4 de julho de 2018

Capítulo 4

Blue não conseguia dormir aquela noite. Ela não conseguia parar de esperar pelo ruído da porta da frente. Alguma parte boba e entranhada dela não conseguia acreditar que sua mãe não voltaria para casa antes de a escola começar, no dia seguinte. Sua mãe sempre tivera resposta para tudo, mesmo que fosse errada, e Blue dera como certo que ela seguiria inalterável quando todo o resto virasse do avesso.
Blue sentia falta dela.
Ela foi até o corredor e ouviu. Na rua, Orla estava conduzindo uma limpeza de chacra à meia-noite com alguns clientes ardorosos. No andar de baixo, Calla via televisão irritadamente sozinha. No seu andar, ela não ouviu nada, nada — e então uma série de suspiros curtos e intencionais do quarto de Persephone no fim do corredor.
Quando ela bateu, Persephone disse em sua voz pequenina:
— Entre, por favor.
Do lado de dentro, a luz da lâmpada chegava somente até uma mesinha barata e à extremidade da cama de solteiro, alta e antiga, de Persephone. Ela estava sentada de pernas cruzadas na cadeira vitoriana da escrivaninha, a enorme nuvem de cabelo crespo iluminada em tons dourados pela única lâmpada. Ela trabalhava em um velho blusão.
Quando Blue subiu no colchão usado, vários rolos de fios rolaram para se aninhar em seus pés descalços. Ela puxou a camiseta extragrande sobre os joelhos e observou Persephone por alguns minutos. Esta parecia acrescentar comprimento às mangas, costurando punhos que não combinavam entre si. De tempos em tempos, Persephone suspirava, como se estivesse incomodada consigo mesma ou com o blusão.
— É seu? — perguntou Blue.
— O que é meu? — Persephone seguiu o olhar dela até o blusão. — Ah. Ah, não. Quer dizer, era. Mas, como você pode ver, estou fazendo mudanças nele.
— Para alguém com braços longos de gigante?
Persephone segurou a peça de roupa à sua frente para verificar se era esse o caso.
— Sim.
Blue lentamente alinhou os fios por cor na cama ao lado dela.
— Você acha que a minha mãe foi procurar o Chuchu?
— O seu pai. Artemus — corrigiu Persephone. Ou esclareceu. Chuchu não era realmente o nome do pai de Blue; era um apelido carinhoso que aparentemente Maura havia lhe dado nos velhos tempos. — Acho que isso seria simplificar demais a questão. Mas sim, essa é uma das razões por que ela foi.
— Achei que ela era a fim do sr. Cinzento.
Persephone pensou um pouco.
— O problema com a sua mãe, Blue, é que ela gosta de tocar as coisas. Nós dissemos a ela que Artemus estava no passado. Ele fez as próprias escolhas muito tempo antes de você, eu disse. Mas não, ela tinha que continuar tocando naquilo! Como você pode esperar que algo sare se você não para de cutucar a ferida?
— Entãããão... ela... foi... buscar... meu pai?
— Ah, não! — disse Persephone com uma risadinha. — Não acho que ela faria isso, não. Como você disse, ela é a fim do sr. Cinzento. Os jovens realmente dizem isso ainda?
— Eu acabei de dizer. E sou jovem.
— Um pouco.
— Você está me perguntando ou não? Ou você aceita minha autoridade sobre o assunto, ou seguimos em frente.
— Seguimos em frente. Mas é ela quem decide, sabe, se quer procurá-lo. Ela nunca consegue estar realmente sozinha, e essa é a chance dela de tirar um tempo para si.
Blue não achava que Maura era do tipo de pessoa que gostava de tirar um tempo para si, mas talvez esse tenha sido o problema.
— Então você está dizendo que a gente não deve continuar procurando por ela?
— Como eu vou saber?
— Você é médium! Você cobra das pessoas para prever o futuro delas! Então faça isso!
Persephone mirou Blue e seus olhos absolutamente negros, até que ela se sentiu um pouco mal por seu acesso de raiva, e então acrescentou:
— A Maura foi para Cabeswater. Isso não é o futuro. Além disso, se ela quisesse ajuda, teria pedido. Provavelmente.
— Se eu tivesse te pagado — disse Blue perigosamente —, pediria meu dinheiro de volta agora mesmo.
— Que sorte que você não me pagou, então. Isso parece alinhado para você? — Persephone segurou o blusão no alto. As duas mangas não pareciam nem um pouco uma com a outra.
Com um pfíu! um tanto explosivo, Blue saltou da cama e saiu apressada do quarto. Em seguida ouviu Persephone dizer:
— O sono é o alimento do cérebro! — enquanto seguia pelo corredor.
Blue não se sentia confortada. Parecia que não tivera uma conversa significativa com um ser humano.
Em vez de ir para o seu quarto, ela entrou furtivamente no Quarto do Telefone/Costura/Gato no escuro e se sentou ao lado da linha de atendimento mediúnico, dobrando as pernas despidas debaixo de si. A janela, escancarada, deixava entrar o ar gelado. A luz da rua através das folhas lançava sombras familiares e vivas sobre as caixas de materiais de costura. Blue pegou um travesseiro da cadeira e o largou sobre as pernas dobradas como patas de ganso antes de pegar o telefone. Ela ouviu para se certificar de que havia linha e não atividade mediúnica do outro lado.
Então ligou para Gansey.
O telefone tocou duas, três vezes, e então:
— Alô?
Ele soava como um menino qualquer. Blue perguntou:
— Te acordei?
Ela ouviu Gansey procurar desajeitadamente e encontrar seus óculos.
— Não — ele mentiu —, eu estava acordado.
— De qualquer maneira, eu te liguei por engano. Eu queria ligar para o Congresso, mas o seu número é muito parecido.
— Ah, é?
— Sim, porque o seu tem 6-6-5. — Ela fez uma pausa. — Sacou?
— Ah, você.
— 6-6-5. Um número diferente. Sacou?
— Sim, saquei. — Gansey ficou em silêncio por um minuto, embora ela pudesse ouvi-lo respirando. — Eu não sabia que você podia ligar para o inferno, na realidade.
— Você pode ligar — disse Blue. — A questão é que você não pode desligar.
— Mas imagino que você possa enviar cartas.
— Nunca com selos suficientes.
— Não, fax — Gansey se corrigiu. — Finja que eu não disse cartas. Fax é mais engraçado.
Blue riu no travesseiro.
— Tudo bem, isso é tudo.
— Tudo o quê?
— Tudo que eu tinha para dizer.
— Aprendi bastante. Que bom que você errou o número.
— Bom. Um erro fácil de cometer — ela disse. — Talvez eu faça isso de novo.
Pausa muito, muito longa. Blue abriu a boca para preenchê-la, então mudou de ideia e não o fez. Ela estava com calafrios de novo, embora não estivesse com frio, com o travesseiro sobre as pernas.
— Não deveria — disse Gansey finalmente. — Mas espero que você faça.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!