5 de julho de 2018

Capítulo 41

— Cheguei — disse Blue, abrindo rapidamente a porta da Rua Fox, 300. Ela estava suada, irritada e nervosa, dividida entre torcer por um falso alarme e esperar que ele fosse importante o suficiente para justificar que ela implorasse uma saída no meio do expediente no Nino’s.
Calla a encontrou no corredor, enquanto ela deixava a bolsa ao lado da porta.
— Venha cá e ajude o Adam.
— O que tem de errado com o Adam?
— Nada — disparou Calla. — Fora o de sempre. Ele está procurando a Persephone.
Elas chegaram à porta da sala de leitura. Lá dentro, Adam estava sentado na ponta da mesa da sala. Estava absolutamente imóvel, com os olhos fechados. Na frente dele estava a tigela de divinação escura do quarto de Maura. A única luz vinha das velas bruxuleantes. Blue sentiu uma sensação desagradável no estômago.
— Não acho que seja uma boa ideia — ela disse. — Da última vez...
— Eu sei. Ele me contou — disse Calla. — Mas ele está disposto a arriscar. E será melhor com nós três.
— Por que ele está procurando a Persephone?
— Ele acha que tem algo errado com ela.
— Onde ela está? Ela disse aonde ia?
Calla lançou um olhar duro para Blue. É claro. Persephone nunca contava nada para ninguém.
— Tudo bem — disse Blue.
Calla fechou as portas da sala de leitura e fez sinal para que Blue se sentasse ao lado de Adam.
Ele abriu os olhos. Ela não tinha certeza do que perguntar a ele, e Adam apenas balançou a cabeça um pouco, como se estivesse bravo consigo mesmo, com Persephone ou com o mundo.
Calla se sentou à sua frente e pegou uma das mãos de Adam. Ela ordenou a Blue:
— Você pega a outra. Vou aterrá-lo e você vai amplificá-lo.
Blue e Adam trocaram um olhar. Eles não tinham segurado a mão um do outro desde que terminaram. Ela deslizou a mão sobre a mesa e Adam entrelaçou os dedos nos dela. Cautelosamente. Sem pressionar. Blue fechou os dedos em torno da mão dele.
Adam disse:
— Eu...
Ele parou e olhou de canto de olho para a tigela de divinação.
— Você o quê? — disse Calla.
Ele terminou:
— Estou confiando em vocês.
Blue segurou a mão dele um pouco mais leve. Calla disse:
— Não vamos deixar você cair.
A tigela tremeluzia sombriamente, e Adam olhou para dentro dela.
Ele olhou e olhou, as velas bruxuleando, e Blue sentiu o momento preciso em que o corpo dele soltou a alma, porque as velas ficaram estranhas nos reflexos e os dedos de Adam ficaram soltos nos seus.
Blue olhou bruscamente para Calla, mas esta permaneceu como estava, a mão clara de Adam pousada na mão escura dela, o queixo erguido para cima, os olhos voltados atentamente para Adam.
Os lábios dele se moveram, como se ele estivesse murmurando para si mesmo, mas não saiu nenhum som.
Blue pensou em como ela amplificava a divinação de Adam, forçando-o mais fundo ainda no espaço celeste. Adam agora perambulava, viajando para fora do corpo, desenrolando o fio que o amarrava a ele. Calla segurava o fio, mas Blue o empurrava mais para o fundo.
As sobrancelhas de Adam se cerraram. Os lábios se abriram. Os olhos eram de um negro absoluto — o negro da tigela de divinação espelhada.
De vez em quando, as três chamas torcidas refletidas na tigela apareciam em suas íris. Apenas às vezes havia duas em um olho e só uma no outro, ou  três em um e nenhuma no outro, ou três em ambos, e então escuridão.
— Não — sussurrou Adam, com uma voz diferente da sua. Blue se lembrou terrivelmente da noite em que ela encontrara Neeve por acaso realizando uma divinação nas raízes da faia.
Mais uma vez Blue olhou para Calla.
Mais uma vez Calla permaneceu imóvel e atenta.
— Maura? — chamou Adam. — Maura?
Era a voz de Persephone saindo da boca de Adam.
Não posso fazer isso, pensou Blue subitamente. Seu coração não suportaria isso, ter medo.
A outra mão de Calla buscou a mão de Blue sobre a mesa. Eles estavam unidos em um círculo em torno da tigela de divinação.
A respiração de Adam engasgou e diminuiu o ritmo.
