5 de julho de 2018

Capítulo 45

— Tudo bem, estamos partindo — disse Greenmantle. — Emergência familiar. De volta para Boston. Arrume as malas. Ligue para suas amigas. Você se livrou do clube do livro.
Piper estava pegando a bolsa.
— Não, vou sair com os homens.
— Os homens!
— Sim — disse Piper. — Aquele Homem Cinzento horrível dirige um carro branco? Um daqueles carros de corrida de garotos? Você sabe, com a asa atrás. Será que é para demonstrar o membro grande do motorista? Porque acho que um desses tem me seguido. Quer dizer, ha, mais que o normal, porque, por favor... — Ela jogou o cabelo para o lado.
— Não quero falar do Homem Cinzento — disse Greenmantle. — Quero falar da sua bagagem.
— Não vou fazer as malas. Acho que encontrei algo — disse Piper.
Greenmantle lhe mostrou o envelope.
Ela não parecia tão impressionada quanto ele. E disse:
— Ah, por favor. Se eu encontrar o que eu acho que vou encontrar, fazer com que isso suma de vista vai ser brincadeira de criança. Piadas à parte. Ah, foi mal. — Ela riu. — Tudo bem, estou saindo.
Com os homens. Greenmantle se levantou.
— Vou com você. Vou te convencer a voltar comigo ao longo do caminho.
Não tinha como Piper encontrar algo que neutralizasse aquele envelope. A única coisa que ela poderia encontrar eram aulas de exercícios da moda e cães sem pelo.
— Como quiser. Coloque umas botas.
O destino de Piper para aquela noite envolvia se encontrar com dois capangas que Greenmantle havia contratado. Na realidade, eles não eram tão durões quanto Greenmantle imaginara. Um dos homens se chamava Morris, e um problema com pensão alimentícia o levara para a vida de crime. O outro atendia pelo nome de Besta, e... bem, na realidade, ele era exatamente tão durão quanto Greenmantle imaginara.
Ambos trataram Piper como se ela soubesse do que estava falando.
— Me mostrem o que conseguiram — Piper lhes disse.
Morris e Besta a levaram a uma fazenda decadente bem na hora do pôr do sol. Mesmo sob os faróis do carro, era fácil dizer que a propriedade vira dias melhores. A varanda estava arqueada. Alguém havia tentado melhorá-la plantando uma fileira de flores alegres na frente.
Besta e Morris os conduziram pela fazenda, através de um campo. Eles tinham toda sorte de equipamentos. Piper tinha toda sorte de equipamentos. Greenmantle tinha botas. Ele se sentia como uma quarta direção em um veículo que não deveria ter, na realidade, quatro direções.
Ele olhou sobre o ombro para se certificar de que o Homem Cinzento, sempre presente sobre seu ombro, não estava, realmente, parado perto dele.
— Não tenho experiência na prática de crimes — disse Greenmantle enquanto eles atravessavam o campo a pé —, mas será que não devíamos ter estacionado em algum lugar mais escondido? — E acrescentou para Besta: — Mais dissimulado?
— Ninguém mora aqui — Besta grunhiu. Greenmantle se sentia ao mesmo tempo horrorizado e impressionado com a natureza subsônica da sua voz.
Morris, aparentemente bem mais culto, acrescentou:
— Nós estivemos aqui mais cedo, conferindo tudo.
Os dois homens... os capangas... o capanga e Morris os levaram até uma construção de pedra. Greenmantle achou que ela não tinha telhado, mas então, após um segundo, seus olhos se ajustaram e ele viu que era uma torre de pedra que se estendia noite adentro. Ele não tinha certeza por que uma torre como essa existia no meio da Virgínia caipira, mas pelo menos era interessante, e ele gostava de interessante.
— A caverna está aqui — disse Morris. Havia um cadeado na porta, mas ele já havia sido arrombado, presumivelmente pelos molares da Besta.
— E essa caverna parece casar com a descrição que eu lhe passei? — perguntou Piper.
— Por que você tem a descrição de uma caverna? — perguntou Greenmantle.
— Cale-se antes que você se machuque — ela lhe disse carinhosamente.
— Sim — disse Morris. — Eu não vi nenhuma porta do jeito que você descreveu, mas não nos aprofundamos muito nela. — Ele empurrou a porta e a abriu enquanto a Besta ligava um holofote enorme.
