30 de julho de 2018

Capítulo 3

LIMEROS

Alguém fez uma pergunta a Magnus, mas ele não estava prestando muita atenção. Depois de um tempo, todos em um banquete como aquele começavam a parecer um enxame de abelhas barulhentas. Irritantes, mas impossíveis de esmagar de forma rápida e fácil.
Ele fixou no rosto o que esperava ser uma expressão agradável e se virou para a esquerda para enfrentar o mais ruidoso dos insetos. Mordeu mais um pedaço de kaana e engoliu-o sem mastigar, na tentativa de disfarçar o sabor. Mal olhou para a carne salgada que estava em seu prato. Estava perdendo o apetite.
— Perdão, Milady — ele disse. — Eu não escutei muito bem.
— Sua irmã, Lucia — repetiu Lady Sophia, batendo de leve no canto da boca com um guardanapo de jacquard bordado. — Ela se tornou uma jovem adorável, não é?
Magnus piscou. Aquelas conversas fiadas eram tão exaustivas.
— Sim, de fato.
— Diga-me novamente: quantos anos ela faz hoje?
— Dezesseis.
— Garota adorável. E tão educada.
— Ela foi bem criada.
— É claro. Ela já está prometida a alguém?
— Ainda não.
— Hum. Meu filho Bernardo tem muitas qualidades, é muito bonito, e o que lhe falta em altura é mais do que compensado em inteligência. Acho que eles formariam um belo casal.
— Sugiro, Milady, que converse sobre isso com meu pai.
Por que o puseram para sentar bem ao lado daquela mulher? Ela era velha e cheirava a pó, e, por algum motivo bizarro, a algas marinhas. Talvez tivesse surgido do Mar Prateado e viajado pelos penhascos rochosos para chegar ao gelado castelo de Limeros pelo alto, em vez de cruzar as terras cobertas de gelo, como todos os outros.
Seu marido, lorde Lenardo, inclinou-se para a frente na cadeira de encosto alto.
— Chega de bancar a casamenteira, mulher. Estou curioso para saber o que o príncipe pensa sobre os problemas em Paelsia.
— Problemas? — Magnus perguntou.
— A agitação causada pela morte do filho de um pobre vendedor de vinho no mercado, na semana passada, diante de todos.
Magnus passou o indicador na borda de seu cálice.
— A morte do filho de um pobre vendedor de vinho. Desculpe minha visível falta de interesse, mas não me parece nada fora do comum. Os paelsianos são uma raça selvagem, que logo apela para a violência. Ouvi dizer que comem carne crua de bom grado se suas fogueiras demoram muito para acender.
Lorde Lenardo lançou a ele um sorriso torto.
— De fato. Mas esse caso é diferente por ter acontecido pelas mãos de um membro da nobreza de Auranos.
Aquilo era mais interessante, pelo menos um pouco.
— É mesmo? Quem?
— Não sei, mas há rumores de que a própria princesa Cleiona esteve envolvida na discussão.
— Ah. Aprendi que rumores se parecem bastante com penas. Dificilmente sustentam muito peso.
A menos, é claro, que aqueles rumores se provassem verdadeiros.
Magnus sabia bem quem era a jovem princesa de Auranos. Era dona de grande beleza e tinha a mesma idade de sua irmã. Ele a encontrara uma vez, quando ambos eram crianças; depois, nunca mais tivera interesse em voltar a Auranos. Além disso, seu pai tinha muita antipatia pelo rei auraniano e, até onde ele sabia, o sentimento era recíproco.
Ele passou os olhos pelo grande salão e trocou olhares com o pai, que o encarava com fria reprovação. Seu pai desprezava o jeito de Magnus quando este ficava entediado em uma função pública como aquela. Considerava insolente de sua parte. Mas era difícil para Magnus esconder o modo como se sentia, embora tivesse de admitir que não se esforçava muito para isso.
Magnus ergueu o cálice de água e brindou ao pai, o rei Gaius Damora de Limeros.
Os lábios de seu pai afinaram.