De novo não.
Blue sentiu o corpo de Calla se ajeitando enquanto ela segurava a mão de Adam mais firme.
— Não — ele disse novamente, mas com sua própria voz.
As chamas eram enormes em seus olhos.
Então eles ficaram negros novamente.
Adam não respirava.
A sala ficou em silêncio por uma pulsação. Duas pulsações. Três pulsações.
As velas se apagaram na tigela de divinação.
— PERSEPHONE! — ele gritou.
— Agora — disse Calla, soltando a mão de Blue. — Largue ele!
Blue soltou a mão, mas nada aconteceu.
— Desconecte ele — rosnou Calla. — Eu sei que você consegue. Vou trazê-lo de volta!
Enquanto Calla usava a mão livre para pressionar um polegar no centro da testa de Adam, Blue tentava imaginar freneticamente o que havia feito para desconectar Noah lá na Monmouth. Uma coisa era fazer isso enquanto Noah jogava coisas para todo lado. Outra era fazer isso enquanto observava o peito parado de Adam e seus olhos vazios. E outra ainda enquanto os ombros dele caíam e o rosto desabava nas mãos de Calla que o esperavam, um instante antes de ele tombar em cima da tigela de divinação.
Ele está confiando em nós. Ele nunca confia em ninguém, e está confiando em nós. Ele está confiando em você, Blue.
Ela saltou da cadeira e ergueu seus muros. Tentou visualizar a luz branca sendo derramada para fortalecê-los, mas era difícil fazer isso quando via o corpo de Adam esparramado e sem vida na ponta da mesa de leitura. Calla deu um tapa no rosto dele.
— Vamos, seu imbecil! Lembre-se do seu corpo!
Blue virou de costas para a cena.
Fechou os olhos.
E conseguiu.
Houve silêncio.
Então as luzes no teto se acenderam e a voz de Adam disse:
— Ela está aqui.
Blue se virou com um giro.
— O que você quer dizer com aqui? — demandou Calla.
— Aqui — disse Adam, levantando-se da cadeira com um empurrão. — No andar de cima.
— Mas nós conferimos o quarto dela — disse Calla.
— Não no quarto dela. — Adam gesticulou com uma mão impacientemente. — O lugar mais alto... Onde é o lugar mais alto?
— O sótão — disse Blue. — Por que ela estaria lá em cima? Gwenllian...
— A Gwenllian está na árvore no pátio — disse Calla. — Está cantando para uns pássaros que a odeiam.
— Lá tem espelhos? — perguntou Adam. — Algum lugar aonde ela iria para procurar Maura?
Calla falou um palavrão.
Ela escancarou a porta do sótão e subiu correndo primeiro, com Blue e Adam logo atrás. No alto da escada, ela disse:
— Não.
Blue saltou passando por ela.
Entre os dois espelhos de Neeve havia uma pilha de renda, tela e...
Persephone.
Adam avançou rápido, mas Calla o segurou pelo braço.
— Não, seu idiota. Você não pode ficar entre eles! Blue, para!
— Eu posso — respondeu Blue, e deslizou para se ajoelhar ao lado de Persephone. Ela estava caída de joelhos, com os braços dobrados atrás de si e o queixo virado para cima, espremido ao pé de um dos espelhos. Seus olhos escuros miravam o nada.
— Vamos trazê-la de volta — disse Adam.
Mas Calla já estava chorando.
Blue, indiferente ao que pensassem dela, arrastou Persephone pelas axilas. Ela era leve e não opôs nenhuma resistência.
Eles a trariam de volta, como Adam disse.
Calla caiu de joelhos e cobriu o rosto.
— Para com isso — disparou Blue, a voz quase irrompendo em choro. — Vem até aqui e me ajuda.
Ela pegou a mão de Persephone. Estava fria como as paredes da caverna.
Adam ficou parado, abraçando a si mesmo, uma pergunta nos olhos.
Blue já sabia a resposta, mas não conseguia dizer.
Calla sim:
— Ela está morta.

5 comentários:

  1. Bem intenso esse capítulo. Persephone morte, muito triste. Sabendo de sua morte, estava ensinando o Adam?

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  2. cara ela nao pode morrer nao pode
    a blue vai dar um jeito disso tem que dar
    ELA NAO PODE MORRER !!!!!!
    ASS:Janielli

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  3. Ai, começaram a matar os personagens u.u

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!