumosa. Em algum lugar por aqueles tempos, alguém havia sussurrado a palavra mercenário, e, em algum lugar por aqueles tempos, alguém havia descartado a sua identidade e se tornado o Homem Cinzento.
— O que nós queremos encontrar aqui? — Maura lhe perguntou.
Eles estavam no carro juntos, dirigindo-se para Singer’s Falls. A presença de apenas duas partes de Laumonier no supermercado estivera corroendo o Homem Cinzento por dentro desde que ele os havia deixado, e ele passara boa parte da noite em uma busca dedicada pelo terceiro e mais desagradável irmão. Agora, embora tivessem perdido de vista o seu carro de aluguel, eles continuavam na direção da Barns.
— Não queremos encontrar nada — disse o Homem Cinzento. — Mas temos esperança de encontrar Laumonier revirando os armários de Niall Lynch.
A parte do Homem Cinzento que costumava ser um assassino não se entusiasmava com a ideia de Maura insistir em acompanhá-lo; a parte dele que estava bastante apaixonada por ela sentia-se profundamente satisfeita.
— Ainda nenhuma resposta do Ronan — disse Maura, espiando o telefone do Homem Cinzento.
Blue havia dito a eles naquela manhã que Ronan Lynch e Adam Parrish estavam trabalhando na Barns.
— É possível que ele não atendesse o meu número — contestou o Homem Cinzento. Também era possível que ele estivesse morto. Laumonier podia ser muito difícil quando pressionado.
— É possível — ecoou Maura, franzindo o cenho.
Eles encontraram a Barns parecendo idílica como sempre, com apenas dois carros na área de cascalho — o BMW Lynch e o calhambeque tricolor Parrish. Não havia sinal do carro alugado de Laumonier, mas isso não significava que ele não estivesse estacionado próximo e tivesse chegado a pé.
— Não me fala para ficar no carro — disse Maura.
— Não sonharia isso — ele respondeu, abrindo a porta lentamente para evitar prendê-la em uma ameixeira ainda dando ameixas bem à vista. — Um carro estacionado é um local vulnerável.
Ele trouxe a arma consigo e Maura colocou o telefone no bolso de trás. Eles tentaram a porta da frente — destrancada. Levou muito pouco tempo para descobrirem Adam e Ronan na sala de estar. Eles não estavam mortos.
Mas também não estavam bem vivos. Ronan Lynch estava desacordado no sofá de couro esmaecido, e Adam Parrish estava desmaiado ao lado da lareira. Uma garota jovem estava sentada absolutamente ereta na frente de uma tigela de cachorro, sem piscar. Ela tinha cascos. Nenhum dos ocupantes da sala respondeu à voz de Maura.
O Homem Cinzento percebeu-se estranhamente afetado pela visão deles nesse estado, o que parecia contraditório, levando-se em consideração que ele havia matado o pai de Ronan. Mas era precisamente por ter matado Niall que ele agora sentia a responsabilidade e a culpa uivando nos corredores do seu coração. Ele era o seu próprio homem agora, e, em sua posição como a ferramenta de outra pessoa, ele havia deixado Ronan e a Barns sem um protetor.
— Isso é mágica ou veneno? — perguntou o Homem Cinzento a Maura. — Laumonier adora venenos.
Maura se inclinou sobre a tigela de adivinhação antes de se encolher para longe dela.
— Acho que é mágica. Não que eu saiba mexer em qualquer tipo de mágica em que eles estejam envolvidos.
— Será que devemos sacudir esses dois? — ele perguntou.
— Adam, Adam, volte. — Ela tocou o rosto dele. — Não quero despertar o Ronan, caso ele esteja mantendo a alma do Adam por perto. Acho que... Vou entrar e buscar o Adam. Segure a minha mão. Não me deixe ir por mais do que, vamos ver, noventa segundos.
— É perigoso?
— É como a Persephone morreu. O corpo não pode viver com a alma muito distante dele. Não pretendo perambular por aí. Se ele não estiver próximo, vou voltar.
O Homem Cinzento confiava que Maura conhecesse seus próprios limites, assim como ele presumia que ela confiasse nele. Ele colocou a arma no chão ao lado do pé — fora do alcance fácil da garota, se é que ela era isso — e pegou a mão de Maura.
Ela se inclinou para dentro da tigela de adivinhação, e, quando seus olhos ficaram vazios, ele começou a contar. Um, dois, três...
Adam arfava e se contorcia. Uma mão se estendeu agitada para cima, tentando agarrar um apoio que não estava ali, as unhas arranhando contra o reboco em um ataque insuficiente. Seu olhar se direcionou para o Homem Cinzento com um esforço evidente.
