15 de julho de 2018

Capítulo 41

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito a Gwenllian.
Ela acordou com um grito aquela manhã, de madrugada. “Levante-se!”, bradou para si mesma enquanto saltava da cama. Seu cabelo bateu no teto inclinado do sótão, e então seu crânio; ela pressionou a mão contra a cabeça. A luz na rua ainda tinha uma tonalidade cinza enfadonha, cedo de manhã, mas ela acionou interruptores, virou botões e puxou cordas até que toda luz se acendesse no lugar. Sombras projetavam-se nessa direção e naquela.
— Levante-se! — ela disse novamente. — Mãe, mãe!
Seus sonhos ainda se prendiam a ela, árvores fundindo-se escurecidas e demônios sibilando de destruição; Gwenllian acenou com as mãos em torno de si para afastar as teias de seu cabelo e ouvidos. Ela enfiou um vestido sobre a cabeça, e então enfiou outra saia, e suas botas, e seu blusão; ela precisava de sua armadura. Então avançou em meio às cartas que ela havia deixado espalhadas no chão e às plantas que ela havia queimado para meditação, e se dirigiu até os dois espelhos que sua predecessora havia deixado ali no sótão. Neeve, Neeve, adorável Neeve. Gwenllian saberia o seu nome mesmo se as outras não tivessem lhe contado, pois os espelhos o sussurravam, o cantavam e o sibilavam o tempo inteiro. Como eles a adoravam e a odiavam. Eles a julgavam e a admiravam. Eles a erguiam aos céus e a derrubavam com tudo. Neeve, Neeve, odiosa Neeve, quisera o respeito do mundo inteiro e fizera tudo para consegui-lo. Era Neeve, Neeve, adorável Neeve, que não se respeitara no fim.
Os espelhos de corpo inteiro estavam colocados um de frente para o outro, eternamente refletindo um reflexo. Neeve realizara um ritual complicado para assegurar que eles estivessem cheios de todas as possibilidades que ela poderia imaginar para si mesma e mais um pouco, e no fim um deles a devorara. Uma feitiçaria respeitável, diriam as mulheres de Sycarth. Elas teriam sido todas mandadas para a mata.
Gwenllian se posicionou entre os espelhos. A mágica deles a puxava e uivava. O vidro não era feito para mostrar tantas vezes ao mesmo tempo; a maioria das pessoas não era constituída para processar tantas possibilidades ao mesmo tempo. No entanto, Gwenllian era apenas outro espelho, e assim a mágica se desviou dela inofensivamente, enquanto ela pressionava a palma da mão contra qualquer um dos espelhos. Ela buscou todas as possibilidades e olhou à sua volta, voando de uma falsa verdade a outra.
— Mãe, mãe — disse Gwenllian em voz alta. Seus pensamentos desordenados se transmutariam se ela não os dissesse em voz alta imediatamente.
E lá estava a sua mãe: nesse presente real, nessa possibilidade atual, essa realidade onde a própria Neeve estava morta. Uma floresta se desfazendo, e a mãe de Gwenllian se desfazendo com elas.
Se desfazendo
Se desfazendo
Se des
Com um grito, Gwenllian jogou os espelhos no chão. Um chamado veio do andar de baixo; a casa estava despertando. Gritando novamente, Gwenllian olhou à volta de seu quarto em busca de uma ferramenta, uma arma. Havia pouco nesse sótão que pudesse fazer alguma diferença — ah. Ela arrancou uma luminária, o fio batendo na parede ao ser puxado, e desceu a escada com estardalhaço.
Tum tum tum tum, cada pé nos degraus, duas vezes.
— Artemusssssssss! — ela arrulhou, sua voz estalando a meio caminho. Ela deslizou até a cozinha obscurecida, iluminada apenas por uma lâmpada sobre o forno e a luz cinza difusa que entrava pela janela acima da pia. Era apenas névoa, e nada de sol. —Artemusssss!
Ele estava desperto; provavelmente tivera o mesmo sonho que ela. Afinal de contas, eles tinham o mesmo material estrelado nas veias. Sua voz foi ouvida através da porta:
— Vá embora.
— Abra a porta, Artemussss! — disse Gwenllian, esbaforida, tremendo. A floresta estava desfeita, sua mãe estava desfeita. Esse mágico covarde estava se escondendo nessa despensa, tendo matado a todos com sua inatividade. Ela tentou a porta; ele a havia prendido com algo por dentro.
— Hoje não! — disse Artemus. — Não, obrigado! Aconteceu muita coisa nesses dez anos. Talvez mais tarde! Não tenho como resistir ao choque! Obrigado por seu tempo.
Ele fora um conselheiro de reis.
Gwenllian bateu com a luminária na porta. A lâmpada se partiu com um ruído argênteo; a extremidade da luminária abriu a lâmina fina da porta. Ela cantarolou:
— Coelhinho, coelhinho no buraco/ Raposinha, raposinha no buraco/ Sabujinho, sabujinho no buraco! Sai daí, coelhinho, eu tenho perguntas a fazer. Sobre demônios.
— Eu sou uma criatura que se desenvolve lentamente! — lamentou Artemus. — Não consigo me adaptar tão rápido!
— Se alguém está nos roubando, favor voltar depois do expediente! — ouviu-se a voz de Calla no andar de cima.
— Você sabe o que aconteceu com a minha mãe, galho podre? — Gwenllian livrou a lamparina da porta de maneira que ela pudesse quebrá-la contra a superfície mais uma vez. A fenda se alargou. — Vou te dizer o que eu vi no meu espelho espelhos!
— Vá embora, Gwenllian — disse Artemus. — Não posso fazer nada por você! Me deixe sozinho!
