15 de julho de 2018

Capítulo 44

Foi um erro.
Adam tinha certeza disso assim que caiu para dentro da boca negra da tigela de adivinhação, mas não havia como deixar Ronan ali em seu sonho sozinho.
O seu corpo físico estava sentado de pernas cruzadas na Barns, um prato de cerâmica para alimentar os cães servindo como sua tigela de adivinhação. O corpo de Ronan estava encolhido no sofá. A Garota Órfã estava sentada próxima de Adam, espiando a tigela junto com ele.
Aquilo era real.
Mas isto também era real: a sinfonia doentia que era Cabeswater. A floresta vomitava negro à volta dele. Árvores fundiam-se na escuridão, mas ao contrário — longos feixes negros de gosma pingando para cima em direção ao céu. O ar estremecia e voava. A mente de Adam não compreendia como processar o que via. Era o horror da árvore que sangrava um líquido negro que eles tinham visto antes, só que ele havia se espalhado para a floresta inteira, incluindo a atmosfera. Se não tivesse restado mais nada da verdadeira Cabeswater, teria sido menos assustador — algo mais fácil de descartar como um pesadelo —, mas ele ainda podia ver a floresta que ele passara a conhecer lutando para se manter.
Cabeswater?
Não houve resposta.
Ele não sabia o que aconteceria com ele se Cabeswater morresse.
— Ronan! — gritou Adam. — Você está aqui?
Talvez Ronan só estivesse dormindo, não sonhando. Talvez estivesse sonhando em outra parte. Talvez tivesse chegado antes de Adam e já tivesse sido morto em seus sonhos.
Ronan!
— Kerah — lamuriou-se a Garota Órfã.
Quando ele a procurou, no entanto, ela não estava em parte alguma. Será que ela tinha vindo com ele, adivinhando tigela adentro atrás dele? Será que Ronan poderia sonhar outra como ela para dentro dos seus sonhos? Adam sabia a resposta para isso: sim. Ele havia observado um Ronan sonhado morrer na frente do Ronan real. Poderia haver infinitas Garotas Órfãs aqui nessa floresta. Maldição.
Ele não sabia como chamar por ela. Tentou:
— Garota Órfã!
Tão logo havia gritado o nome dela, ele se arrependeu. As coisas eram o que você as chamava nesse lugar. De qualquer forma, não houve resposta.
Ele começou a se movimentar pela floresta, tomando o cuidado de não se desligar de seu corpo lá na Barns. Suas mãos sobre a tigela de adivinhação fria. Os ossos do quadril contra o assoalho de madeira. O cheiro da lareira atrás dele. Lembre-se de onde você está, Adam.
Ele não queria chamar Ronan de novo; ele não queria que esse pesadelo forjasse uma duplicata. Tudo que ele via era terrível. Aqui uma cobra dissolvendo-se viva, ali um cervo macho caído no chão, lentamente quicando as patas, videiras crescendo através da carne ainda com vida. E então uma criatura que não era Adam, mas, mesmo assim, de alguma forma, se vestia como ele. Adam recuou, mas o garoto estranho não lhe deu atenção. Em vez disso, estava lentamente comendo as próprias mãos.
Adam estremeceu.
Cabeswater, onde ele está?
Sua voz destoou, e Cabeswater arfou, tentando acalmar o seu mágico. Uma rocha havia se manifestado na frente de Adam. Ou melhor, ela sempre estivera ali, do jeito dos sonhos, do jeito que Noah aparecia e desaparecia. Adam já vira esse rochedo antes; sua superfície estriada estava coberta com as letras púrpuro-negras na caligrafia de Ronan.
Adam passou por ela enquanto algo gritava atrás dele.
Ali estava Ronan. Finalmente. Finalmente.
Ronan estava dando voltas em torno de algo na relva queimada entre árvores arruinadas; quando Adam se aproximou, ele viu que era uma carcaça. Era difícil dizer como era sua aparência originalmente. Ela parecia ter uma pele branca como giz, mas cortes profundos rasgavam a carne; as bordas dos cortes dobravam-se sobre si mesmas em um tom róseo. Uma confusão de intestinos pendurava-se para fora sob uma aba cinzenta gordurosa e se enganchava em uma garra de ponta avermelhada. Cogumelos irrompiam por toda parte na carcaça, e havia algo terrivelmente errado a respeito deles; era difícil de mirá-los.