Irrelevante. Não era função de Magnus garantir que o banquete corresse bem. Era tudo fingimento mesmo. O rei era um homem intimidador que obrigava o povo a seguir suas ordens — suas armas favoritas eram o medo e a violência, e ele tinha uma horda de cavaleiros e soldados para impor sua vontade e manter os súditos na linha. Ele se esforçava muito para manter as aparências e se mostrar forte, capaz e imensamente próspero.
Mas Limeros vinha passando por dificuldades desde que o implacável Gaius, o Rei Sanguinário, assumira o trono de seu pai, o amado rei Davidus. Os problemas econômicos ainda não haviam afetado diretamente aqueles que viviam no palácio, dado que a religião limeriana não incentivava o luxo, mas era impossível ignorar o aperto pelo qual passava o reino como um todo. Magnus se divertia com o fato de o rei nunca ter falado disso em público.
Ainda assim, foi servida à realeza uma porção de kaana — purê de feijão amarelo com gosto de cola — com a refeição, e esperava-se que eles a comessem. Era o que muitos limerianos estavam empurrando para dentro enquanto o inverno se arrastava cada vez mais.
Algumas das tapeçarias e pinturas mais elaboradas haviam sido guardadas em um depósito, deixando as paredes do castelo nuas e frias. A música foi proibida, assim como o canto e a dança. Só era permitida a leitura de livros educativos dentro do palácio de Limeros, nada que contasse uma história apenas para fins de entretenimento. O rei Gaius importava-se apenas com os ideais limerianos de força, fé e sabedoria — e não com a arte, a beleza ou o prazer. Circulavam rumores de que o declínio de Limeros havia começado — como acontecera com Paelsia algumas gerações antes — devido à morte dos elementia, a magia elementar. A magia essencial que dera origem ao mundo estava secando por completo, como um corpo d’água no meio do deserto.
Sobraram apenas vestígios de elementia quando as deusas rivais, Cleiona e Valoria, destruíram uma a outra, há séculos. Mas até mesmo esses vestígios, segredavam aqueles que acreditavam na magia, estavam começando a desaparecer. Limeros congelava a cada ano, e a primavera e o verão já não passavam de alguns curtos meses. Paelsia estava definhando, o solo estava esgotado e seco. Apenas Auranos, ao sul, não mostrava sinais de decadência.
Limeros era uma terra extremamente religiosa, cujo povo se apegava à crença na deusa Valoria, em especial nas épocas de dificuldade. Mas Magnus julgava, em seu íntimo, que aqueles que acreditavam no sobrenatural, em quaisquer de suas formas, demonstravam fraqueza interior.
Pelo menos a maioria dos que acreditavam. Ele abria exceção para poucos. Direcionou o olhar para a direita de seu pai, onde sua irmã se sentava obediente, como convidada de honra daquele banquete de celebração do seu aniversário.
O vestido que ela usava aquela noite era de um tom laranja rosado que fazia Magnus se lembrar do pôr do sol. Era um vestido novo, com costura perfeita, refletindo a imagem de eterna riqueza e perfeição que seu pai exigia que a família Damora sustentasse — embora ele mesmo tivesse de admitir a surpresa com aquele colorido no mar de cinza e preto que o rei costumava preferir.
A princesa tinha pele clara e impecável e cabelos longos e sedosos que, quando não estavam trançados, caíam até a cintura em ondas suaves. Seus olhos eram da cor do céu. Os lábios eram volumosos e naturalmente rosados. Lucia Eva Damora era a garota mais bonita de toda Limeros. Sem exceção.
De repente, o cálice de vidro que Magnus segurava com firmeza estilhaçou e cortou sua mão. Ele xingou e pegou um guardanapo para cobrir o ferimento. Lady Sophia e lorde Lenardo olharam para ele alarmados, como se temessem que as conversas de noivado e assassinato tivessem perturbado o rapaz.
Não era nada daquilo.
“Idiota, tão idiota.”
