5 de julho de 2018

Capítulo 43

Gansey chegou à Rua Fox, 300 após a ambulância ter partido, não por falta de pressa, mas por falta de comunicação. Foram necessárias vinte e quatro chamadas de Adam para o celular de Ronan antes que ele atendesse, e depois demorou até que Ronan encontrasse Gansey no campus. Malory ainda perambulava com o Cão, rondando a Virgínia no Suburban, mas estaria bem sem saber da notícia.
Persephone estava morta.
Gansey não conseguia acreditar, não porque não acreditasse na proximidade da morte — ele não parava de acreditar na proximidade da morte —, mas porque não teria esperado que Persephone fizesse algo tão mortal quanto morrer. Havia algo imutável a respeito das três mulheres na Rua Fox, 300 — Maura, Persephone e Calla eram o tronco do qual saíam todos os galhos.
Precisamos encontrar Maura, ele pensou enquanto deixava o Camaro e subia o acesso que dava para a casa, Ronan seguindo seus passos com as mãos enfiadas nos bolsos, Motosserra batendo as asas sombriamente de galho em galho para acompanhá-los. Porque, se Persephone pode morrer, não há nada que impeça Maura de morrer também.
Adam estava sentado na sombra mosqueada do primeiro degrau, os olhos vazios, uma ruga entre as sobrancelhas. A mãe de Gansey costumava pressionar o polegar naquele ponto entre as sobrancelhas de Richard Gansey III e massagear o cenho franzido até fazê-lo desaparecer; ela ainda fazia isso com Gansey II. Ele sentiu a necessidade premente de fazê-lo agora, quando Adam ergueu o rosto.
— Eu a encontrei — disse Adam —, e não ajudou em nada.
Ele precisava que Gansey dissesse que estava tudo bem, e, embora não estivesse tudo bem, Gansey encontrou sua voz e disse:
— Você fez o melhor que pôde. Calla me contou ao telefone. Ela está orgulhosa de você. Você não vai se sentir melhor agora, Parrish. Não espere que isso aconteça.
Sentindo-se livre, Adam anuiu miseravelmente e olhou para baixo.
— Onde está a Blue?
Adam piscou. Ele claramente não sabia.
— Vou entrar — disse Gansey enquanto Ronan se sentava no degrau ao lado de Adam. Ao fechar a porta atrás de si, Gansey ouviu Adam dizer:
— Não quero conversar.
E a resposta de Ronan:
— E sobre que merda eu iria conversar?
Ele encontrou Calla, Jimi e Orla, e duas outras jovens que não reconheceu, na cozinha. Gansey quisera começar com Sinto muito por sua perda ou algo educado, algo que faria sentido do lado de fora dessa cozinha, mas, naquele contexto, tudo parecia mais falso que normal.
Em vez disso, ele disse:
— Vou entrar na caverna. Nós vamos.
Era impossível, mas não importava muito. Tudo era impossível. Ele esperou que Calla dissesse que era uma má ideia, mas ela não disse.
Uma pequena parte dele ainda gostaria que ela tivesse dito: a parte que podia sentir perninhas rastejando em sua nuca.
Covarde.
Gansey havia passado um longo tempo aprendendo a colocar isso longe do alcance de sua mente e, naquele instante, ele o fez.
— Vou com você — disse Calla, os nós dos dedos fechados firmemente em torno do copo. — Chega dessa bobagem de tentar sozinho. Estou tão brava que eu poderia...
Ela jogou o copo no chão da cozinha, e ele se despedaçou aos pés de Orla. Orla encarou os cacos e então Gansey, a expressão dela como a se desculpar, mas Gansey tinha vivido com a dor de Ronan por tempo suficiente para reconhecê-la.
— Pronto! — gritou Calla. — Assim é. Destruído sem nenhum motivo!
— Vou pegar um aspirador — disse Jimi.
— Vou pegar um Valium — disse Orla.
Calla saiu a passos largos para o quintal.
Gansey se retirou e subiu a escada até o Quarto do Telefone/Costura/Gato. Era o único lugar em que ele estivera no segundo andar, e o único outro lugar onde sabia procurar por Blue. Mas ela não estava ali nem no quarto ao lado, que era claramente o dela. Em vez disso, ele a encontrou em um quarto no fundo do corredor que parecia ser o de Persephone; cheirava a ela, e tudo era esquisito e engenhoso nele.
Blue estava sentada ao lado da cama, arrancando agressivamente o esmalte das unhas. Ela ergueu o olhar para ele; a luz da tarde entrou brusca e forte para pousar do lado do colchão atrás dela, fazendo com que Blue cerrasse os olhos.
— Você levou uma eternidade — ela disse.
— Meu celular estava desligado. Sinto muito.
Ela arrancou mais um pouco de esmalte, deixando-o cair sobre o tapete peludo.
— Acho que não fazia sentido se apressar, de qualquer maneira.
Ah, Blue.
— O sr. Cinzento está aqui? — ela perguntou.
— Eu não vi. Escuta, eu disse para a Calla que vamos entrar na caverna. Para encontrar a Maura. — Ele se corrigiu, mais formalmente: — A sua mãe.
— Ah, fala sério! Não vem dar uma de Richard Gansey pra cima de mim! — disparou Blue, e então, imediatamente, começou a chorar.
Aquilo era contra as regras, mas Gansey se ajoelhou ao lado de Blue, um dos joelhos nas costas dela, outro nas pernas, e a abraçou. Blue se encolheu, as mãos embaralhadas no peito de Gansey. Ele sentiu uma lágrima quente escorrer na depressão de sua clavícula e fechou os olhos contra o sol que passava através da janela, queimando quente em seu blusão. O pé de Gansey estava dormente, o cotovelo imprensado contra a armação de metal da cama, e Blue Sargent pressionada contra ele. E Gansey não se mexeu.
Socorro, ele pensou. Então se lembrou de Gwenllian dizendo que o fim estava começando, e ele podia senti-lo, desenrolando-se cada vez mais rápido, um novelo de linha pego ao vento. Começando, começando...
Ele não saberia dizer quem estava confortando quem.
— Sou parte da nova geração inútil — disse Blue por fim, as palavras bem junto à pele de Gansey. Desejo e medo estavam lado a lado no coração dele, um afiando o outro. — A geração dos computadores. Eu não paro de pensar que posso apertar a tecla de reiniciar e recomeçar as coisas.
Gansey se afastou, fazendo uma careta pelas pernas que formigavam, e deu a ela uma folha de hortelã antes de se sentar recostado na armação da cama ao seu lado. Quando ergueu o olhar, ele se deu conta de que Gwenllian estava parada no vão da porta. Era impossível dizer há quanto tempo ela estava ali, os braços erguidos no batente, como se estivesse tentando não ser empurrada para dentro do quarto.
Ela esperou até ter certeza de que Gansey estava olhando para ela, e então cantou:

Rainhas e reis
Reis e rainhas
Lírio azul, azul lírio
Coroas e pássaros
Espadas e coisas
Lírio azul, azul lírio.

— Você está tentando me deixar bravo? — ele perguntou.
— Você está bravo, principezinho? — Gwenllian respondeu docemente. Ela apoiou a face no braço, balançando-se para frente e para trás. — Eu costumava sonhar com morte. Eu cantei todas as canções que conhecia tantas vezes quando estava deitada naquele caixão, virada de bruços. Cada olho! Cada olho que eu podia alcançar, pedi que cuidasse de mim. E o que consegui, senão estupidez e cegueira!
— Como você usou os olhos de outras pessoas se é simplesmente como eu? — perguntou Blue. — Se não tem nenhum poder mediúnico seu?
A boca de Gwenllian assumiu a forma mais desdenhosa possível.
— Que pergunta! É que nem perguntar como bater num prego se você não é um martelo.
— Tanto faz — disse Blue. — Não importa. Não estou nem aí.
— Artemus me ensinou — disse Gwenllian. — Quando ele não estava trabalhando um-dois-três-quatro meu pai. Eis um enigma, meu amor, meu amor, meu amor, o que cresce, meu amor, meu amor, meu amor, do escuro, meu amor, meu amor, meu amor, para o escuro, meu amor, meu amor, meu amor.
Blue se pôs de pé, cheia de raiva.
— Chega de brincadeira.
— Uma árvore à noite — disse Gansey.
Gwenllian parou de se balançar e o estudou enquanto ele seguia sentado no chão.
— Tem muito do meu pai — ela respondeu. — Muito do meu pai em você. Este é Artemus, a árvore à noite. A sua mãe procura por ele, lírio azul? Bem, então você deveria procurar o meu pai. Artemus estará tão perto dele quanto for capaz, a não ser que algo o impeça. É melhor sussurrar.
Ela cuspiu nas tábuas do assoalho ao lado de Gansey.
— Eu estou procurando por ele — disse Gansey. — Nós vamos entrar lá embaixo.
— Me mande fazer algo por você, principezinho — ela disse a Gansey. — Vamos ver a sua têmpera de rei.
— Era assim que o seu pai convencia as pessoas a fazerem coisas para ele? — Gansey perguntou.
— Não — disse Gwenllian, parecendo incomodada com a pergunta. — Ele pedia.
Mesmo com toda a incorreção, toda a impossibilidade, isso acalentou Gansey. Estava certo: Glendower devia ter governado por meio de pedidos, não de ordens. Esse era o rei que ele buscava.
— Você iria com a gente? — ele perguntou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!