— Acorde-o — ele disse em uma voz arrastada. — Não deixe que ele fique por lá sozinho! — A garota com cascos saltou de sua posição sem preguiça alguma. (Talvez, pensou o Homem Cinzento em retrospectiva, na realidade ela não estivesse adivinhando nada, e, em vez disso, permanecera absolutamente imóvel como uma camuflagem quando Maura e o Homem Cinzento chegaram a casa, um pensamento sombrio, mas perfeitamente plausível). Ela lançou os braços em torno de Ronan, onde ele estava esparramado, então começou a agitá-lo, as mãos abertas contra as suas faces, batendo em seu peito e falando o tempo inteiro em algo que soava como latim, mas não era. Então algo peculiar aconteceu. Em princípio, o Homem Cinzento sabia o que estava acontecendo, mas era uma situação muito diferente ver o fato ocorrer diante de seus olhos.
Ronan Lynch trouxe algo de volta dos seus sonhos.
Nesse caso: sangue.
Em um momento, ele estava adormecido, e no seguinte, desperto, as mãos banhadas de sangue ressecado. O cérebro do Homem Cinzento se deslocou com dificuldade entre esses momentos, e ele sentiu que havia removido a imagem mais difícil, a que ficava no meio.
Adam havia se colocado cambaleante de pé.
— Traga a Maura de volta! Você não faz ideia...
Sim, noventa segundos, tinham se passado noventa segundos. O Homem Cinzento usou a mão de Maura para puxá-la para longe da tigela de adivinhação, e, como havia feito apenas uma imersão superficial, ela retornou para ele imediatamente.
— Ah, não — ela disse. — É terrível. É tão terrível! O demônio... ah, não.
Ela olhou imediatamente para Ronan sobre o sofá. Ele não havia se movido nem um milímetro, embora suas sobrancelhas tivessem assumido uma expressão mais intencional sobre seus olhos fechados. Não havia muito sangue em seu exterior, em comparação com a quantidade de sangue que um ser humano geralmente carregava dentro de si, mas, mesmo assim, havia algo de fatal a respeito dessa exibição. Era a combinação de sangue e lama, pedaços de ossos e vísceras grudados nos punhos das mãos.
— Puta merda — disse Adam veementemente. Ele tinha começado a tremer, embora seu rosto não tivesse mudado.
— O Ronan está machucado? — perguntou Maura.
— Ele não se mexe logo em seguida — disse Adam. — Quando ele traz algo de volta. Dê um segundo para ele. Puta merda! A mãe dele está morta.
— Olha! — gritou a garota. E foi isso, e somente isso, que evitou que o Homem Cinzento morresse quando Laumonier apareceu em um canto com uma arma.
Laumonier não hesitou nem por um segundo quando viu o Homem Cinzento: vê-lo nesse contexto era atirar nele.
O som foi maior do que a sala.
A garota soltou um guincho que não tinha nada a ver com o som que uma garota humana faria e tudo com o som que um corvo faria.
O Homem Cinzento tinha se lançado ao chão imediatamente, levando Maura consigo. Ele percebeu, naquele mero segundo sobre as tábuas desgastadas do assoalho, que estava diante de uma escolha.
Ele poderia tentar desarmar essa parte do Laumonier, tornando a área segura, e agora que Greenmantle estava morto, não deveria haver disputa alguma entre os dois. Não era algo tão impossível quanto soava: o Homem Cinzento tinha uma arma bem à mão também, e Adam Parrish já havia provado ser um sujeito extremamente frio e engenhoso. Uma negociação como essa deixaria a Barns aberta ao interesse de Laumonier, é claro, e assim que ele colocasse os olhos na garota com os cascos, esse interesse seria imorredouro. Essa parte do mundo — e com ela a Rua Fox, 300, Maura e Blue — estaria para sempre vulnerável à ameaça, a não ser que eles fugissem como Declan e Matthew haviam fugido. Se escolhesse esse caminho, ele seria obrigado a andar constantemente vigilante para protegê-las das partes interessadas. Constantemente na defensiva.
Ou o Homem Cinzento poderia atirar em Laumonier.
Seria uma declaração de guerra. As outras duas partes de Laumonier não deixariam que isso passasse incólume. Mas talvez uma guerra fosse o que esse negócio desvirtuado precisava. Ele vinha se degenerando em uma perigosa anarquia de becos, porões, raptos e assassinos desde há algum tempo antes dele, e havia se tornado somente mais ingovernável. Talvez o negócio precisasse de alguém para impor algumas regras de cima para baixo, para colocar esses reis enxovalhados na linha. Mas não seria fácil, levaria anos e não havia uma versão que permitisse que o Homem Cinzento ficasse com Maura e a sua família. Ele teria de levar o perigo para outra parte, e mais uma vez teria de se jogar naquele mundo.
Ele queria muito ficar nesse lugar onde ele havia começado a colocar a violência de lado. No lugar onde ele havia aprendido a sentir novamente. Nesse lugar que ele amava.
Apenas um segundo havia se passado.
Maura suspirou.
O Homem Cinzento atirou em Laumonier.
Ele era um rei.


Nota
* Dinheiro que era pago na Inglaterra anglo-saxã e outros países germânicos aos parentes de uma vítima de assassinato como forma de compensação e para evitar a violência de represálias. (N. da T.)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!