A luz iluminou um homem imenso sentado na entrada da caverna. Ele tinha uma espingarda sobre os joelhos.
— ESTOU DIZENDO QUE ESSA CAVERNA É AMALDIÇOADA — o homem lhes disse. — ACHO MELHOR VOCÊS IREM EMBORA DE UMA VEZ. O ATALHO É PELO CAMPO.
Piper olhou para Morris e a Besta.
— Esse cara estava aqui da última vez que vocês vieram?
— Não, senhora — respondeu Morris. — Senhor, nós vamos entrar na caverna, na boa ou na ruim. Certo?
Isso ele disse com um olhar de relance para Piper.
— Certo — ela respondeu. — Mas obrigada pelo aviso.
O cenho enorme do homem se franziu.
— EXISTEM COISAS AÍ DENTRO QUE VOCÊS NÃO DEVEM PERTURBAR.
Greenmantle, temeroso de que o homem o identificasse mais tarde, deu um passo cuidadoso para trás, adentrando as sombras para esconder o rosto.
Ele recuou diretamente no peito de outra pessoa.
— Colin — disse o Homem Cinzento. — Estou desapontado. Você não leu o envelope?
— Ah, pelo amor de Deus — lamentou Greenmantle. — Isso não foi ideia minha.
— Você — disse Piper.
— Sim — concordou o Homem Cinzento. Ele estava, estranhamente, tão bem equipado quanto Piper, como se também estivesse prestes a entrar em uma caverna. — Sr. Dittley, como vai?
— TUDO BEM, EU ACHO.
O Homem Cinzento disse:
— Chegou a hora do resto de vocês ir embora.
— Não, quer saber de uma coisa? — demandou Piper. — Estou mais do que cansada de você aparecer e colocar pressão. Eu estava aqui primeiro e tinha planos. Homens, façam coisas de homem.
Greenmantle não fazia a menor ideia do que ela queria dizer, mas Morris e Besta partiram imediatamente para cima do Homem Cinzento enquanto Dittley ficava de pé.
O Homem Cinzento despachou Besta para o túmulo ou a enfermaria em decepcionantes dois segundos. Foi Morris que demonstrou ser um rival mais à altura. Eles lutaram em silêncio, somente respirações machucadas e socos suspirados, enquanto Jesse Dittley largava sua arma e segurava os punhos de Greenmantle como uma criança petulante.
— Todo mundo larga tudo — disse Piper.
Ela apontava uma arma para a cabeça do Homem Cinzento. Uma arma prateada. Greenmantle ainda não achava que ela parecesse tão perigosa quanto as armas pretas, mas os outros claramente achavam. O Homem Cinzento estreitou os olhos, mas soltou Morris.
Ela parecia bastante presunçosa a respeito disso. Para o Homem Cinzento, Piper disse:
— E aí, como se sente? Ótimo? Lembra quando você colocou uma dessas na minha cabeça? É. Uma babaquice de se fazer.
A expressão do Homem Cinzento não mudou. Era possível que ele não tivesse uma expressão de temor.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou Greenmantle à esposa. — Você conseguiu uma para mim?
Piper olhou para ele de maneira fulminante e inclinou bruscamente o queixo.
— Pega aquela.
Ela se referia à espingarda de Jesse Dittley, que ele havia largado para segurar Greenmantle. Ocorreu a Greenmantle que virtude sem sentido era a piedade. Se Jesse Dittley tivesse simplesmente atirado em Greenmantle antes, ele não estaria segurando a sua espingarda agora.
Greenmantle apontou a arma para o peito de Jesse Dittley. Ele detestava tudo isso profundamente. Não gostava de fazer as coisas ele mesmo. Gostava de contratar pessoas para fazer as coisas por ele. Gostava de manter suas impressões digitais para si mesmo. E não gostava da prisão.
Ele culpou Piper por tudo.
— Sai do meu caminho — ele disse, então desejou que tivesse pensado em uma frase de maior impacto.
— NÃO POSSO DEIXAR VOCÊ FAZER ISSO.
Greenmantle olhou para Jesse Dittley. Ele não conseguia acreditar que era possível que seres humanos crescessem a uma altura dessas.
— Você está realmente criando uma confusão desnecessária.
Jesse Dittley apenas balançou a cabeça, muito lentamente.
— Para o chão! — tentou Greenmantle. Nos filmes, isso funcionava na mesma hora. Você apontava uma arma para alguém e as pessoas sumiam da sua frente. Elas não ficavam simplesmente paradas olhando para você.
— ESSA CAVERNA NÃO É SUA — disse Jesse Dittley.
Piper atirou nele.
Três vezes, rápido, manchas negras aparecendo na camisa e na cabeça.
