5 de julho de 2018

Capítulo 40

— Esse é um dos meus lugares favoritos — disse Persephone, empurrando a cadeira de balanço para frente e para trás com os pés no chão. Seu cabelo caía em cascata sobre os braços. — É tão aconchegante.
Adam estava sentado na ponta da cadeira de balanço, ao lado dela. Ele não gostava muito do lugar, mas não falou nada. Persephone tinha pedido para ele se encontrar com ela ali, e ela quase nunca tomava a decisão de onde se encontrar com ele; normalmente a deixava para Adam, o que sempre parecia um teste.
Era um armazém antigo e esquisito, do tipo que não existia mais em nenhum lugar, mas não era incomum na periferia de Henrietta. A parte de fora normalmente parecia com esta: uma varanda baixa e espaçosa alinhada com cadeiras de balanço de frente para a estrada, um estacionamento de cascalho com caminhos sulcados, cartazes de iscas e cigarros nas janelas. O lado de dentro normalmente tinha comida de marcas que nunca se ouviu falar, camisetas que Adam não usaria, provisões para pesca, brinquedos de outras décadas e a ocasional cabeça de cervo empalhada. Era um lugar que Adam, um caipira, descobrira ser frequentado por pessoas que ele considerava ainda mais caipiras.
No entanto, Gansey provavelmente gostaria dali. Era um daqueles lugares onde o tempo parecia irrelevante, especialmente em um entardecer como este: a luz mosqueada passando inconstante pelas folhas, estorninhos chamando dos fios de telefone amarrados próximos, homens velhos em picapes velhas passando lentamente, tudo parecendo ter saído de vinte anos atrás.
— Três — disse Persephone — é um número muito forte.
Lições com Persephone eram algo imprevisível. Ele nunca sabia para onde estava indo, o que iria aprender. Às vezes, ele não havia nem descoberto alguma coisa ainda, e já não havia mais nada.
Naquele fim de tarde ele queria perguntar sobre Maura, mas era difícil fazer uma pergunta a Persephone e obter uma resposta quando você a queria. Normalmente, funcionava melhor se você fizesse a pergunta um pouco antes de ela dar a resposta.
— Tipo três adormecidos?
— Certamente — respondeu Persephone. — Ou três cavaleiros.
— Existem três cavaleiros?
Ela apontou, chamando a atenção dele para um corvo ou uma gralha grande que andava aos pulos lentamente do outro lado da estrada. Era difícil dizer se ela achava isso significativo ou simplesmente engraçado.
— Existiram, uma vez. Três Jesuses, também.
Isso fez Adam pensar por um instante.
— Ah, meu Deus. Você quer dizer Deus, Jesus e o Espírito Santo?
Persephone girou uma mãozinha.
— Eu sempre esqueço nomes. Tem um deus que são três mulheres, também. Uma é chamada de Guerra, eu acho, e a outra é um bebê... Não sei, eu esqueço os detalhes. O três é a parte importante.
Adam tinha melhorado sua habilidade de jogar esses jogos e adivinhar as conexões.
— Você, Maura e Calla.
Talvez agora fosse o momento de tocar no assunto...
Ela anuiu, ou se balançou na cadeira, ou as duas coisas.
— Trata-se de um número estável, três. Cinco e sete são bons também, mas três é o melhor. As coisas estão sempre crescendo em três ou diminuindo para três. Melhor começar aí. Dois é um número terrível. Dois é para rivalidade, luta e assassinato.
— Ou casamento — disse Adam, pensativo.
— É a mesma coisa — respondeu Persephone. — Aqui tem três dólares. Vá lá dentro e pegue um refrigerante de cereja para mim.
Ele o fez, tentando pensar, o tempo inteiro, como perguntar sobre usar a sua visão para encontrar Maura. Com Persephone, era possível que fosse a respeito disso que ele estivesse conversando o tempo inteiro.
Quando retornou, ele disse, subitamente:
— Esta é a última vez, não é?
Ela continuou balançando a cadeira, mas anuiu:
— Em um primeiro momento, achei que você talvez substituísse uma de nós se algo acontecesse um dia.
Adam precisou de um longo tempo para entender a frase, e, quando finalmente entendeu, a surpresa fez com que ele não respondesse por mais um minuto.
— Eu?
— Você é um ouvinte muito bom.
— Mas eu... eu... — Adam não conseguia pensar em como terminar a frase, mas finalmente disse: — Estou partindo.
Mesmo enquanto o dizia, ele sabia que não era isso que queria dizer.
Persephone apenas respondeu, em sua vozinha:
— Mas vejo agora que isso jamais poderia acontecer. Você é como eu. Não somos realmente como os outros.
Outros o quê? Humanos?
Você é incognoscível.
Ele pensou naquele momento no topo da montanha, ele, Blue e Noah.
Ou no tribunal, ele, Ronan e Gansey.
Adam não tinha mais certeza.
— Na verdade, nós estamos melhor na companhia de nós mesmos — disse Persephone. — Isso torna as coisas difíceis para os outros às vezes, quando não conseguem nos compreender.
Ela estava tentando fazer com que Adam dissesse alguma coisa, fizesse alguma conexão, mas ele não tinha certeza do quê. Ele disse:
