15 de julho de 2018

Capítulo 43

A vinte e cinco minutos dali, Gansey estava absolutamente desperto, metido em alguma encrenca.
Ele não sabia ainda por que isso tinha acontecido, e, conhecendo a família Gansey, talvez jamais soubesse. Ele podia sentir, no entanto, com a mesma certeza de que podia sentir a rede da história de Glendower baixando sobre si. Uma contrariedade no lar Gansey era como uma delicada essência de baunilha. Usada com moderação, raramente sozinha, e geralmente identificável somente em retrospectiva. Com prática, podia-se aprender a identificar o gosto dela, mas com que finalidade? Há um quê de raiva nesse bolo de aveia, você não acha? Ah, sim, acho que um pouco de...
Helen estava brava com Gansey. A conclusão era essa.
A família Gansey tinha se reunido na sua escola, um dos investimentos imobiliários dos Gansey. Era uma antiga escola de pedra, comodamente decadente, localizada nas colinas verdejantes e remotas entre Washington, D.C., e Henrietta, que rendia a própria manutenção com o aluguel de curtas temporadas. O restante da família havia passado a noite ali — eles haviam tentado convencer Gansey a vir passar a noite com eles, um pedido que ele poderia ter atendido se não fosse por Ronan e por Henry. Talvez fosse essa a razão por que Helen estava incomodada com ele.
De qualquer maneira, certamente ele tinha compensado sua ausência ao trazer amigos interessantes para interagir. Os Gansey adoravam encantar outras pessoas. Convidados significavam mais pessoas para eles exibirem suas elaboradas habilidades culinárias.
Mas ele ainda estava encrencado. Não com seus pais. Eles estavam encantados em vê-lo — Como você está bronzeado, Dick — e, como previsto, ainda mais encantados em ver Henry e Blue. Henry imediatamente passou em uma espécie de teste amigo-colega na qual Adam e Ronan sempre pareceram ter dificuldade, e Blue era — bem, o que quer que tenha sido o encanto que a expressão vivamente curiosa de Blue havia exercido sobre Gansey mais jovem claramente também havia atraído os Gansey mais velhos. Eles imediatamente começaram a questionar Blue sobre a profissão da sua família enquanto picavam uma beringela.
Blue descreveu um dia comum na Rua Fox, 300 com bem menos assombro e espanto do que acabara de usar no carro para contar a Gansey sobre a experiência incomum de seu pai desaparecer dentro de uma árvore. Ela listou a linha mediúnica especial, a limpeza das casas, os círculos de meditação e a colocação de cartas. Seu jeito descuidado de descrever apenas agradou mais ainda aos pais de Gansey; se ela tivesse tentado convencê-los de algo, jamais teria funcionado. Mas ela estava apenas lhes contando como era, e não pedindo nada em troca, e eles adoraram isso. Com Blue ali, Gansey sentia-se dolorosamente consciente de como eles todos deviam parecer aos olhos de Blue — a velha Mercedes no acesso, as calças alinhadas, a pele lisa, os dentes alinhados, os óculos escuros Burberry, os cachecóis Hermes. Ele podia até ver a escola através das lentes dela agora. No passado, ele não teria achado que ela parecesse uma propriedade particularmente cara — ela era esparsamente decorada, e Gansey teria presumido que ela passava um ar austero. Mas agora que ele havia passado um tempo com Blue, ele podia ver que esse caráter esparso era exatamente o que a fazia parecer cara. Os Gansey não precisavam ter muitas coisas na casa porque cada objeto que eles tinham era exatamente a coisa certa para a sua finalidade. Não havia uma estante barata colocada em serviço para servir de depósito de louças extras. Não havia uma escrivaninha para guardar papelada, material de costura e brinquedos. Não havia potes e panelas empilhados em gabinetes ou desentupidores de privadas largados em baldes de plástico baratos. Em vez disso, mesmo nessa escola caindo aos pedaços, tudo era estético. Era isso que o dinheiro fazia: colocava desentupidores em potes de cobre, louças extras atrás de portas de vidro e brinquedos em baús entalhados. Ele pendurava frigideiras em armações para panelas de ferro.
Ele se sentia um tanto embaraçado com isso.
Gansey seguia tentando captar os olhares de Blue e Henry para ver se eles estavam bem, mas a dificuldade em tentar ser sutil em um ambiente cheio de Ganseys era que a sutileza era uma língua que todos eles falavam. Não havia como perguntar discretamente se o socorro era necessário; todas as mensagens seriam interceptadas. E assim o bate-papo prosseguiu até que o almoço fosse levado para a varanda dos fundos. Henry e Blue estavam sentados em cadeiras muito distantes para que ele enviasse ajuda aérea para eles.