O pensamento foi refletido pelo olhar no rosto de seu pai — ele não havia perdido nada. Sua mãe, a rainha Althea, sentada à esquerda do rei, também tinha notado. Ela desviou os olhos frios e continuou a conversar com a mulher sentada ao lado.
O pai continuou encarando. Ele olhava feio, como se estivesse constrangido por estar na mesma sala que Magnus. O insolente e canhestro príncipe Magnus, herdeiro do rei. “Pelo menos por enquanto”, ele pensava de mau humor, voltando sua atenção para Tobias… “o braço direito de seu pai”. Magnus se perguntava se chegaria o dia em que seu pai o aprovaria.
Achou que deveria ficar grato porque o rei se dera ao trabalho de convidá-lo para o evento. Mais uma vez, Gaius queria passar a imagem de que a família real de Limeros era integrada e unida — hoje e sempre.
Que piada.
Magnus já teria deixado a fria e sem graça Limeros para explorar sem pressa os reinos que ficavam do outro lado do Mar Prateado, mas havia uma coisa que o mantinha bem ali onde estava, mesmo prestes a completar dezoito anos.
— Magnus! — Lucia correu para perto dele e se ajoelhou ao seu lado. Sua atenção se voltava para a mão dele. — Você se machucou.
— Não é nada — ele disse com firmeza. — Apenas um arranhão.
O sangue já havia ensopado a atadura improvisada. Ela estava preocupada.
— Só um arranhão? Acho que não. Venha comigo que eu o ajudarei a fazer um curativo de verdade.
Ela puxou o irmão pelo pulso.
— Vá com ela — Lady Sophia aconselhou. — Não vai querer que isso infeccione.
— Não, eu não gostaria que isso acontecesse. — O maxilar de Magnus ficou tenso. A dor não era suficiente para incomodá-lo, mas o constrangimento o aguilhoava. — Tudo bem, minha irmã, a curandeira. Deixarei que faça um curativo.
Ela lançou-lhe um sorriso reconfortante que fez algo dentro dele se contorcer. Algo que ele tentava ignorar a qualquer custo.
Magnus não olhou para o pai nem para a mãe ao sair do banquete. Lucia o levou para um salão adjacente, mais fresco sem o calor corporal dos convidados. Penduradas, tapeçarias macias aqueciam um pouco as frias paredes de pedra. Um busto de bronze do rei Gaius o encarava do alto de um pedestal entre pilares de granito, julgando-o com severidade mesmo agora que não estava na presença do pai. Lucia pediu que uma criada do palácio fosse buscar uma bacia com água e bandagens, depois sentou Magnus a seu lado e tirou o guardanapo que cobria o ferimento.
Ele permitiu.
— O vidro era frágil demais — ele explicou.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O cálice se estilhaçou sem nenhum motivo?
— Isso mesmo.
Ela suspirou, depois mergulhou um tecido na água e começou a limpar o ferimento com cuidado. Magnus não voltou a sentir dor.
— Sei exatamente como aconteceu.
Ele ficou tenso.
— Sabe?
— É o nosso pai. — Seus olhos azuis se voltaram para cima e olharam nos dele. — Você está bravo com ele.
— E você acha que eu imaginei o pescoço dele no lugar da haste da taça, como muitos dos súditos devem ter achado?
— E foi isso? — Ela pressionou a mão com firmeza para ajudar a estancar o fluxo de sangue.
— Eu não estou bravo com ele. Acho que é o contrário. Ele me odeia.
— Ele não te odeia. Ele te ama.
— Então ele deve ser o único.
Um sorriso iluminou o rosto dela.
— Ah, Magnus. Não seja bobo. Eu amo você. Mais do qualquer outra pessoa no mundo. Você deve saber disso, não é?
Parecia que alguém havia feito um buraco no peito de Magnus, agarrado seu coração e apertado com força. Ele limpou a garganta e olhou para a mão.
— É claro. E eu também amo você.
As palavras pareciam pesadas em sua língua. As mentiras sempre foram macias como seda para ele, mas dizer a verdade nunca havia sido fácil.
O que ele sentia por Lucia era apenas o amor de um irmão por sua irmã.