— Não me diga que a Maura está morta.
Ela balançou e balançou a cadeira. Então Persephone parou e olhou para ele com seus olhos negros, negros. O sol havia caído atrás da linha das árvores, fazendo uma renda negra das folhas e uma renda branca do seu cabelo.
Adam prendeu a respiração e perguntou em voz baixa:
— Você consegue ver a sua própria morte?
— Todos veem — disse Persephone suavemente. — Mas a maioria das pessoas prefere parar de olhar.
— Eu não vejo a minha própria morte — disse Adam. Mas, mesmo enquanto o dizia, ele sentia o canto do conhecimento a mordiscá-lo. Era agora, estava vindo, já havia acontecido. Em algum lugar, em algum momento, ele estava morrendo.
— Ah, você vê — ela disse.
— Mas não é a mesma coisa que saber como.
— Você não disse como.
O que ele queria dizer, mas não conseguia, porque Persephone não compreenderia, era que ele tinha medo. Não de ver coisas como aquilo. Mas de um dia não ser capaz de ver todo o resto. O real. O mundano. As coisas... humanas.
Não somos realmente como os outros.
Mas Adam pensou que ele talvez fosse. Pensou que devia ser, pois ele se preocupava profundamente com o desaparecimento de Maura, e ainda mais profundamente com a morte de Gansey, e, agora que ele sabia dessas coisas, queria fazer algo a respeito delas. Ele precisava fazer. Ele era Cabeswater, estendendo-se para os outros.
Adam respirou tremulamente:
— Você sabe como o Gansey vai morrer?
Persephone colocou a língua para fora, só um pouco. Ela não parecia notar que estava fazendo isso. Então disse:
— Aqui tem mais três dólares. Pegue um refrigerante de cereja para você.
Adam não aceitou o dinheiro. Ele disse:
— Eu quero saber há quanto tempo você sabe sobre o Gansey. Desde o início? Desde o início. Você sabia no momento em que ele entrou pela porta para a leitura! Você ia nos contar um dia?
— Não sei por que eu faria algo tão ridículo. Pegue o seu refrigerante.
Ainda assim ele não pegou as notas. Segurando os braços da cadeira de balanço com as mãos, ele disse:
— Quando eu encontrar Glendower, vou pedir a ele pela vida de Gansey. Não vou nem pensar duas vezes.
Persephone só olhou para ele.
Na cabeça de Adam, Gansey se sacudia e chutava, coberto de sangue. Só que agora era o rosto de Ronan — Ronan já havia morrido, Gansey ia morrer; em algum lugar, em algum momento, isso estava acontecendo?
Ele não queria saber. Ele queria saber.
— Então me conta! — ele disse. — Me diz o que fazer!
— O que você quer que eu diga?
Adam saltou tão rápido da cadeira que ela balançou furiosamente sem ele.
— Me diz como salvar o Gansey!
— Por quanto tempo? — perguntou Persephone.
— Para! — ele disse. — Para com isso! Deixe de ser tão... tão... distante! Não posso olhar para tudo o tempo inteiro, senão qual seria o sentido disso? Apenas me diz como posso evitar de matar meu amigo!
Persephone inclinou a cabeça.
— O que o faz pensar que você vai matar seu amigo?
Ele a encarou. Então entrou de novo para buscar mais um refrigerante de cereja.
— Com sede? — perguntou a atendente enquanto ele lhe passava o dinheiro.
— O outro foi para a minha amiga — disse Adam, embora não tivesse certeza de que alguma pessoa fosse amiga de Persephone.
— Sua amiga? — perguntou a atendente.
— Provavelmente.
Ele voltou para fora e encontrou a varanda vazia. A cadeira dele ainda balançava um pouco. O outro refrigerante de cereja estava de pé ao lado dela.
— Persephone?
Com súbita apreensão, ele correu até a cadeira de balanço onde Persephone estivera sentada e colocou a mão sobre o assento. Frio. Em seguida colocou a mão sobre o assento da cadeira dele. Quente.
Adam esticou o pescoço, tentando ver se ela tinha voltado para dentro do carro. Não havia nada. O estacionamento estava deserto; até o pássaro tinha ido embora.
— Não — ele disse, embora não houvesse ninguém para ouvi-lo. Sua mente, uma mente curiosamente refeita por Cabeswater, vasculhou furiosamente tudo que ele sabia e sentia, tudo que Persephone havia dito, cada momento desde que ele havia chegado. O sol caía gradativamente atrás das árvores. — Não — ele disse de novo.
A atendente estava junto à porta, trancando-a para a noite.
— Espera — disse Adam. — Você viu a minha amiga? Ou eu vim aqui sozinho?
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Desculpa — ele disse. — Eu sei que parece loucura. Por favor. Eu estava sozinho?
A atendente hesitou, esperando pelo fim da piada. Então anuiu.
Adam sentiu um aperto no coração.
— Eu preciso usar o seu telefone. Por favor, moça. Só um segundo.
— Por quê?
— Algo terrível aconteceu.

2 comentários:

  1. Mano, não me diz que ela morreu ou sumiu igual a Maura

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  2. Vai todo mundo encontrar a Neeve em lugar nenhum?!

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!