5 de julho de 2018

Capítulo 44

Quando Colin Greenmantle saiu para a varanda da fazenda histórica e olhou para baixo, para o campo à sua frente, descobriu um rebanho de vacas paradas ao longe e dois rapazes parados muito próximos.
Eram, na realidade, Adam Parrish e Ronan Lynch.
Ele os encarou.
Nenhum deles disse coisa alguma. Os dois garotos eram perturbadores — Adam Parrish, em particular, tinha um rosto curioso. Não que ele fosse uma pessoa curiosa. Mas havia algo peculiar a respeito dos seus traços faciais. Ele era um espécime estranho, belo, da espécie da Virgínia Ocidental; ossos leves, faces encovadas, sobrancelhas claras e quase invisíveis. Ele era feral e duro como aqueles retratos da Guerra Civil. Irmão lutando com irmão enquanto suas fazendas viravam ruínas...
E Ronan Lynch parecia com Niall Lynch, o que significava dizer que parecia um imbecil.
Ah, juventude.
Então Greenmantle quebrou o gelo e os chamou:
— Vocês vieram entregar os exercícios?
Eles continuaram parados ali, parecendo uma dupla de gêmeos de filme de terror, um escuro, um claro.
Adam Parrish sorriu um pouco; isso tirou dois anos de sua idade em um segundo. Ele tinha dentes tanto no maxilar superior quanto no inferior.
— Eu sei quem você é.
Isso era interessante.
— E quem eu sou?
— Você não sabe? — perguntou Adam Parrish com afável despreocupação.
Greenmantle estreitou os olhos.
— Nós estamos jogando um jogo, sr. Parrish?
— Possivelmente.
Jogos, pelo menos, eram uma das especialidades de Greenmantle. Ele se recostou na balaustrada.
— Nesse caso, eu também sei quem vocês são.
Ronan Lynch passou para Adam Parrish um envelope pardo extragrande, avolumado.
— Ah, não acho que você saiba — respondeu Adam.
Greenmantle não gostava do destemor em seu rosto. Não era nem destemor: era ausência absoluta de expressão. Ele se perguntou o que havia no envelope. Confissões de um adolescente sociopata. Ele disse:
— Você sabe o que mantém as pessoas pobres por baixo, sr. Parrish? Não é a falta de renda. É a pobreza de imaginação. Os sonhos dos parques de trailers dos subúrbios, e os sonhos dos subúrbios da cidade, os sonhos da cidade das estrelas, e por aí afora. Os pobres conseguem imaginar o trono, mas não conseguem agir como reis. Pobreza de imaginação. Mas você... você é um tolo que se esgueira para dentro desse ninho. Você é o sr. Adam Parrish, da Alameda Antietam, 21, Henrietta, Virgínia, e tem uma boa imaginação, mas é uma farsa mesmo assim.
O garoto era bom. A pele em torno dos seus olhos se tensionou apenas um pouquinho quando Greenmantle citou o endereço do parque de trailers.
— E seria tão fácil derrubar você desta árvore... — disse Greenmantle, caso ele não estivesse nervoso ainda. — Você sentiria saudades daqueles dias no parque de trailers.
Adam Parrish olhou para ele. Greenmantle percebeu imediatamente que o garoto parecia perturbador, da mesma maneira que Piper parecera quando ele a pegou se olhando no espelho.
Adam virou o envelope avolumado de um lado para o outro, para que Greenmantle visse que dele vazava algo vermelho-amarronzado, o que nunca era um bom sinal. Ele disse:
— Se você não se mandar de Henrietta até sexta-feira, tudo que está neste envelope vai acontecer.
Então Ronan Lynch também sorriu, e isso era uma arma.
Eles deixaram o envelope ali.
— Piper! — chamou Greenmantle depois que eles se foram. Mas ela não respondeu. Era impossível saber se ela estava lá, mas em um transe, ou se havia saído, caçar a coisa que ela ouvira cantarolando nos espelhos. Este lugar. Este maldito lugar. Eles poderiam tê-lo.
Finalmente, Greenmantle desceu os degraus e encontrou uma porta que levava para a rua. Ele abriu o envelope. O líquido que escorria era de uma mão cortada apodrecendo. Era pequena. A mão de uma criança. Por baixo dela havia um saco plástico selado, sujo de sangue ressecado, contendo papéis e fotografias.
Individualmente, eram algo nojento.
Coletivamente, eram algo incriminador.
O conteúdo do envelope contava uma história de Colin Greenmantle, assassino em série intelectual e pervertido habitual. Fornecia provas de onde corpos e partes de corpos podiam ser encontrados. Havia imagens de telas de textos que o incriminavam e fotos tiradas com um celular — e, quando Greenmantle pegou o seu aparelho real, descobriu que, de alguma forma, elas estavam realmente no seu celular, em toda sua glória horripilante. Havia cartas, DVDs caseiros, fotografias, uma montanha de provas.
Nada daquilo era verdade.
Tudo havia sido sonhado.
Mas não importava. Parecia verdadeiro. Mais verdadeiro que a própria verdade.
O Greywaren era real, e aqueles dois garotos o tinham, mas isso não importava, pois eles eram intocáveis, e sabiam disso.
Maldita juventude.
Bem no fundo da pilha de sujeira havia um único pedaço de papel com uma caligrafia similar à de Niall Lynch, e que só poderia pertencer ao seu filho.
Estava escrito:
Qui facit per alium facit per se.
Greenmantle conhecia o provérbio.
Aquele que faz algo por meio da ação de outro o faz ele mesmo.

2 comentários:

  1. Cara, o Adam inventou isso... é engenhoso e assustador, mais assustador que qualquer coisa, credo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!