Essa mentira parecia suave. Mesmo quando disse a si mesmo.
— Pronto — ela disse, dando um tapinha no curativo enrolado na mão dele. — Bem melhor.
— Você deveria ser uma curandeira de verdade.
— Acho que nossos pais não considerariam essa função adequada a uma princesa.
— Você tem razão. Eles não aprovariam.
As mãos dela ainda estavam sobre as dele.
— Graças à deusa o ferimento foi leve.
— É, graças à deusa — ele disse, seco, antes de entortar os lábios. — Sua devoção a Valoria me deixa envergonhado da minha. Sempre deixou.
Lucia olhou para o irmão com severidade, mas mantendo o sorriso.
— Sei que você acha que crer demais no oculto é bobagem.
— Não sei se usaria a palavra bobagem.
— Às vezes é necessário acreditar em algo maior do que si mesmo, Magnus. Algo que não se pode ver ou tocar. Permitir que seu coração tenha fé, custe o que custar. É o que lhe dará força nos momentos difíceis.
Ele olhou para ela com paciência.
— Se está dizendo.
O sorriso de Lucia se alargou. O pessimismo do irmão sempre a divertiu. Já haviam tido aquela discussão diversas vezes.
— Um dia você vai acreditar. Sei que vai.
— Acredito em você. Isso não basta?
— Então acho que devo dar um bom exemplo ao meu querido irmão. — Ela se aproximou e encostou os lábios no rosto dele. Ele ficou sem respirar por um instante. — Preciso voltar ao banquete. Afinal, ele é supostamente em minha homenagem. Nossa mãe ficará brava se eu desaparecer e não voltar mais.
Ele concordou e tocou o curativo.
— Obrigado por salvar minha vida.
— Não chega a tanto. Mas tente controlar seu temperamento perto de coisas que quebram.
— Eu vou me lembrar disso.
Lucia lançou a ele um último sorriso e voltou às pressas para o grande salão.
Magnus continuou onde estava por vários minutos, ouvindo o zum-zum-zum da conversa dos nobres no banquete. Parecia que ele não conseguia reunir energia ou interesse para voltar ao salão. Se alguém perguntasse no dia seguinte, diria apenas que a perda de sangue o deixara indisposto.
Ele estava mesmo indisposto. O que sentia por Lucia era errado. Anormal. E ficava mais forte a cada dia, mesmo que ele fizesse de tudo para ignorar. Durante um ano, ele mal conseguiu olhar para outra garota da nobreza — bem na época em que seu pai o pressionava para escolher a futura esposa.
Logo o rei acharia que seu filho não se interessava por garotas. Para ser sincero, Magnus não se importava muito com o que o pai podia achar. Mesmo que ele preferisse garotos, o rei ainda o forçaria a se casar com alguém de sua escolha assim que perdesse a paciência. Não seria Lucia nem em seus sonhos mais absurdos. Aquelas uniões incestuosas — mesmo entre membros da família real — eram proibidas tanto por lei quanto pela religião. E se Lucia soubesse do tamanho de seus sentimentos por ela, ficaria enojada. Ele não queria que a luz que havia em seus olhos quando ela olhava para ele diminuísse nem um pouco. Aquela luz era a única coisa que lhe dava alegria.
Todo o resto relacionado ao assunto o deixava profundamente triste.
Uma criada bastante jovem passou por ele no corredor frio e escuro e deu uma olhada, parando. Ela tinha olhos acinzentados e cabelos castanhos, presos em um coque. O vestido de lã estava desbotado, mas limpo e sem vincos.
— Príncipe Magnus, posso fazer alguma coisa pelo senhor?
Ainda que a presença de sua bela irmã o torturasse, ele se permitia algumas distrações insignificantes. Amia era bastante útil, em inúmeros sentidos.
— Hoje não, minha flor.
Ela se aproximou de maneira conspirativa.
— O rei deixou o banquete e está se encontrando com Lady Mallius nesse exato momento, no terraço, conversando em voz baixa. Interessante, não é?
— Talvez.
