15 de julho de 2018

Capítulo 42

No sábado, Adam acordou diante de um perfeito silêncio. Ele havia esquecido como era isso. A névoa movia-se ligeiramente do lado de fora das janelas do quarto de Declan, emudecendo todos os pássaros. A fazenda ficava muito distante da estrada para ouvir qualquer ruído de carro que a alcançasse. Não havia nenhum escritório de administração da igreja funcionando a vapor atrás dele, ninguém levando cachorros para caminhar na calçada, nenhuma criança gritando estridente para entrar em um ônibus escolar. Havia apenas um silêncio tão profundo que parecia pressionar seus ouvidos.
Então Cabeswater arfou de volta sua existência dentro dele, e Adam sentou na cama. Se ela havia voltado, isso queria dizer que ela tinha ido.
Você está aí?
Ele sentiu os próprios pensamentos, e mais dos próprios pensamentos, e então, quase imperceptivelmente, Cabeswater. Algo não estava certo.
Mas Adam se deixou ficar por um momento após se livrar das cobertas e levantar. Ali estava ele, despertando na casa da família Lynch, usando as roupas da noite passada que ainda cheiravam a fumaça de grelha, tendo dormido além do horário da aula de peso que ele tinha aquela manhã por uma magnitude de horas. Sua boca lembrava a boca de Ronan Lynch.
O que ele estava fazendo? Ronan não era algo para se levar na brincadeira. Ele não achava que estava brincando.
Você está deixando essa propriedade, disse a si mesmo.
Mas há muito tempo ele não se sentia pressionado. Não havia mais a segunda metade da declaração subentendida: e jamais voltará aqui.
Ele desceu para o andar térreo e espiou em cada quarto pelo qual passava, mas parecia que estava sozinho. Por um breve momento viajante, imaginou que estava sonhando, caminhando por essa fazenda vazia em seu sonho. Então seu estômago roncou e ele encontrou a cozinha. Comeu dois pães de hambúrguer que haviam sobrado sem nada mais, pois não conseguiu encontrar a manteiga, e então bebeu o resto do leite diretamente da caixa. Tomou emprestada uma jaqueta de um cabide de casacos e saiu porta afora.
Na rua, a névoa e o orvalho sopravam nos campos. Folhas de outono grudavam em suas botas enquanto ele seguia pelo caminho entre os pastos. Prestou atenção se ouvia qualquer ruído em algum dos celeiros, mas, essencialmente, ele estava bem com o silêncio. Essa calma, essa calma absoluta, exceto o céu cinzento baixo e seus pensamentos.
Ele se sentia muito tranquilo por dentro.
O silêncio foi interrompido quando uma criatura se lançou em sua direção. Ela deslizava de maneira tão rápida e esquisita sobre seus cascos que só quando sua mão se enfiara na mão de Adam que ele percebeu que se tratava da Garota Órfã. Ela segurava um galho escuro e úmido, e, quando Adam olhou para baixo, percebeu que ela tinha pedaços de casca de árvore presos nos dentes.
— Você deveria comer isso? — ele lhe perguntou. — Onde está o Ronan?
A Garota Órfã pressionou a face contra o dorso da mão dele com afeição.
Savende e’lintes i firen...
— Inglês ou latim — ele disse.
— Por aqui!
Mas, em vez de o guiar em qualquer direção em particular, ela soltou a mão de Adam e galopou em torno dele em círculos, batendo os braços como um pássaro. Ele seguiu caminhando, ela seguiu dando voltas, e, ao alto, um pássaro conteve seu avanço em pleno voo. Motosserra percebera o movimento da Garota Órfã, e agora ela grasnou, deu uma volta e retomou seu voo para os campos mais acima. Foi onde Adam encontrou Ronan, uma mancha escura no campo lavado pela névoa. Ele estivera observando outra coisa, mas Motosserra o havia alertado, e então ele se virou, as mãos nos bolsos da jaqueta escura, e observou Adam se aproximar.
— Parrish — disse Ronan, observando Adam. Ele não estava dando nada como certo.
— Lynch — disse Adam.
A Garota Órfã trotou no meio deles e cutucou Ronan com a ponta do galho.
— Remelinha — Ronan lhe disse.
— Ela deveria estar comendo isso?
— Não faço ideia. Não sei nem se ela tem órgãos internos.
Adam riu da resposta, do ridículo de tudo isso.
— Você comeu? — perguntou Ronan.
— Fora salgadinhos? Sim. Perdi a aula de pesos.
— Ah, por favor. Você quer carregar alguns fardos de feno? Isso vai fazer crescer pelos no seu peito. Ei. Se você me cutucar com isso mais uma vez... — Isso era para a Garota Órfã.
Enquanto eles brincavam de luta na relva, Adam fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás. Ele quase podia fazer uma divinação desse jeito. A tranquilidade e a brisa fria em sua garganta o levariam embora, e a umidade dos dedos do pé em suas botas e a fragrância das criaturas vivas o manteriam ali. Dentro e fora. Adam não sabia dizer se estava se deixando idealizar aquele lugar ou Ronan, e não tinha certeza se havia diferença nisso.
Quando abriu os olhos, viu que Ronan estava olhando para ele, como ele estivera olhando para Ronan durante meses. Adam olhou de volta, como ele estivera olhando de volta durante meses.
— Preciso sonhar — disse Ronan.
Adam pegou a mão da Garota Órfã e corrigiu:
Nós precisamos sonhar.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!