— Você poderia me dizer onde está o meu pai, arbustinho? Em que buraco você o jogou?
Bluum
A porta se rachou em dois pedaços; Artemus se recolheu na escuridão. Ele estava encolhido em meio aos potes plásticos, às sacolas de supermercado e aos sacos de farinha. Protegeu seu rosto longo do alcance de Gwenllian enquanto ela empunhava a lamparina.
— Gwenllian! — disse Blue. — O que você está fazendo? Portas custam dinheiro.
Ali estava a filhinha de Artemus — ele não a merecia, de qualquer maneira — vindo ao socorro dele. Blue tinha segurado o braço de Gwenllian para evitar que ela rachasse o crânio de covarde dele com a lamparina.
— Você não quer decifrá-lo, lírio azul? — gritou Gwenllian. — Não sou a única que quer respostas. Você ouviu o grito da minha mãe, Artemussss?
— Gwenllian, vamos lá, é cedo, estamos dormindo. Ou estávamos — disse Blue.
Gwenllian largou a lamparina, livrou o braço e pegou Artemus por uma mão e pelo cabelo. Ela o arrastou para fora da despensa enquanto ele se queixava como um cachorro.
— Mãe! — gritou Blue, uma mão protegendo o olho.
Artemus se esparramou entre elas, espiando-as do chão.
— Me diga o quão forte é esse demônio, Artemus — sibilou Gwenllian. — Me diga onde está o meu pai. Me diga, me diga.
Subitamente, ele estava de pé e correndo, enquanto Gwenllian tentava agarrá-lo e segurá-lo, escorregando e deslizando no vidro estilhaçado da lâmpada. Ela caiu de lado, duramente, e levantou-se com esforço. Artemus já tinha passado pela porta de correr para o pátio dos fundos antes que Gwenllian tivesse se recuperado completamente, e, quando ela entrou no pátio enevoado, ele já tinha alcançado o primeiro galho da faia.
— Ela não vai te aceitar, seu covarde! — gritou Gwenllian, embora temesse que ela o aceitasse. Gwenllian se lançou atrás dele e começou a escalar a árvore. Ela não era uma estranha às árvores e aos seus galhos, e Gwenllian era mais rápida do que Artemus. Ela rosnou: — Seu malandro, seu sonhador, seu...
O vestido de Gwenllian se prendeu em um galho, salvando-o por meio segundo. Artemus lançou as mãos para cima, encontrou um galho e subiu um nível. Quando ela começou a escalar novamente, as folhas farfalharam dramaticamente e ramos menores se quebraram.
— Socorro — disse Artemus, de um jeito estranho. E completou: — Auxiril! — A palavra saiu rápida e cheia de terror, aflita e desesperada.
— Minha mãe — disse Gwenllian. Pensamentos para palavras sem pausa. — Minha mãe, minha mãe, minha mãe.
As folhas mortas da faia estremeceram acima deles, chovendo à sua volta.
Gwenllian saltou até onde Artemus estava.
Auxiril! — ele implorou novamente.
— Isso não vai te salvar!
Auxiril! — ele sussurrou, e se abraçou à árvore.
O restante das folhas de outono caiu com estrépito. Galhos desabaram. O chão vergou enquanto as raízes crispavam-se dramaticamente no solo. O galho abaixo de Gwenllian se encolheu e corcoveou com uma rajada violenta. A terra sussurrava lá embaixo enquanto as raízes arfavam — eles estavam distantes demais do caminho dos mortos para isso, e Artemus seguiria em frente de qualquer jeito, típico, típico, típico — e então Gwenllian desabou em queda livre quando o galho abaixo dela se partiu.
Ela caiu com tudo sobre o ombro, toda a respiração lhe escapando. Olhou para cima e encontrou Blue e seu amigo morto a encarando. Outras pessoas estavam paradas no vão da porta para a casa, mas Gwenllian estava confusa demais por causa da queda para identificá-las.
— O quê? — demandou Blue. — O que acabou de acontecer? Ele está...?
— Na árvore? — terminou Noah.
— Minha mãe está em uma árvore e está morta — disparou Gwenllian. — O seu pai está em uma árvore e é um covarde. Você é o azarado. Vou simplesmente matá-lo quando você sair daí, seu galho envenenado!
Isso foi dito em direção à árvore. Artemus podia ouvi-la, ela sabia disso, sua alma encolhida dentro daquela árvore que nem ele, maldita luz de árvore, maldito mágico. Saber que ele podia se esconder ali enquanto a faia sobrevivesse enfurecia Gwenllian. Não havia razão para o demônio se interessar por uma árvore tão longe de Cabeswater, e assim, após todo o mundo e todo o resto ter morrido, ele mais uma vez emergiria incólume.
Ah, a fúria.
Blue olhou para a faia, com a boca ligeiramente aberta.
— Ele está... ele está dentro dela?
— É claro! — disse Gwenllian. Ela se pôs de pé e agarrou grandes punhados da saia com as mãos para que não tropeçasse de novo. — É isso que ele é! Isso é o seu sangue. Você não sentiu raízes em suas veias? Maldições! Maldições.
Gwenllian voltou para casa pisando firme, tirando Maura e Calla do caminho aos empurrões.
— Gwenllian — disse Maura —, o que está acontecendo?
Gwenllian fez uma pausa no corredor.
— O demônio está vindo! Todo mundo vai morrer. Exceto o pai inútil dela. Ele viverá para sempre.

2 comentários:

  1. Então a árvore do capítulo anterior que resistiu era a mãe dela? 'o'

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  2. Como assim o pai da Blue viverá para sempre!?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!