Helen fez questão de se sentar ao seu lado. Ele experimentava baunilha de uma vasilha.
— O diretor Child disse que você se atrasou um pouco com o envio dos seus pedidos de admissão para as faculdades — disse o sr. Gansey, inclinando-se para frente para servir a quinoa com uma colher nos pratos.
Gansey estava ocupado tirando um mosquito do seu chá gelado. A sra. Gansey afastou um mosquito invisível com a mão, em solidariedade.
— Achei que estava frio demais para ter insetos. Deve haver alguma água parada por aqui.
Gansey tirou com cuidado o inseto morto da beira da mesa.
— Atualmente ainda mantenho contato com Dromand — disse o sr. Gansey. — Ele ainda tem influência em todo o departamento de história de Harvard, se é nisso que você está pensando.
— Jesus, não — disse a sra. Gansey. — Yale, certamente.
— O quê? Como o Ehrlich? — o sr. Gansey riu suavemente de alguma piada particular. — Que isso sirva de lição para todos nós.
— O Ehrlich é um dissidente — respondeu a sra. Gansey. E brindaram os copos em um brinde misterioso.
— Quais universidades você já contatou? — perguntou Helen. Havia perigo em sua voz. Imperceptível para não Gansey, mas suficiente para que seu pai lhe franzisse o cenho.
— Nenhuma, ainda — entreolhou Gansey.
— Não lembro as datas para essas coisas — disse a sra. Gansey. — Logo, no entanto, certo?
— Eu me perdi no tempo.
Era a versão mais simples possível de teoricamente vou morrer antes que isso tenha importância, então usei minhas noites para outras coisas.
— Li um estudo sobre períodos sabáticos — disse Henry. Ele sorriu para o prato quando a sra. Gansey o colocou na sua frente, e naquele sorriso havia uma compreensão de que ele era fluente nessa linguagem de sutileza. — Supostamente é algo bom para pessoas como nós.
— O que são pessoas como nós? — perguntou a mãe de Gansey, de uma maneira que sugeria que ela gostava da ideia de comunidade entre eles.
— Ah, você sabe, jovens excessivamente cultos que se provocam crises nervosas em busca da excelência — disse Henry. Os pais de Gansey riram. Blue pegou o seu guardanapo. Gansey havia sido socorrido; Blue havia sido pressionada.
Mas o sr. Gansey percebeu e pegou a bola antes que ela tocasse o chão.
— Eu adoraria ler algo escrito por você, Blue, sobre crescer em uma casa de médiuns. Você poderia escrever um texto acadêmico ou no estilo de uma memória, que seria fascinante do mesmo jeito. Você tem uma voz tão distinta, mesmo quando está falando.
— Ah, sim, eu notei isso também, a cadência de Henrietta — disse a sra. Gansey carinhosamente; eles eram excelentes jogadores de equipe. Boa defesa, ponto para os Gansey, vitória para a Equipe Alto-Astral.
— Eu quase esqueci a bruschetta; ela vai queimar. Dick, você me ajudaria a trazê-la?
A Equipe Alto-Astral se dispersou abruptamente. Gansey estava prestes a descobrir por que estava encrencado.
— Claro, certo — ele disse. — Alguém precisa de alguma coisa lá de dentro?
— Na verdade, se você puder trazer o meu cronograma em cima da escrivaninha da Ellie, seria ótimo, obrigada — disse a sua mãe. — Preciso ligar para a Martina para me certificar de que ela vai estar lá a tempo.
Os irmãos Gansey dirigiram-se para dentro da casa, onde Helen primeiro removeu os pães torrados e então se virou para o irmão. Ela demandou:
— Você lembra quando eu disse: “me conta que tipo de sujeira eu vou encontrar sobre os seus amiguinhos para que eu dê um tratamento no assunto antes que a nossa mãe apareça por aqui”?
— Acho que se trata de uma pergunta retórica — disse Gansey, enfeitando a bruschetta.
— Você não me retornou informação alguma a esse respeito — disse Helen.
— Eu mandei recortes das pegadinhas da Semana Turca para você.
— E, no entanto, você deixou de mencionar que tinha subornado o diretor.
Gansey parou de enfeitar a bruschetta.
— Você fez isso mesmo — disse Helen, lendo-o sem fazer esforço. Os irmãos Gansey estavam sintonizados na mesma frequência de rádio. — Para quem você fez isso? Que amigo? O garoto do parque de trailers.
— Não seja desrespeitosa — respondeu Gansey secamente. — Quem contou para você?
— Os papéis me contaram. Sabe, você ainda não tem dezoito anos. Como conseguiu mesmo convencer o Brulio a escrever aquele documento para você? Achei que ele deveria ser o advogado do papai.