Nos últimos meses, Amia havia se provado uma ferramenta útil para descobrir algumas informações. Ela era os olhos e os ouvidos de Magnus dentro do castelo, e não tinha escrúpulos para escutar conversas para o príncipe sempre que houvesse oportunidade. Uma ou outra palavra gentil ou a ponta de um sorriso eram suficientes para mantê-la leal. Amia acreditava que Magnus a manteria para sempre como amante. Nesse quesito, estava destinada a se desapontar. Quando estava fora do campo de visão de Magnus, ele se esquecia completamente dela.
O príncipe deu um tapinha em sua cintura, dispensando-a, e caminhou em silêncio na direção do terraço de pedra que dava para o mar negro e para os penhascos sobre os quais o castelo e a capital de Limeros se assentavam. Era o local preferido de seu pai para refletir, apesar do frio cortante do inverno em noites como aquela.
— Não seja ridícula — sussurrou, do terraço, o rei. — Não tem nada a ver com esses rumores. Você está sendo supersticiosa.
— Que outra explicação pode haver? — disse outra voz conhecida. Lady Sabina Mallius, viúva do ex-conselheiro do rei. Pelo menos esse era seu título oficial. O extraoficial era de amante do rei, posto que ocupava há quase duas décadas. O rei não guardava segredo de ninguém, nem da rainha ou dos filhos.
A rainha Althea tolerava a infidelidade em silêncio. Magnus não tinha muita certeza se a mulher fria que chamava de mãe se importava com o que o marido fazia, ou com quem fazia.
— Que outra explicação para as dificuldades de Limeros? — perguntou o rei. — Muitas. E nenhuma delas tem a ver com magia.
“Ah”, pensou Magnus. “Parece que a conversa dos camponeses também se tornou uma discussão para os nobres.”
— Você não sabe.
Houve uma longa pausa.
— Sei o suficiente para duvidar.
— Se qualquer parte dessa disputa é baseada em elementia, significa que não estávamos errados. Que eu não estava errada. Que todos esses anos não foram perdidos enquanto esperávamos por um sinal.
— Você viu o sinal há anos. As estrelas lhe disseram o que precisava saber.
— Minha irmã viu os sinais, não eu. Mas sei que ela estava certa.
— Já se passaram dezesseis anos e nada aconteceu. Apenas uma espera infinita. Minha decepção aumenta a cada dia que passa.
Ela suspirou.
— Gostaria de ter certeza. Tudo o que tenho é minha fé de que você só terá que esperar mais um pouco.
O rei riu, mas não havia humor em sua risada.
— Quanto tempo devo esperar até bani-la para as Montanhas Proibidas por tamanha decepção? Ou talvez eu possa pensar em uma punição mais adequada a alguém como você.
A voz de Sabina esfriou.
— Eu o aconselho a nem ao menos considerar uma coisa dessas.
— É uma ameaça?
— É um alerta, meu amor. A profecia é tão verdadeira hoje quanto naqueles anos. Eu ainda acredito nela. E você?
Houve uma longa pausa.
— Eu acredito. Mas estou ficando sem paciência. Não vai demorar muito até que estejamos arruinados, assim como aconteceu com Paelsia, e também precisemos viver como camponeses pobres.
— Lucia está com dezesseis anos. Está chegando o momento de seu despertar, sei que está.
— Reze para estar certa. Não aceitarei bem a desilusão se você estiver errada, mesmo vindo de você, Sabina. E você sabe muito bem como lido com a decepção.
Não havia nem uma ponta de cordialidade no tom glacial do rei.
Nem no de Sabina.
— Eu estou certa, meu amor. E você não vai se decepcionar.
Magnus encostou na parede fria de pedra para não ser visto quando o pai saiu do terraço.
Estava muito confuso com o que havia ouvido. Sua respiração quente criava nuvens congeladas no ar da noite fria. Sabina saiu logo atrás e começou a seguir o rei de volta para o salão de banquete. Ela passou, inclinou a cabeça, depois se virou e encarou Magnus.