Quando eles olharam de volta para ela, Piper já tinha a arma apontada de volta para o Homem Cinzento.
Greenmantle não podia acreditar quão incrivelmente morto estava o homem gigante. Ele estava tão, mas tão morto, e perfurado. Havia buracos nele. Greenmantle não conseguia parar de olhar para os buracos. Eles provavelmente o haviam transpassado.
— Piper — ele disse. — Você simplesmente atirou no homem.
— Ninguém estava fazendo nada, fala sério. Toda essa palhaçada de caras durões! — disse Piper. Para o Homem Cinzento, ela disse: — Arraste ele para dentro da caverna.
— Não — disse o Homem Cinzento.
— Não? — Piper estava com sua cara de atirar nas pessoas, ou seja, a cara que tinha o tempo inteiro.
— Ah, não atire nele — disse Greenmantle, com o pulso batendo um tanto nervoso. Tudo que ele conseguia pensar era como os documentos naquele envelope pareceriam mais plausíveis quando colocados lado a lado com os acontecimentos daquela noite. Será que Piper não sabia que um crime envolvia planejamento e limpeza muito cuidadosos? Atirar não era a parte difícil. Escapar impune é que era.
— Não vou mexer em nenhum corpo sem luvas — disse o Homem Cinzento com uma voz fria, demonstrando claramente por que fora bom nisso. — Eu não teria atirado nele sem luvas, também. Impressões digitais e resíduos de pólvora são maneiras estúpidas de terminar na prisão.
— Obrigada pelo conselho — disse Piper. — Morris? Você está usando luvas. Arraste esse cara e vamos seguir em frente.
— E ele? — perguntou Morris, olhando para o Homem Cinzento.
— Amarre-o. Vamos levar ele junto. Colin, por que você não se mexe?
— Na realidade — disse Greenmantle —, acho que vou deixar passar essa.
— Você só pode estar brincando comigo.
Não apenas ele não estava brincando como estava considerando vomitar. Ele devia ter permanecido solteiro. Devia ter permanecido em Boston. Ele estava a meio caminho da porta, e queria de certa forma se certificar de que tivesse um pouco de cobertura caso Piper ficasse puta da vida e decidisse atirar nele também.
— Eu vou apenas... voltar. Não me entenda mal, acho que você parece ótima com a arma, mas...
— Isso é simplesmente. Tão. Típico. Você sempre diz: “Vamos fazer isso juntos, eu e você”, e então quem termina fazendo tudo? Eu, enquanto você parte para algum projeto novo. Tudo bem, pode voltar. Mas não espere que eu volte correndo para você.
Ele cruzou com o olhar do Homem Cinzento, que estava no processo de ter suas mãos amarradas atrás de si por Morris. Eficientemente, com uma braçadeira plástica.
O Homem Cinzento olhou para o corpo de Jesse Dittley e fechou os olhos por um segundo. Inacreditavelmente, ele parecia bravo, então devia possuir emoções, afinal.
Greenmantle hesitou.
— Ou caga ou sai da moita — disparou Piper.
— Vá embora, Colin — disse o Homem Cinzento. — Você teria poupado muito incômodo a nós dois se nunca tivesse vindo.
Greenmantle aproveitou a oportunidade para ir. Ele se perdeu no caminho de volta pelo campo — tinha um péssimo senso de direção —, mas, uma vez no carro, sabia o caminho. Para longe. Todas as direções eram para longe.

7 comentários:

  1. Que cara inútil, bicho, como é que pode?

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  2. TA TODO MUNDO MORRENDO, NÃO É POSSÍVEL
    E tem gente que só existe pra cutucar urso, pqp dps n sabe pq deu merda

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  3. Greenmantle tomou a decisão certa.

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  4. depois desse capitulo o meu amor pela pipper acabou de vez
    ASS:Janielli

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  5. Greenmantle é muito fdp! E essa mulher dele, meu Deus, o Jesse cara! Não tinha necessidade. Torcendo pro Sr. Cinzento mandar ela dessa pra melhor.

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  6. Greenmantle esse cara é um merda só sabe ameaçar, não tem sangue nas veias, Piper tem de sobra...

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  7. Ela é mais psicopata que ele!

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!