— Isso não tem nada a ver com o papai. Não gastei o dinheiro dele.
— Você tem dezessete anos. Que outro dinheiro você tem?
Gansey olhou para ela.
— Então, pelo visto, você leu só a primeira página do documento.
— Isso é tudo que abriria no meu celular — disse Helen. — Por quê? O que diz a segunda página? Meu Deus. Você deu ao Child aquele seu armazém, não é?
A questão soava muito clara quando ela a colocava desse jeito. Gansey supunha que era mesmo. Um diploma da Aglionby em troca da Fábrica Monmouth.
Provavelmente você não estará aí para sentir a sua falta, ele disse a si mesmo.
— Em primeiro lugar, o que ele pode ter feito para merecer algo desse gênero? — demandou Helen. — Você está dormindo com ele?
A indignação gelou a voz de Gansey.
— Por que a amizade não tem valor suficiente?
— Dick, vejo que você está fazendo o possível para se manter por cima, mas vá por mim, você não está conseguindo. Você não precisa apenas de uma escada de moralidade para chegar lá, você precisa de uma cadeirinha de bebê para colocar a escada em cima. Você compreende que posição incrivelmente ruim você coloca a mamãe se essa sua estupidez for descoberta?
— Não é a mamãe. Sou eu.
Helen inclinou a cabeça de lado. Normalmente Gansey não notava a diferença de idade entre eles, mas, bem naquele instante, ela parecia muito obviamente uma adulta refinada, e ele... o que quer que ele fosse.
— Você acredita que a imprensa se importaria? Você tem dezessete anos. Era o advogado da família, pelo amor de Deus. Exemplo da corrupção de uma família, et cetera, et cetera. Não acredito que você não pode esperar ao menos a eleição passar para fazer isso.
Mas Gansey não sabia quanto tempo ele tinha. Ele não sabia se podia esperar a eleição passar. Isso lhe provocou um aperto no peito e sua respiração encurtou no mesmo instante. Então afastou o pensamento o mais rápido que pôde.
— Não pensei nas consequências — ele disse. — Para a campanha.
— Obviamente! Não faço a menor ideia no que você estava pensando. Eu vim o caminho todo até aqui tentando dar um sentido para isso, e simplesmente não consegui.
Gansey brincou com um pedaço de tomate sobre a tábua de corte. Seu coração ainda batia rápido no peito. Com uma voz muito menor, ele disse:
— Eu não queria que ele jogasse tudo fora porque o pai dele tinha morrido. Ele não quer agora, mas eu queria que ele tivesse o diploma mais tarde, quando ele percebesse que queria.
Helen não disse nada, e ele sabia que a sua irmã o estudava e o lia de novo. Ele apenas seguiu brincando com aquele pedaço de tomate, pensando sobre como realmente ele não tinha nem certeza de que Ronan precisasse do diploma no fim das contas, e como ele se arrependia de ter feito o acordo com Child mesmo que não conseguisse dormir até tê-lo feito. Ele estivera errado a respeito de muitas coisas, e agora era tarde demais para consertá-las. O tempo estava se esgotando. Fora um segredo solitário e cheio de culpa de manter.
Para sua surpresa, Helen o abraçou.
— Irmãozinho — ela sussurrou —, o que há de errado com você?
Os Gansey não eram dados a abraços, e Helen normalmente não arriscaria amassar a sua blusa, e seus braceletes de ouro finos pressionariam linhas em seu braço, e algo a respeito de todas essas coisas combinadas fizeram com que Gansey se sentisse perigosamente próximo das lágrimas.
— E se eu não o encontrar — disse Gansey por fim. — Glendower.
Helen soltou um suspiro e o soltou.
— Você e aquele rei. Quando isso vai terminar?
— Quando eu o encontrar.
— E então? E se você realmente o encontrar?
— Isso é tudo.
Não era uma boa resposta, e Helen não gostou dela, então só estreitou os olhos e desamassou uma e outra dobra de sua blusa.
— Sinto muito ter arruinado a campanha da mamãe — ele disse.
— Você não arruinou. Só vou ter que... não sei. Vou encontrar alguns esqueletos no armário do Child para me certificar de que ele seguirá na linha. — Helen não parecia inteiramente descontente com a tarefa. Ela gostava de organizar fatos. — Meu Deus. E pensar que eu achei que teria de lidar com questões envolvendo bullying e posse de maconha. Aliás, quem é aquela garota lá fora? Você a beijou?
— Não — respondeu Gansey verdadeiramente.
— Você deveria — ela disse.
— Você gosta dela?
— Ela é esquisita. Você é esquisito.
Os irmãos Gansey trocaram um sorriso.
— Vamos levar essa bruschetta daqui — disse Helen. — Para sobrevivermos a esse fim de semana.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!