Um arrepio desceu pela espinha do príncipe, mas ele manteve a expressão neutra. A beleza de Sabina ainda não havia se esvaído — longos cabelos escuros e lisos, olhos cor de âmbar. Ela sempre se vestia em tons de vermelho, com tecidos luxuosos que envolviam as curvas de seu corpo e se destacavam entre as cores sóbrias que a maioria dos limerianos usava. Magnus não fazia ideia da idade dela, nem parava para pensar muito no assunto. Ela estava no palácio desde que ele era apenas um bebê e sempre teve a mesma aparência para ele — fria, bela, eterna. Como uma estátua de mármore que vivia, respirava e participava de conversas enfadonhas.
— Magnus, meu doce garoto. — Um sorriso se abriu em seu rosto. Os olhos contornados com kajal permaneceram receosos, como se ela adivinhasse que ele havia escutado a conversa.
— Sabina.
— Não está se divertindo no banquete?
— Ah, você me conhece — ele respondeu com secura. — Eu sempre me divirto.
Ela entortou os lábios enquanto passava os olhos pelo rosto dele. Ele sentiu um formigamento desagradável na cicatriz que cortava a maçã de seu rosto.
— É claro que sim.
— Se me der licença, vou me recolher aos meus aposentos. — Ele apertou os olhos. — Pode ir agora. Não vai querer deixar o meu pai esperando.
— Não, eu não vou querer isso. Ele odeia ser desapontado.
Ele lançou a ela um sorriso frio.
— De fato, odeia.
Como Sabina não mostrou sinais de que se moveria, Magnus virou para o outro lado e começou a andar com calma pelo corredor. Ele sentiu o olhar quente dela em suas costas.
A conversa que havia escutado ecoava em seus ouvidos. Não havia sentido algum nas palavras de seu pai e de Sabina. Ele havia escutado eles falarem sobre magia e profecias. E tudo aquilo parecia perigoso. Que segredo o rei e ela sabiam a respeito de Lucia? De que despertar estavam falando? Seria apenas uma brincadeira boba que inventaram para se divertir no aniversário de sua irmã? Se parecessem um pouco entretidos, ele até poderia acreditar nisso. Mas não estavam. Estavam tensos, preocupados e nervosos.
As mesmas emoções cresciam no peito de Magnus. Ele não se preocupava com nada no mundo além de Lucia. Embora seus verdadeiros sentimentos nunca pudessem ser revelados, ele faria de tudo para protegê-la daqueles que tentassem lhe fazer mal. E agora seu pai, o rei — o homem mais frio, mortífero e perigoso que conhecia —, entrava certamente nessa categoria.

5 comentários:

  1. Então Lúcia é a bebe da qual fala no prólogo e Sabina traiu, e matou, a irmã, Jana, por "amor" a esse Gaius, o Rei Sanguinário? E Magnus é apaixonado pela Lúcia, mas acha que eles são irmão e por isso fica nessa...?
    Caramba, que confuso........ Mas amei mesmo assim :3 pq sou dessas

    Karina, eu adoro seu blog! Adoro poder ler aqui obras das quais eu talvez nunca nem chegasse a ter conhecimento da existência, como essa, por exemplo... Meus parabéns pelo maravilhoso trabalho!

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    1. Acho que não. No começo do livro, quando a criança foi roubada, cita um falcão,falcão este que aparece outra vez quando a princesa de Auranos está Paelsia. Aparentemente, Limeros é um reino em decadência totalmente diferente do reino de Auranos que é um reino próspero, talvez essa prosperidade tenha a ver com a presença da princesa Cleo.
      Mas sei lá, posso estar totalmente errada kkkkkkkkk isso é só uma teoria.

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  2. Muito estranho o Magnus gostar da irmã, mesmo aparentemente eles não serem irmãos de sangue, foram criados com tal. Fiquei um tanto enojada. Espero que isso mude.

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  3. Uou!! Gostei do Magnus, coitado (amor proibido ,se encaixa direitinho).

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  4. E o prêmio de "amor de irmão" in 6º lugar vai para...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!