— Não — disse Ronan. — Ah, não. Seu imbecil.
— O que é isso? — perguntou Adam.
As mãos de Ronan correram sobre dois bicos abertos, lado a lado, ambos orlados em negro e algo rubro-púrpura que Adam não queria considerar muito profundamente.
— Meu horror noturno. Meu Deus. Merda.
— Por que ele estaria aqui?
— Não sei. Ele se importa com o que eu me importo — disse Ronan, erguendo o olhar para Adam. — Isso é um pesadelo, ou é real?
Adam manteve o olhar. Esta era a situação em que eles se encontravam agora: pesadelos eram reais. Não havia diferença entre os sonhos e a realidade quando eles estavam juntos ali em Cabeswater.
— O que está fazendo isso? — perguntou Ronan. — Não consigo ouvir as árvores. Ninguém está falando comigo.
Adam manteve o olhar. Ele não queria dizer demônio em voz alta.
— Eu quero acordar. Podemos? Não quero trazer nada disso de volta. E não consigo controlar meus pensamentos... Não consigo... — disse Ronan.
— Sim — interrompeu Adam. Ele não conseguia também. — Precisamos falar com os outros. Vamos...
— Kerah!
O chamado agudo da Garota Órfã imediatamente chamou a atenção de Ronan; ele esticou o pescoço para ver entre os galhos escuros e os pequenos lagos.
— Deixa a Garota Órfã — disse Adam. — Ela está com a gente na vida real.
Mas Ronan hesitou.
Kerah! — ela se lamuriou novamente, e dessa vez Adam ouviu a dor em sua voz. Ela era fraca, como de uma criança, inspirava pena, e tudo que havia nela fora codificado para responder a isso. — Kerah, succurro!
Era impossível dizer se aquela era a Garota Órfã que eles tinham lá na Barns, se era uma cópia, ou um pássaro diabólico monstruoso com a voz dela. Ronan não se importava. Ele correu de qualquer forma. Adam seguiu logo atrás dele. Tudo que ele passava era hediondo: uma floresta de salgueiros vergada, uma árvore sobre a outra, um pássaro cantando uma nota de trás para frente, um punhado de insetos negros rastejando sobre a ponta de uma carcaça de coelho.
A voz não pertencia a um pássaro diabólico monstruoso. Era a Garota Órfã, ou algo com uma aparência idêntica à dela. Ela estava ajoelhada em um tufo de relva seca. Não estivera chorando, mas caiu no choro quando viu Ronan. Quando ele a alcançou, ofegante, ela estendeu os braços para ele, suplicantemente. Adam não achou que ela era uma cópia; ela usava o seu relógio com suas marcas de mordida na pulseira, e, de qualquer modo, essa Cabeswater enferma não tinha a força para produzir uma versão tão íntegra dela.
Succurro, succurro — ela chorou. — Socorro, socorro...
Os braços que ela estendeu para Ronan estavam cobertos e respingados de sangue até o cotovelo.
Ronan se largou de joelhos, os braços em torno dela, e machucou Adam, de certa forma, ver quão ferozmente ele abraçava a sua pequena e estranha criatura de sonho, e como ela enterrava o rosto no ombro dele. Ele se levantou com ela nos braços, a segurou proximamente, e ele a ouviu dizer:
— Não, você agiu bem, vai ficar tudo bem, nós estamos acordando.
Então Adam o viu. Ele o viu antes de Ronan, porque Ronan ainda não havia olhado além da Garota Órfã. Não, não. A Garota Órfã não havia parado ali por ser o lugar mais distante que havia conseguido chegar correndo. Ela havia se ajoelhado ali porque fora a maior distância através da qual conseguira arrastar o corpo. Corpo era uma palavra branda para aquilo. Longos fios de cabelo prendiam-se aos pedaços maiores que se ligavam como um colar de pérolas viscosas. Fora assim que os braços da Garota Órfã haviam ficado tingidos de sangue; esse esforço de socorro fútil.
— Ronan — avisou Adam, enquanto o horror tomava conta dele.
Ao ouvir o tom da voz de Adam, Ronan se virou.
Houve um breve momento em que ele olhou apenas para Adam, e Adam desejou que ele pudesse manter a sua atenção para sempre. Acorda, ele pensou, mas ele sabia que Ronan não faria isso.
O olhar de Ronan baixou.
— Mãe?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!